A crise silenciosa do endividamento

Escrito por Bruno Henrique producaodiario@svm.com.br
13 de Junho de 2026 - 06:00
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Legenda: Bruno Henrique é economista

A inadimplência no Brasil deixou de ser apenas um indicador econômico para se tornar um retrato social preocupante. Em 2026, mais de 81 milhões de brasileiros possuem contas em atraso, número que representa quase metade da população adulta do país. O dado chama atenção não apenas pelo volume, mas pelo fato de ocorrer em um cenário de desemprego historicamente baixo e aumento da renda média. A aparente contradição revela uma realidade incômoda: trabalhar e ganhar mais já não significa, necessariamente, conseguir manter as finanças em equilíbrio.

O problema está menos na renda e mais no custo do dinheiro. Nos últimos anos, modalidades de crédito com juros elevados, como cartão de crédito, cheque especial e empréstimos pessoais, passaram a ocupar espaço crescente no orçamento das famílias. Com taxas que chegam a ultrapassar 400% ao ano, muitas pessoas recorrem ao crédito para complementar a renda e cobrir despesas básicas, criando um ciclo difícil de romper. O resultado é um endividamento persistente que transforma dificuldades momentâneas em problemas financeiros de longo prazo.

Os números mostram que essa realidade atinge principalmente os brasileiros mais vulneráveis. A grande maioria dos inadimplentes recebe até dois salários mínimos e enfrenta uma combinação de fatores que inclui inflação de itens essenciais, comprometimento elevado da renda e baixa capacidade de absorver imprevistos. Outro aspecto preocupante é a reincidência: milhões de pessoas permanecem endividadas por anos, evidenciando que a inadimplência deixou de ser uma consequência de crises específicas para assumir características estruturais. Soma-se a isso a insuficiência da educação financeira, que ainda impede muitos consumidores de compreender plenamente os riscos e custos das diferentes modalidades de crédito.

Diante desse cenário, combater a inadimplência exige mais do que programas pontuais de renegociação de dívidas. É necessário ampliar o acesso à educação financeira, estimular linhas de crédito mais sustentáveis e criar condições para que a renda das famílias acompanhe o custo de vida. A saúde financeira de uma população não se mede apenas pelo emprego ou pelo consumo, mas pela capacidade de planejar, poupar e construir estabilidade ao longo do tempo. Enquanto o crédito continuar sendo utilizado como substituto da renda, o Brasil seguirá convivendo com uma crise silenciosa que compromete não apenas o orçamento das famílias, mas também o desenvolvimento econômico do país.

Bruno Henrique é economista 

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