Pajeú das catolezeiras

Telúrico riacho de nostálgica era! Riacho dos catolés, hoje navegado, a seco, por bolhas refrigeradas de aço e plástico, conduzidas por humanos, apressados ao sólido que se desmancha no nada

Escrito por
Luiz Carlos Diógenes producaodiario@svm.com.br
Escritor
Legenda: Escritor

Riacho Pajeú, em convivência ecossistêmica com aguadas marginais e co-irmãos riachos tributários, pincelava a silhueta da Fortaleza de ontem. O astro-rei que a desposara, na visão nupcial do poeta, companheiro fiel na soalheira ao longo do dia, à noite, em colchões de areia fria, debaixo do lácteo lençol pajeuano, hibernava no corpo de Fortaleza nua em lua.  

Primícias da esvoaçante comunidade fortalezense, mistura de areia, vento e sal, estaquearam-se à margem esquerda. Corpo e alma da capital cearense, veio líquido vívido, fez-se eixo do círculo citadino. Atravessava-se de salto em vara, sob pinguelas, quando não de cambalhotas, feito brincadeira de crianças quando, de águas, concebem brinquedos mágicos. E com elas, nelas se refestelam. 

Telúrico riacho de nostálgica era! Riacho dos catolés, hoje navegado, a seco, por bolhas refrigeradas de aço e plástico, conduzidas por humanos, apressados ao sólido que se desmancha no nada. Pelo ignaro desprezo ao vilipendiado Pajeú, nele mesmo, exemplo vivo, afogam possibilidades de cidadania ecológica fortalezense. Rio dos pajés ou rio das palmeiras catolezeiras, nada em busca de um tempo perdido. 

Primeira medida da colonização da família pajeúna: Marajaitik. Primeiro passo para tentativa de seu fim. Refutar sua identidade originária, europeizando-o, no nome, nos costumes e nas crenças, na ética e na estética. Europeus, cabeças centradas na autoafirmação aniquiladora, apenas se sucederam, política e religiosamente. Um forte, dormiu Schoonenborch, protestante, e acordou Nossa Senhora de Assunção, católica, na mesma rede civilizatória de fios antiecológicos desencapados. O tempo longo, arrastado, escreveu a biografia e a violação permanente da vida socioambiental da comunidade ecossistêmica pajeuana.      

Aprisioná-lo em galerias armadas, nos ferros da presunçosa onipotência humana, afastou seus xapiris autóctones, por certo. Todavia, Pajeú sempre revisita seu berço, nem que a modo travesso, inopinado, atormentando um cidadão cindido entre onisciência e imprevidência. Bem civilizado, vivente das caixotas refrigeradas, impermeáveis à vida lá fora, tornou-se insensível ao devir dos seus, descuidadamente protegidos. 

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