DECISÃO SURPREENDE

BC interrompe cortes e mantém Selic em 6,5%

Decisão do Banco Central refletiu a mudança recente no balanço de riscos para a inflação do País

01:00 · 17.05.2018
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Representantes do setor produtivo destacam que os custos elevados dos empréstimos desestimulam os investimentos e o consumo ( FOTO: NEYSLA ROCHA )

São Paulo. O Banco Central (BC) anunciou, ontem (16), que manteve a taxa básica Selic em 6,5% ao ano. A decisão era esperada por apenas um dos 38 economistas e casas ouvidos pela agência de notícias Bloomberg - John Welch, do HSBC. Para 37, o Banco Central cortaria em 0,25 ponto percentual a taxa básica, para 6,25% ao ano.

Segundo o Banco Central, a decisão de manter a Selic no atual patamar refletiu a mudança recente no balanço de riscos para a inflação prospectiva, de acordo com comunicado divulgado nessa quarta-feira, pela instituição. Os membros do colegiado avaliaram que manter a taxa no patamar atual é compatível com a convergência da inflação para a meta no horizonte relevante, que inclui os anos de 2018 e 2019.

O Banco Central foi enfático ao destacar que o cenário externo tornou-se mais desafiador e apresentou volatilidade. "A evolução dos riscos, em grande parte associados à normalização das taxas de juros em algumas economias avançadas, produziu ajustes nos mercados financeiros internacionais. Como resultado, houve redução do apetite ao risco em relação a economias emergentes", justificou a autoridade monetária.

Por isso, o Copom decidiu manter a taxa de juros em 6,50%, a despeito de notar que os últimos indicadores de atividade econômica mostram arrefecimento, em um contexto de recuperação consistente, mas gradual, da economia. "O Comitê julga que o comportamento da inflação permanece favorável, com diversas medidas de inflação subjacente em níveis ainda baixos, inclusive os componentes mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária", acrescentou o BC.

O Copom repetiu que os fatores de risco para a inflação consideram, de um lado, a propagação do nível baixo de inflação, e de outro, a frustração das expectativas sobre a continuidade de reformas. Mas o colegiado destacou, desta vez, que o risco de "continuidade" da reversão do cenário externo para as economias emergentes se intensificou desde a última reunião, no mês de março.

"Choques externos devem ser combatidos apenas no impacto secundário que poderão ter na inflação prospectiva. Esses choques, entretanto, podem alterar o balanço de riscos ao reduzir as chances de a inflação ficar abaixo da meta no horizonte relevante, por meio de seus possíveis efeitos secundários", concluiu o Banco Central.

Decisão reflete preocupação

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) avaliou que a decisão do Copom "reflete provavelmente, as preocupações do Banco Central com os impactos da recente desvalorização do real frente ao dólar". Para a indústria, no entanto, a inflação baixa e ritmo muito lento de recuperação da economia permitiriam um novo corte na taxa Selic

A entidade destaca, em nota, que "embora os juros atuais sejam os mais baixos desde 1986, os custos dos financiamentos continuam elevados por causa do spread bancário".

"Os custos elevados dos empréstimos desestimulam os investimentos das empresas e o consumo das famílias, comprometendo a recuperação da economia", afirma o presidente da CNI, Robson Braga de Andrade.

Andrade afirma ainda que o crescimento sustentado depende do equilíbrio das contas públicas. "É preciso persistir nas medidas de ajuste fiscal que assegurem a estabilidade econômica. Isso permitirá a manutenção dos juros baixos por um longo período", afirma na nota o presidente da CNI.

Contra o Brasil

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) também emitiu nota comentando a decisão do Copom.

"A manutenção da Selic retardará ainda mais a redução do custo do crédito. Corremos o risco de ver morrer a retomada da economia, num momento em que o Brasil tenta sair de sua pior crise. O crescimento ainda é muito frágil - e só vai ganhar força se ficarem em nível razoável os juros para quem quer investir e consumir. Crédito caro joga contra o país. Chega de engolir o sapo dos juros mais altos do mundo", diz, em nota, a entidade.

'Prudente'

Já o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) avaliou como "prudente" a decisão tomada pelo Copom. "O anúncio interrompe o ciclo de 12 quedas consecutivas da taxa básica de juros da economia brasileira. Ainda assim, trata-se do menor patamar histórico já registrado no País", destacou a entidade.

Para o presidente do SPC Brasil, Roque Pellizzaro Junior, tanto a inflação atual quanto as expectativas de inflação estão em linha com a meta oficial e a atividade econômica continua fraca, o que favorece uma política monetária expansionista, como a manutenção da atual taxa.

O cenário mostra que o IPCA acumulado em 12 meses até abril registrou variação de 2,76% e a expectativa da pesquisa Focus mostra o índice em 3,45% ao final deste ano.

Redução

Apesar da manutenção da taxa básica de juros pelo Banco Central, o Itaú Unibanco anunciou nova redução dos juros cobrados nas linhas de cheque especial e de empréstimo pessoal. O banco não vai mexer nas taxas mínimas cobradas nessas modalidades, mas informou, em nota à imprensa, que o juro médio cobrado no cheque especial sai de 11,90% para 11,50% ao mês.

No ano, a taxa média cobrada na modalidade, de acordo com a instituição, já foi reduzida em 1,23 ponto porcentual.

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