A IA e o Olhar do Jurista

Na prática, a IA vem atuando como uma camada de suporte que amplia a capacidade de análise e organização

Escrito por Mirla Dantas e Carlos Bezerra producaodiario@svm.com.br
25 de Agosto de 2026 - 06:00
capa da noticia
Legenda: Gestora Jurídica/DPO

A presença da inteligência artificial no cotidiano jurídico já é uma realidade consolidada e não mais um tema do futuro. O que antes era visto como suporte eventual tornou-se ferramenta de uso corrente em escritórios, departamentos jurídicos e tribunais.

A questão que se impõe não é mais "devemos usar?", e sim, "como usar com responsabilidade?".

Os números ajudam a dimensionar esse movimento. Segundo o Relatório sobre o Impacto da IA no Direito (2026), elaborado pela Trybe em parceria com seccionais da OAB, Jusbrasil e ITS Rio, 77% dos profissionais da área já utilizam IA generativa semanalmente. Mais expressivo ainda: 78% relatam aumento de produtividade e 73% percebem aumento da qualidade e conformidade técnica. Estes são indicadores que apontam para uma transformação estrutural, não apenas conjuntural.

Na prática, a IA vem atuando como uma camada de suporte que amplia a capacidade de análise e organização. Ferramentas de pesquisa inteligente, triagem de documentos, identificação de precedentes e automação de tarefas repetitivas liberam tempo para que o profissional se dedique ao realmente importa: a reflexão estratégica.

O risco, porém, mora justamente no uso acrítico e sem o devido cuidado. Algoritmos operam com base em dados históricos, que podem carregar vieses, lacunas e inconsistências. Confiar cegamente em uma resposta gerada por IA sem submetê-la ao crivo da interpretação jurídica é um atalho perigoso. A tecnologia não interpreta intenções, não pondera valores nem responde por seus atos. Isso sempre será papel do jurista.

A privacidade também entra em cena. No ambiente jurídico, onde informações sensíveis, inclusive dados pessoais, são matéria-prima do trabalho, o uso de plataformas de IA exige conformidade com a LGPD e adoção de parâmetros rigorosos de segurança. Não se trata de escolha, mas de dever profissional.

O equilíbrio, portanto, está na combinação inteligente entre o que a máquina faz bem (processar grandes volumes de dados com rapidez) e o que o ser humano faz melhor: contextualizar, discernir, decidir. A IA é uma excelente assistente, mas não substitui o olhar crítico do jurista.

Cabe a nós definir onde termina a automação e começa a expertise.

Edição do Dia