A transição energética depende de cooperação internacional, investimentos consistentes e estabilidade geopolítica. Nesse contexto, a recente crise entre Brasil e Estados Unidos, marcada pela imposição de tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros e pelo aumento das tensões diplomáticas, cria obstáculos concretos à evolução dessa agenda.
Em novembro de 2024, os dois países firmaram um acordo bilateral para impulsionar tecnologias de energia limpa, como hidrogênio verde, biocombustíveis avançados e geração solar e eólica. O pacto previa investimentos, transferência de tecnologia e cooperação científica, unindo a inovação norte-americana à industrialização verde brasileira.
Com o atual esfriamento das relações diplomáticas, esse acordo corre o risco de esvaziamento. A crise pode congelar iniciativas, limitar o fluxo de recursos e atrasar projetos estratégicos. Entre as consequências macroeconômicas estão tarifas mais altas, dólar valorizado, que encarece importações tecnológicas, e juros elevados, que dificultam o financiamento de projetos verdes. A soma desses fatores compromete a competitividade e a continuidade da transição energética no Brasil.
Mas vale lembrar que os EUA também dependem do Brasil: somos líderes em biocombustíveis, possuímos abundância de lítio, nióbio e terras raras, além de uma matriz energética majoritariamente renovável. Ou seja, enfraquecer a parceria compromete não apenas os interesses brasileiros, mas também a agenda climática global.
O dilema que se impõe é claro: como manter o protagonismo do Brasil na transição energética em um ambiente internacional instável? Essa disputa não é apenas comercial; trata-se de um teste para a resiliência da nossa política energética e para a capacidade do país de liderar o século XXI com base na sustentabilidade.
O Brasil tem os recursos naturais, a matriz limpa e o capital humano necessários para ser uma referência mundial. Para isso, precisa transformar a crise em oportunidade: fortalecer a indústria nacional, incentivar a pesquisa aplicada, garantir previsibilidade regulatória e afirmar sua soberania energética. Só assim poderemos projetar o Brasil como protagonista global da transição energética.