As redes sociais transformaram a maneira como profissionais de saúde se comunicam com o público. Na nutrição, imagens de “antes e depois” mostram evoluções, mas também levantam preocupações sobre comparação corporal, promessas de resultado e expectativas irreais. O desafio não deveria ser apenas decidir se uma imagem pode ou não ser publicada, mas discutir como essa comunicação pode ser feita com responsabilidade.
A discussão ganhou força com o novo Código de Ética e Conduta do Nutricionista, estabelecido pela Resolução CFN nº 856/2026, que restringe a divulgação de resultados de pacientes. A repercussão levou o Conselho Federal de Nutricionistas a suspender o lançamento do código e abrir uma nova rodada de diálogo com a categoria.
É preciso reconhecer que existe uma razão para proteger o paciente. Uma fotografia de evolução pode ser interpretada como promessa, mesmo quando essa não é a intenção. Cada organismo responde de uma maneira, e transformar uma experiência individual em expectativa para milhares de pessoas pode alimentar a ideia de que existe uma fórmula ou um corpo ideal.
Mas existe uma diferença entre prometer um resultado e apresentar uma experiência real de forma contextualizada. Uma imagem acompanhada de informações sobre as particularidades do caso, sem garantir o mesmo resultado para outra pessoa, também pode ter função educativa e estimular a busca por acompanhamento profissional.
Esse debate é ainda mais relevante no ambiente digital. Enquanto profissionais regulamentados discutem limites para falar sobre saúde, as redes continuam repletas de conteúdos sobre emagrecimento e transformação corporal produzidos por pessoas sem formação específica. A comunicação profissional não pode perder espaço justamente onde a desinformação encontra grande alcance.
Não defendo uma comunicação sem regras. Defendo critérios. Precisamos combater promessas de resultados rápidos, comparação corporal e a ideia de que determinado protocolo funciona da mesma maneira para todos. Ao mesmo tempo, o nutricionista precisa poder utilizar a comunicação para valorizar a ciência e incentivar a busca por atendimento qualificado.
A questão central não é escolher entre liberdade de comunicação e proteção do paciente. É encontrar equilíbrio. Uma evolução individual não deve ser apresentada como receita de resultado, mas também não precisa ser tratada automaticamente como uma ameaça.
Se o objetivo é proteger a população, o caminho pode estar menos em simplesmente deixar de comunicar e mais em estabelecer parâmetros claros para que profissionais habilitados possam fazê-lo com responsabilidade, ética e informação científica.