Lixão do Jangurussu inativo há 20 anos aguarda recuperação

Se no imaginário coletivo a “rampa do Jangurussu” é uma das marcas emblemáticas de Fortaleza, na realidade, o maior lixão inativo da Capital sofre impactos e segue acumulando promessas de resolução dos problemas ambientais e sociais históricos

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Após a desativação em 1998, o Jangurussu não teve o lixo retirado no local e catadores ainda usavam o espaço, como nesta foto de 2009. Atualmente, a vegetação encobriu completamente os resíduos na rampa e, apesar do espaço temporal, os problemas como a contaminação e os impactos sociais se mantêm no local Foto: Kid Jr

Aos desavisados, a montanha de quase 40 metros de altura, coberta por vegetação seca, até pode aparentar ser uma inofensiva formação natural da paisagem periférica de Fortaleza. Fixado no Jangurussu, o maior lixão inativo da Capital, embora possa parecer desconhecido às novas gerações é também a rampa mais simbólica e problemática da cidade.

Em 2018, o antigo lixão completa 40 anos de criação e 20 anos de encerramento. Não é mais o destino final dos resíduos de Fortaleza, mas tal qual fez com o lixo durante décadas, segue amontoando promessas de recuperação.

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A previsão ainda na década de 1970 era de que a capacidade do lixão do Jangurussu se esgotaria por volta de 1988, quando o mesmo deveria receber 1.500 toneladas de resíduos por dia. Mas o prazo cresceu, assim como o relevo de lixo que, além das graves consequências socioambientais, passou também a gerar impacto visual e desvalorização do solo circunvizinho. 

Quando assinada em 17 de março de 1998 pelo prefeito de Fortaleza, Juraci Magalhães e pelo governador do Ceará, Tasso Jereissati, a desativação do Jangurussu previa que o lixo de Fortaleza passaria a ser depositado no Aterro Sanitário Municipal Oeste de Caucaia (Asmoc). 

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O encerramento das atividades foi gradual. Documentos registram que, nessa época, cerca de 400 pessoas viviam precariamente da coleta de lixo em cima da rampa. Disputando as sobras com diversos tipos de animais. Já o relato de trabalhadores que operaram no lixão evidenciam que esse total era muito maior, chegando até 3 mil pessoas. 

Procedimentos necessários não foram garantidos

Da desativação sobraram expectativas. Planos anunciados pelos representantes do poder público à época indicavam que, pelo menos, sete iniciativas de recuperação do lixão seriam executadas para aproveitar os 24 hectares cobertos de lixo. Nenhuma das medidas se concretizou. 

“O que foi tentando fazer naquela quantidade alta de lixo era tentar descontaminar o Rio Cocó na beira. Porque há uma contaminação por baixo por percolação e por cima. Foram apenas feitos alguns depósitos de recolhimento do chorume na parte superficial. Mas na parte por baixo não. Na época não houve recursos do Governo do Estado e Banco Mundial para que pudesse fazer uma remediação do lixão”, explica o doutor em saneamento ambiental e presidente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental no Ceará (Abes-CE), Humberto de Carvalho Jr.

As lacunas no destino do Jangurussu são reforçadas pelo professor do Mestrado em Tecnologia e Gestão Ambiental do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), Gemmelle Santos. Desde a desativação, avalia ele, era necessário ter garantido o monitoramento da qualidade das águas superficiais e subterrâneas, a composição dos gases emitidos pela camada de cobertura, além do acompanhamento da saúde da população do entorno. 

Acredito que revegetar com espécies nativas seja a melhor alternativa.

Os anos 2000 e a década seguinte continuaram sendo de projeções. A área segue sem intervenções ou qualquer movimento concreto de mudança. Quem vive no local ou acompanha os moradores da região, sabe que além dos problemas ambientais, as demandas sociais se avolumam, dentre eles: a insegurança e carência de infraestrutura. 

“A área do Gereba (localizada na encosta da rampa) é uma das mais vulneráveis. Com um contingente muito alto de crianças e adolescentes com carência de políticas públicas”, relata a auxiliar administrativa, Juliana Araújo, mobilizadora em um Grupo de Mulheres da comunidade do Gereba, situada no bairro. 

Outro ponto em questão é que embora a área tenha sido desativada oficialmente há 20 anos, o entorno do antigo lixão ainda concentra a Estação de Transbordo e o Centro de Tratamento de Resíduos Perigosos (CTRP). 

O diretor presidente da Marquise Ambiental – empresa do Grupo Marquise –, Hugo Nery, explica que a Estação de Transbordo – local de compactação do lixo levado posteriormente para o Aterro de Caucaia–, foi mantida no bairro devido à questões logísticas. 

Novas promessas de mudanças

A condição da Estação de Transbordo, avalia Hugo, é completamente antiga. Nas condições ideais os resíduos não devem ter contato com o solo, no entanto, no Jangurussu a realidade é outra. A solução, argumenta ele, deveria ser executada pela Prefeitura, pois a Marquise realiza apenas a operação do Transbordo sendo o poder público o proprietário da estrutura.

Não tem expectativa de acabar com o transbordo no Jangurussu

Em 2018, o zoneamento do antigo lixão foi alterado, passando de Zona de Requalificação Urbana (ZRU) para Zona de Recuperação Ambiental (ZRA), o que, segundo a Prefeitura, irá possibilitar a revitalização do local.

A projeção–, cogitada há alguns anos –, é que o antigo lixão dará lugar a um parque urbano, com um complexo voltado para a reciclagem. Nenhum prazo efetivo foi divulgado. O Jangurussu segue com novas promessas e a mesma torcida.