Economia

O pior já passou?

A trajetória de desaceleração da inflação é um dos sinais positivos no cenário econômico brasileiro, refletindo diretamente na confiança e no poder de compra do consumidor, mas o País ainda espera outras mudanças para retomar seu crescimento

00:00 · 11.02.2017 por Yohanna Pinheiro - Repórter

A sensação de queda livre da economia brasileira parece começar a dar uma trégua, caminhando em direção a uma estabilização. O recuo de indicadores como inflação e taxa básica de juros (Selic), principalmente, reflete a melhora do humor dos consumidores e, consequentemente, dos empresários, mas ainda não significa que o País já está retomando o caminho do crescimento econômico.

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De acordo com Alessandra Ribeiro, economista da Tendências Consultoria, um dos sinais mais positivos que se tem para o cenário macroeconômico brasileiro atualmente é a clara trajetória de desaceleração da inflação.

Na última quarta-feira (8), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou a menor variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) - que calcula a inflação oficial do País - para o mês de janeiro (0,38%) de toda a série histórica do indicador, que começou a ser divulgado em dezembro de 1979.

"É um dado superbenigno para a economia e está caminhando para atingir o patamar de 4,8% até o fim do ano, mais para o centro da meta estipulada pelo Banco Central (BC)", aponta Alessandra Ribeiro.

"Isso é importante, porque uma inflação menor corrói menos o poder de compra dos salários, ajuda a sustentar uma ampliação do consumo e a abrir espaço para uma redução ainda mais significativa da taxa básica de juros".

Selic

Em novembro do ano passado, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a taxa Selic pela primeira vez em quatro anos, quando caiu de 14,25% para 14% ao ano.

Na primeira reunião de 2017, a taxa foi rebaixada de 13,75% para 13%, com a perspectiva de encerrar o ano no patamar de 9,5%. "É um elemento importante para propiciar o acesso ao crédito", pontua a economista.

Para Joelson Sampaio, professor de economia da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), já foi possível perceber a redução da taxa de juros em alguns segmentos, com o reajuste de taxas realizados por algumas instituições bancárias.

"Em geral, leva-se de quatro a seis meses para (a redução da taxa Selic) surtir efeito na ponta, mas, como foi uma redução bem significativa, já se teve uma repercussão positiva no mercado", explica Sampaio.

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Renda x Dívidas

A redução dos juros ainda deve provocar efeitos positivos sobre o alto comprometimento da renda com dívidas passadas, acrescenta o pesquisador Leonardo de Carvalho, do Grupo de Estudos de Conjuntura (Gecon) do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

"Já apresenta reflexos para o consumo hoje e se espera, ainda, que haja algum alívio quanto à redução dos investimentos com o pagamento de juros", avalia.

Confiança

Outro sinal positivo é uma reação da confiança tanto dos consumidores como da indústria. Dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV) dão conta de que a confiança dos empresários cresceu 5,1% de novembro a dezembro de 2016 e a dos consumidores, 8,5%, de janeiro deste ano em relação ao mês anterior. "É o que se tem de mais concreto em termos de retomada do crescimento, mas ainda é pouca coisa", pondera Alessandra.

Leonardo Carvalho acrescenta que a recessão prolongada provocou uma redução do estoque, de forma que qualquer ampliação do consumo poderá significar um aumento da produção. "Como a demanda caiu muito, os estoques, em um primeiro momento, se acumularam. Agora, eles já estão em níveis bastante reduzidos, na média do planejado. Nesse ponto de equilíbrio, qualquer impulso de consumo pode gerar uma resposta mais efetiva da produção".

Alessandra destaca que já foi possível perceber dados melhores na produção industrial, que registrou uma alta significativa em termos dessazonalizados acima de 2% em dezembro. "Não se trata ainda de um crescimento sustentável, mas apenas por questões pontuais. Não é um resultado que se sustente a longo prazo, mas, ainda assim, é um destaque positivo", aponta.

A economista ressalta que ainda não é possível dizer se a economia do País está apontando para uma recuperação. "Começa-se, na verdade, a ter uma proximidade à estabilização", pontua.

Tudo leva a crer que esse processo será bastante lento e gradual. Para entrar de vez nos trilhos do crescimento, é preciso ainda resolver diversos percalços e digerir os excessos.

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