BC mantém taxa básica de juros em 6,5% ao ano
Selic permanece pela quarta reunião seguida do Copom no nível mais baixo da série histórica, iniciada em 1996

São Paulo. Os membros do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiram, por unanimidade, manter a Selic (os juros básicos da economia) em 6,50% ao ano. Com isso, a taxa permaneceu no nível mais baixo da série histórica do Copom, iniciada em junho de 1996. Foi a quarta reunião seguida em que a taxa foi fixada neste patamar.
A decisão de ontem, 1º, era esperada pelos economistas do mercado financeiro. Ao justificar a decisão, o BC reafirmou por meio de comunicado que a evolução do cenário básico e do balanço de riscos prescreve manutenção da Selic no nível vigente.
"O Comitê entende que essa decisão reflete seu cenário básico e balanço de riscos para a inflação prospectiva e é compatível com a convergência da inflação para a meta no horizonte relevante para a condução da política monetária, que inclui o ano-calendário de 2019", completou o colegiado.
Projeções
No documento, o BC também atualizou suas projeções para a inflação. No cenário de mercado - que utiliza expectativas para câmbio e juros do mercado financeiro, compiladas no relatório Focus -, o BC manteve sua projeção para o IPCA em 4,2% para 2018 No caso de 2019, a expectativa passou de 3,7% para 3,8%.
No cenário de referência, em que o BC utilizou uma Selic fixa a 6,50% e um dólar a R$ 3,75 nos cálculos, a projeção para o IPCA de 2018 permaneceu em 4,2%. No caso de 2019, o índice projetado continuou em 4,1%. As projeções anteriores constaram no Relatório Trimestral de Inflação (RTI), divulgado no fim de junho. O centro da meta de inflação perseguida pelo Banco Central este ano é de 4,5%, com margem de tolerância de 1,5 ponto porcentual (índice de 3,0% a 6,0%). Para 2019, a meta é de 4,25%, com margem de 1,5 ponto (de 2,75% a 5,75%).
Indústria e comércio
A indústria e o comércio consideram "acertada" a decisão do Copom de manter a taxa de juros em 6,5%. Em nota, a Fiesp, entidade que representa a indústria paulista, ressalta a necessidade de o Brasil prosseguir com reformas para que os juros convirjam para níveis internacionais.
A Firjan, das indústrias do Estado do Rio, avalia que a atividade segue recuperação de forma lenta e a inflação continua abaixo da meta do Banco Central, portanto, não havia motivos para subir os juros.
Para o superintendente institucional da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Marcel Solimeo, há três razões para a manutenção da taxa: a inflação está no centro da meta, o nível da atividade econômica está muito fraco e aceleração da inflação no último mês foi "acidental e pontual, provocada pela paralisação dos caminhoneiros". "Qualquer aumento de juros nesse momento iria inviabilizar uma melhora da atividade", afirma, em comunicado.
O presidente em exercício da Fiesp e do Ciesp, José Ricardo Roriz, destaca que, a despeito de a taxa Selic ter caído para níveis historicamente baixos, essa queda ainda não foi "plenamente percebida" nos custos dos empréstimos. "São cruciais portanto, medidas que reduzam o elevado custo do crédito", afirma, em nota comentando a decisão do Copom. Ele ressalta que o avanço das reformas que "equacionem o grave desequilíbrio fiscal" é crucial para que o juro básico recue "de forma consistente" para níveis condizentes com os padrões internacionais.
No comunicado da Firjan, a instituição afirma que a decisão do BC foi "acertada". "É importante destacar que a mudança no direcionamento na política econômica, com a adoção de medidas que aumentaram os custos sobre o setor produtivo, freou a recuperação da atividade e reduziu o nível de confiança dos empresários", afirma o texto, que pede a retomada das reformas.
Opinião do especialista
Decisão releva baixa atividade econômica
Essa decisão do Banco Central já era esperada, mas mostra dois lados do nosso cenário econômico. O BC deixar o juros baixo mostra que eles continuam entendendo que a inflação está controlada, apesar do Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M) de junho resultado da greve dos caminhoneiros, mas, também, que a nossa atividade econômica está baixa.
A diferença das taxas de juros entre Estados Unidos e Brasil está muito baixa, também, e isso mostra que a nossa atividade econômica está muito ruim, de fato. Esse juros não é normal, então quando a atividade se recuperar, a expectativa é de que os juros voltem a subir, mas essas definições só vão aparecer depois das eleições deste ano.
Ainda assim é difícil acreditar que, nesse momento, teremos os níveis de investimento recuperados, até porque os investidores não enxergam que o Brasil possa dar retorno ao que será gasto.
Ênio Arêa Leão
Economista e sócio da Conceito Investimento