A casa própria ocupa um lugar curioso na imaginação nacional. O brasileiro desconfia de banco, de político, de previsão econômica e até da meteorologia. Mas acredita numa parede de tijolos com uma convicção quase religiosa. Se sobrou algum dinheiro, compra-se um lote. Se apareceu uma oportunidade, fecha-se negócio. Se o vizinho garantiu que está tudo certo, melhor ainda. O documento fica para depois. Sempre para depois.
Os números ajudam a explicar o tamanho desse costume. Levantamento do IBGE mostra que 12,3% dos domicílios próprios do país não possuem título de registro regular. Nas áreas rurais, a proporção alcança 26%. Em outras palavras, milhões de brasileiros moram em imóveis que consideram seus, mas cuja situação jurídica conta uma história menos tranquilizadora.
É fácil atribuir tudo à informalidade histórica do país. Seria uma explicação confortável e incompleta. Existe também um cálculo doméstico perfeitamente racional. Quando a família já fez malabarismo para comprar o imóvel, surge a notícia de que ainda faltam escritura, registro, certidões, taxas, honorários profissionais e uma peregrinação por repartições que parecem ter sido desenhadas por um inimigo da felicidade humana. O comprador olha para a pilha de despesas e conclui que a parede já está de pé, o telhado não cai e a cozinha funciona. A documentação pode esperar.
E espera.
Muitas vezes por décadas.
O resultado é uma espécie de propriedade provisória permanente. O imóvel existe, a família mora nele, paga contas, faz reformas, planta árvore no quintal e discute com o vizinho por causa do muro. Falta apenas o detalhe de provar juridicamente que aquilo lhe pertence.
A burocracia brasileira tem um talento especial para produzir esse fenômeno. Em teoria, a documentação garante segurança patrimonial, facilita financiamentos, reduz conflitos e valoriza o bem. Na prática, o cidadão frequentemente encontra custos que parecem desproporcionais à sua renda e procedimentos que exigem tempo, dinheiro e uma paciência que já não é distribuída em larga escala no país.
O medo dos honorários também pesa.O temor de gastar hoje acaba produzindo um prejuízo maior amanhã. Quando chega a hora de vender o imóvel, fazer inventário, buscar crédito ou resolver uma disputa familiar, descobre-se que o problema não desapareceu. Apenas amadureceu.
O paradoxo brasileiro é admirável. O cidadão aceita assumir uma dívida de trinta anos para comprar uma casa, mas hesita diante da conta necessária para legalizar a posse dessa mesma casa. É como comprar um automóvel e decidir economizar justamente no volante.
Enquanto isso, cidades inteiras convivem com territórios juridicamente nebulosos. O problema não está apenas nas famílias. Está também na incapacidade histórica do Estado de transformar a regularização fundiária em um processo simples, acessível e previsível.
Talvez a grande ironia nacional seja esta. O brasileiro sonha com a escritura como quem sonha com a aposentadoria. Sabe que seria importante. Sabe que traria tranquilidade. Sabe que um dia precisará dela. Mas sempre existe uma conta mais urgente, uma reforma mais necessária ou uma emergência mais imediata.
E assim seguimos. Um país apaixonado pela casa própria e desconfiado do papel que a transforma, de fato, em propriedade. Um país onde milhões de pessoas possuem a chave da porta, mas ainda procuram a chave jurídica do patrimônio. Afinal, entre enfrentar a burocracia hoje e empurrá-la para amanhã, o brasileiro frequentemente escolhe amanhã. A burocracia, por sua vez, agradece e permanece exatamente onde sempre esteve, esperando pacientemente pela próxima vítima.