A inteligência artificial está chegando aos tribunais. Mas quem está treinando o cérebro humano?

Escrito por Alessandra Belfort producaodiario@svm.com.br
05 de Julho de 2026 - 06:00
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Legenda: Alessandra Belfort é juíza federal

A recente iniciativa da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de capacitar cerca de 1,4 milhão de advogados no uso da inteligência artificial representa um passo importante para a modernização da advocacia. Ignorar a presença dessas ferramentas já não é uma opção. Elas estão cada vez mais presentes na pesquisa jurídica, na organização de documentos, na análise de processos e na elaboração de textos.

No entanto, existe uma questão que vem recebendo menos atenção do que deveria: enquanto aprendemos a operar a inteligência artificial, estamos aprendendo a pensar diante dela?

A discussão sobre IA costuma concentrar-se em aspectos técnicos. Fala-se sobre produtividade, eficiência, regulamentação e acesso à tecnologia. Tudo isso é relevante. Mas há uma dimensão igualmente importante e muitas vezes negligenciada: a forma como a mente humana reage às respostas produzidas por sistemas inteligentes.
Como pesquisadora da tomada de decisão, observo que o principal desafio da inteligência artificial talvez não esteja na máquina, mas no ser humano. Nosso cérebro utiliza atalhos mentais para lidar com a enorme quantidade de informações que recebemos diariamente. Esses mecanismos são naturais e fazem parte do funcionamento cognitivo. O problema surge quando passamos a atribuir confiança excessiva a informações apenas porque elas são apresentadas de forma organizada, rápida e com aparência de precisão técnica.

Uma resposta bem estruturada não é necessariamente uma resposta correta. No entanto, a forma como ela é apresentada pode induzir a uma percepção de autoridade. A psicologia cognitiva conhece bem esse fenômeno. Não se trata de um problema criado pela inteligência artificial, mas de um comportamento humano que pode ser amplificado por ela.

No ambiente jurídico, essa reflexão torna-se ainda mais relevante. Decisões judiciais, pareceres, petições e manifestações processuais produzem impactos concretos na vida das pessoas. Quando ferramentas tecnológicas passam a participar desse processo, ainda que como apoio, é fundamental compreender como elas influenciam o julgamento humano.

Entre os riscos estudados pela literatura científica está o chamado viés de automação: a tendência de confiar excessivamente em sistemas tecnológicos e reduzir o nível de questionamento crítico sobre suas conclusões. Quanto mais eficiente e convincente parece a ferramenta, maior pode ser a tentação de aceitar suas respostas sem a devida verificação.

Isso não significa que a inteligência artificial deva ser vista como ameaça. Pelo contrário. Ela possui enorme potencial para ampliar eficiência, democratizar acesso à informação e otimizar rotinas profissionais. O problema não está na existência da tecnologia, mas na crença equivocada de que ela pode substituir integralmente a capacidade humana de análise, interpretação e responsabilidade.

Nenhum algoritmo assume as consequências éticas de uma decisão. Nenhum sistema responde moralmente pelos impactos de um julgamento. A responsabilidade continua sendo humana.

Por isso, acredito que a próxima etapa da transformação digital não será apenas tecnológica. Será cognitiva. Precisaremos desenvolver profissionais capazes não apenas de utilizar ferramentas inteligentes, mas de questioná-las. Não apenas de acessar respostas, mas de avaliar sua consistência. Não apenas de confiar na tecnologia, mas de compreender seus limites.

Durante muito tempo, imaginamos que os grandes desafios do sistema de Justiça fossem essencialmente normativos ou operacionais. Hoje sabemos que compreender os fatores psicológicos que influenciam nossas escolhas é igualmente importante. Afinal, vieses cognitivos afetam todos nós, independentemente de formação acadêmica, experiência profissional ou cargo ocupado.

A inteligência artificial não elimina os vieses humanos. Em determinadas situações, ela apenas altera a forma como eles se manifestam.

Capacitar advogados para utilizar a IA é uma iniciativa necessária e bem-vinda. Mas talvez a pergunta mais importante para os próximos anos seja outra: estamos preparando as pessoas para pensar criticamente diante das respostas produzidas por essas ferramentas?

O futuro da Justiça não dependerá apenas da qualidade dos algoritmos. Dependerá, sobretudo, da qualidade do julgamento humano que continuará existindo por trás deles.

Alessandra Belfort é juíza federal