A existência de um certo "descolamento" entre a economia e o cenário político nos últimos meses proporcionam uma perspectiva "moderadamente positiva" para o ambiente macroeconômi-co brasileiro. Porém, essa tendência, embasada nos sinais positivos de indicadores como inflação e taxa de juros, ainda não será suficiente para provocar um crescimento expressivo do nível de atividade no País.
LEIA MAIS
> Setor produtivo do Ceará espera 2º semestre melhor
A análise, do economista Allisson Martins, prevê ainda uma retomada do crescimento "lenta e desequilibrada" entre os setores da economia. Ele avalia que a agropecuária deverá puxar essa retomada, ainda sob efeitos da safra recorde registrada no País, enquanto se espera que a indústria apresente crescimento mais sólido apenas nos últimos meses do ano, por conta da demanda de fim de ano e da reposição de estoques em alguns segmentos.
"O setor de serviços, responsável pela maior parte do PIB (Produto Interno Bruto) e do emprego no Brasil, estima-se que será o último a sair do estado letárgico, infelizmente, dificultando assim na dinâmica de crescimento mais acelerada e na geração de empregos", destaca Martins. Ele ressalta que a crise política, se não resolvida logo, poderá "azedar" essa retomada, que se reflete nos níveis de confiança dos empresários e consumidores.
Estabilidade
A opinião é compartilhada pelo economista Fernando Castelo Branco, que aponta ser vital ter um cenário político mais estável, "independentemente de quem fica ou de quem cai". "Até 2018, essa situação deve permanecer indefinida, mas é importante que o setor privado possa trabalhar e ter credibilidade de seus governantes para voltar a fazer investimentos. Ainda há uma ociosidade muito grande na indústria", comenta. Para ele, ainda não é possível ver claramente a retomada do crescimento econômico brasileiro, ainda que primeiros sinais positivos tenham começado a aparecer. "Alguns setores, como o de automóveis, apresentaram reações, mas foram pontos isolados que não podem ser generalizados. A exportação também vai bem, são pontos que mostram um caminho, mas o segmento industrial precisa de algo mais", aponta.
Para Castelo Branco, a aprovação da Reforma Trabalhista que tramita no Congresso Nacional é importante para o setor industrial que, com um governo desacreditado pela opinião pública, torna-se mais distante devido à dificuldade de aprovar a matéria. Ele defende que a medida seria uma ferramenta para reanimar a indústria, proporcionando maior dinamização à economia nacional.
"Embora nossa dívida pública continue crescendo, fatores que têm um peso sobre a macroeconomia, como a baixa da inflação e da taxa de juros, dão uma sensação de otimismo", pontua. Ele pondera, entretanto, que o cenário ainda é nebuloso e que ainda não dá para prever uma reação de fato da economia nacional. "A economia precisa se desprender disso (da questão política) para que possa retomar o crescimento", destaca.
Estado
Em relação ao Ceará, Castelo Branco reconhece o Estado como o melhor em situação fiscal do País, com perspectivas de maior aquecimento por conta dos investimentos previstos com a chegada da nova concessionária do Aeroporto Internacional Pinto Martins, em Fortaleza, a Fraport, com as parcerias externas do Porto do Pecém, com a usina de dessalinização e o com o plano de concessões de equipamentos públicos.
Essa boa situação fiscal, entretanto, não repercute diretamente no ambiente econômico, e sim na credibilidade do Estado para atrair investimentos, pondera o economista. "O capital estrangeiro, principalmente chinês, está começando a aproveitar as oportunidades que surgem na crise - o Brasil está se tornando um país barato e os chineses estão aproveitando", aponta Fernando Castelo Branco.
Ele destaca ainda a expectativa de que os chineses possam dar continuidade às tratativas para investir em uma refinaria no Estado, para que o empreendimento possa enfim se tornar realidade. "São projetos que poderão ter repercussão em cima do setor privado", afirma. (YP)
Projeções
"O setor de serviços, responsável pela maior parte do PIB e do emprego no Brasil, será o último a sair do estado letárgico"
Allisson Martins
Economista
"A economia precisa se desprender disso (da questão política) para que possa retomar o crescimento"
Fernando Castelo Branco
Economista