Há algo curioso que se repete ao longo da história: toda geração parece acreditar que a seguinte está perdida. Os mais velhos reclamam que os jovens já não têm os mesmos valores, hábitos ou prioridades. Mas, em meio a tantas críticas, uma pergunta quase nunca é feita: quem ajudou a formar essa geração?
Nenhum comportamento surge do nada. As pessoas são resultado das experiências que vivem, dos exemplos que recebem e da sociedade em que crescem. Pais, avós, professores, líderes e instituições ajudam, direta ou indiretamente, a moldar aqueles que vêm depois. Por isso, é difícil apontar o dedo para as novas gerações sem reconhecer que existe, ao menos em parte, uma construção coletiva nesse processo.
Isso não significa procurar culpados. A vida é mais complexa do que isso. Cada geração é atravessada por mudanças econômicas, transformações culturais e avanços tecnológicos que alteram a forma como as pessoas se relacionam, trabalham, aprendem e enxergam o mundo.
Basta olhar para a história: em diferentes épocas, os jovens foram chamados de rebeldes, desinteressados ou irresponsáveis. E, ainda assim, foram eles que transformaram sociedades, criaram novas formas de pensar e impulsionaram mudanças importantes. O conflito entre gerações não é novidade. Talvez seja, na verdade, uma das características mais permanentes da humanidade.
O problema começa quando acreditamos que a nossa geração foi a melhor ou que os valores do nosso tempo são os únicos corretos. O mundo muda, e as pessoas mudam com ele. Isso não significa abandonar princípios como respeito, empatia e responsabilidade, mas entender que eles podem ser vividos de formas diferentes em cada época.
As novas gerações enfrentam desafios que seus pais e avós não viveram. Da mesma forma, as gerações anteriores superaram dificuldades que os jovens de hoje talvez nunca conheçam. Comparar trajetórias tão distintas raramente produz compreensão. Quase sempre produz julgamento.
Talvez o caminho não esteja em decidir qual geração acertou mais, mas em reconhecer que todas erraram e acertaram à sua maneira. Afinal, cada geração é herdeira da anterior e responsável pela próxima. E, no fim das contas, educar não é apenas ensinar valores, é também deixar exemplos.
Fernanda Leite é jornalista