Dinheiro para o bebê mexerá na aposentadoria

A criança receberia um pequeno patrimônio para começar a vida. Em troca, a geração dela poderá precisar trabalhar três anos a mais para se aposentar

Escrito por Gregório José producaodiario@svm.com.br
06 de Setembro de 2026 - 06:00
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Legenda: Jornalista

O bebê mal chegou ao mundo e já querem lhe ensinar uma lição de economia. Não exatamente de economia para ele, mas de economia em cima dele. A proposta de criar uma espécie de poupança pública para cada recém-nascido parece bonita à primeira vista. Coloca-se dinheiro em uma conta, aplica-se durante 18 anos e entrega-se ao jovem um patrimônio para começar a vida adulta. Na propaganda, é o futuro sorrindo para a criança.

Na conta real, porém, existe uma pequena vírgula que muda tudo.

Para financiar a chamada Conta Convergência, os defensores da proposta sugerem aumentar em três anos a idade mínima para aposentadoria das gerações mais jovens.

Ou seja, alguém oferece mil reais para o bebê e cobra a fatura dele quando adulto.

A criança receberia um pequeno patrimônio para começar a vida. Em troca, a geração dela poderá precisar trabalhar três anos a mais para se aposentar. E há quem tenha coragem de apresentar isso como investimento no futuro.

Que futuro é esse?

Um futuro em que o recém-nascido ganha uma conta bancária, mas herda também uma conta previdenciária mais longa.

É como dar um cofrinho para a criança e, junto com ele, entregar um calendário dizendo que ela terá de trabalhar até mais tarde para pagar o presente.

A proposta brasileira se inspira nas chamadas Trump Accounts dos Estados Unidos, que começaram a ser implementadas em 2026 com aporte federal de mil dólares para crianças elegíveis. Lá também existe a lógica de criar patrimônio desde cedo. A diferença é que não se pode simplesmente importar a fotografia e esquecer o resto da paisagem.

Aqui, milhões de jovens chegam à vida adulta com renda baixa, dificuldade de acesso ao emprego qualificado e endividamento crescente. O número de jovens de 15 a 29 anos com acesso ao crédito praticamente dobrou entre 2016 e 2024, passando de 13 milhões para 27 milhões.

Esse jovem precisa de oportunidade. Precisa de salário melhor. Precisa de educação financeira. Precisa de formação profissional. Precisa de emprego capaz de sustentar uma família.

E o recém-nascido não pode se defender. Não vota. Não protesta. Não participa da negociação. Não tem sindicato. Não tem deputado para receber em gabinete. Só tem o azar de nascer no momento em que alguém decidiu que o futuro dele precisava ser financiado pelo próprio futuro.

Isso não é exatamente poupança do futuro.

É uma dívida com juros cobrados no tempo.

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