TENDÊNCIA REVERTIDA

Entulho vira matéria-prima

02:42 · 19.08.2009
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A usina de reciclagem de entulho de Fortaleza vem aumentando a eficiência da construção resíduo zero

Conhecida como uma das atividades mais degradadoras do meio ambiente, tanto pela demanda de insumos, quanto pela geração de resíduos, aos poucos a construção civil busca caminhos para melhorar a eficiência das edificações, no que diz respeito aos gastos energéticos, e reduzir o passivo ambiental do processo construtivo.

Nesta linha, a Usina de reciclagem de entulhos de Fortaleza (Usifort) vem expandindo atividades e aperfeiçoando técnicas para atingir a meta da construção resíduo zero. As boas práticas começam pela mão-de-obra empregada na atividade, constituída atualmente por 25 funcionários, sendo dez ex-presidiários em processo de ressocialização.

A dificuldade de obtenção de matéria-prima, marca dos primeiros anos de atividade, foi superada graças a parcerias com grandes geradores, como o consórcio de construtoras que atua nas obras do Transfor e também ao ingresso no mercado da demolição, com destaque para a obra do novo centro de feiras e eventos, que gerou 13 mil metros cúbicos de entulho em 35 dias; e a demolição de prédios abandonados no município de Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), que gerou seis mil metros cúbicos em uma semana de trabalho.

Parcerias

Dentro dessas parcerias, merece destaque a Companhia Energética do Ceará (Coelce). Marcos Kaiser, proprietário da Usifort, destaca que o material obtido a partir de postes e cruzetas da Coelce tem uma qualidade superior como agregado para concreto, com uma granulometria contínua que lhe confere muito mais resistência.

O material menos resistente, a multimistura (de granulometria crescente) é mais utilizado na edificação de casas e na construção de base e sub-base na pavimentação. Os tijolos são feitos com uma parte de areia de escavação e outra de entulho triturado.

O diretor técnico da Usifort, Rodrigo Vieira Botelho, explica que, mesmo sendo segregado no local da obra, o material que chega à Usifort passa por criterioso processo de separação, quando o ferro retirado é retificado para outros usos; o concreto é triturado e outros materiais são segregados para co-processamento, indo quase nada para o Aterro Metropolitano Oeste de Caucaia (Asmoc). Do concreto, é gerada principalmente a multimistura, mas também outros materiais, como argamassa e brita (19 e 25 milímetros).

A primeira obra de destaque com matéria-prima da Usifort foi o Conjunto Habitacional Anita Garibaldi, com 20 unidades construídas pela Prefeitura de Fortaleza. Nele, foram usados os tijolos ecológicos que são encaixados como um jogo que deixa espaços pré-definidos para as instalações hidráulicas e elétricas, além de conferir conforto temo-acústico às construções e não necessitar acabamento.

Posteriormente, os técnicos da Usifort desenvolveram uma tecnologia mais eficiente, inclusive em termos de custos, que está sendo aplicada ao Conjunto Estação Aracapé. Com o uso de formas, a concretagem da construção é feita no local, possibilitando erguer uma casa em três dias. Cada placa tem 15 centímetros de largura e, como é maciça, torna-se muito mais segura.

Assim como os tijolos de encaixe, esse tipo de construção evita o desperdício de material no processo construtivo. Retirada a forma, a parede pode receber simplesmente uma textura, sem necessidade de reboco. "Essa tecnologia quebra paradigmas na mão-de-obra da construção. É o fim da colher de pedreiro. O operário só precisa de esquadro, prumo e chave de fenda como ferramentas", descreve.

Materiais como o gesso ainda estão em estudo de viabilidade para aproveitamento pelos técnicos da Usifort. No ano passado, a usina, em conjunto com a Universidade Federal do Ceará (UFC) e a Petrobras, recebeu o Prêmio Odebrecht de Contribuição da Engenharia para o Desenvolvimento Sustentável com proposição de um pavimento ecológico para a cidade de Fortaleza a partir do aproveitamento de resíduos.

Depois das 32 unidades do Conjunto Estação Aracapé, já estão previstas mais 380 unidades no Jangurussu e 522 no Mondubim. Além disso, está prevista a construção de uma nova usina, no município de Caucaia, com o apoio da Prefeitura.

GERENCIAMENTO DE RESÍDUOS
SGA facilitou contribuição

A Companhia Energética do Ceará (Coelce) implantou, em 2006, o seu Sistema de Gestão Ambiental (SGA). "Gerenciamos todos os resíduos, efluentes, ruídos", destaca o responsável pela Área de Responsabilidade Social, Corporativa e Meio Ambiente, Sérgio Araújo. Foi nessa época que se iniciou a parceria com a Usifort, boa para ambas, pois, além de dar um destino adequado a postes e cruzetas que iriam se avolumar no Aterro Sanitário Metropolitano Oeste de Caucaia (Asmoc), a Coelce está fornecendo à Usina uma matéria-prima de excelente qualidade como agregado para concreto.

A Usifort também demoliu o antigo prédio da Coelce, reutilizando todo o material. Na atual sede da Companhia, por exemplo, foram utilizados tijolos ecológicos - resultantes do processo de reciclagem - para a construção do subsolo do prédio.

Essa é apenas uma das ações que justificam a manutenção da certificação ISO 14001. Dentro do seu SGA, a Coelce destaca quatro vertentes: Ética Ambiental, pela qual busca ser pró-ativa com a comunidade interna e externa, mantendo canal de comunicação aberto para informações das ações ambientais e disponibilizando acervo técnico sobre a gestão ambiental. Educação Ambiental, com o compromisso de promover em todos os níveis hierárquicos a educação ambiental, enfocando o senso de responsabilidade individual e o sentido de prevenção, pela capacitação e conscientização, incluindo terceiros que atuem em seu nome e fornecedores. Compromisso com a Legalidade, cumprindo os requisitos legais aplicáveis e outros requisitos subscritos pela empresa, como prevenção da poluição, monitoramento e recuperação de eventuais impactos ambientais. Gestão de Resíduos, por meio da promoção de alternativas para prevenir a poluição com a redução, da reutilização e da reciclagem de resíduos gerados na atividade operacional.

Ecoelce

Talvez o Programa Ecoelce seja a principal vedete desse veio socioambiental da Companhia. Ele incentiva a população cearense a adotar a coleta seletiva de lixo em suas residências, proporcionando, em contrapartida, uma alternativa para contribuir no pagamento da conta de energia com créditos pelos resíduos coletados. Indiretamente, o Programa proporciona geração de renda para a população, que pode utilizar os recursos economizados para outros fins.

Existem atualmente 22 pontos de coleta em Fortaleza, sete na RMF e 25 no interior. Para participar, o consumidor de energia só precisa se dirigir a um desses postos com a conta e fazer o cartão. Feito isso, é só separar os resíduos e voltar ao posto com o cartão em mãos, para a separação e pesagem do material. O valor correspondente é creditado no cartão. Ao receber a conta, o usuário deve verificar se foi debitado o valor correspondente ao seu bônus.

"Carona Solidária"

Recentemente a Coelce lançou também uma campanha interna, com o objetivo de incentivar os colaboradores a compartilharem caronas com seus colegas. Com a iniciativa, a direção da Companhia espera contribuir para a diminuição do número de veículos nas ruas, permitindo que o trânsito flua com mais rapidez e reduzindo a emissão de gases poluentes.

MARISTELA CRISPIM
Repórter

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