Circulando pelas ruas do bairro Luciano Cavalcante, aqui em Fortaleza, costumo encontrar vez por outra, nas imediações do Centro de Compras Iguatemi, exatamente no cruzamento que dá acesso àquele local, um grupo diferente. Ali, um pai, em companhia dos dois filhos pequenos – um, andando entre os automóveis; e o outro, menor, em seus próprios braços - , circula perigosamente entre os veículos, em busca de receber algumas cédulas ou moedas que possam garantir-lhes minimamente a sobrevivência diária. Certa vez, ali estavam eles e, ao pé de uma árvore, encontravam-se uma pequena mochila vermelha (certamente reunindo seus poucos objetos) e um exemplar, bastante manuseado e com as páginas onduladas, da Bíblia Sagrada.
A imagem levou-me a refletir sobre a vida difícil que têm aquelas pessoas. E lembrei-me ainda de uma recente reportagem de TV, a que assisti, sobre as consequências do terrível terremoto que atingiu, em agosto próximo passado, a região do vale do rio Chocó e até a capital, Bogotá, no oeste da Colômbia. Na entrevista, um sobrevivente da tragédia narrava as terríveis consequências que sofrera, principalmente com a perda de todos os seus entes queridos. Apenas ele havia escapado do cataclismo e, naquele momento, exibia ao repórter as poucas coisas que recuperara do local onde vivia, totalmente arrasado pelo fenômeno. Todas elas resumiam-se a três ou quatro mochilas que o rapaz vigiava com atenção, próximas ao seu corpo.
Em ambos os casos, podemos dizer que, diante da necessidade de sobreviverem, as pessoas procuram superar suas dificuldades ainda que o horizonte imediato lhes seja desfavorável. Nunca lhes falei de perto, mas suponho que o pai e as crianças, muito provavelmente, deixaram o local onde moravam para se aventurarem pelas ruas, tangidos talvez pela falta de emprego ou até pela ação das facções criminosas que expulsam famílias de suas casas na periferia da cidade.
Sem outra alternativa, a opção que lhes resta é a caridade pública. E, assim, reúnem seus poucos pertences numa pequena mochila e com ela se expõem ao léu, a uma situação de vulnerabilidade ou desabrigo. Levam, porém, ao seu lado, a Bíblia Sagrada, cujo estado de uso já atesta, por si só, sua frequente busca pela palavra divina, onde fortalecem sua fé e sua esperança. Da mesma forma, o jovem colombiano, com os poucos pertences guardados em suas mochilas, possui no coração, apesar de todas as grandes perdas que sofreu, a chama da esperança por dias melhores.
Tales de Mileto (624 a.C.-558 a.C.), filósofo, matemático e astrônomo grego, considerado um dos sete sábios da Grécia Antiga, ao ser indagado por um sofista, com o propósito de confundi-lo, sobre qual seria a coisa mais constante na existência, citou a esperança, “porque permanece no homem depois que haja perdido tudo o mais”. E é exatamente ela que nos anima a todos, mas, especialmente, aqueles que mais sofrem os efeitos dos infortúnios da vida.