Tingimento natural de roupas ganha destaque em Fortaleza

Vestimentas sustentáveis contam com tecidos sem poliéster e coloração a partir de insumos naturais

Escrito por Roberta Souza, roberta.souza@diariodonordeste.com.br

Verso

Hibisco por hibisco, Renata Pinheiro constrói uma estampa para a blusa de tecido modal como se estivesse criando uma obra de arte. Ela é capaz de passar horas a fio trabalhando em peças exclusivas que, além da sofisticação artesanal, carregam consigo o conceito de sustentabilidade.

Formada em administração, a diretora criativa da marca Grão está há oito meses imersa no universo de roupas vivas, tingidas naturalmente com corantes naturais extraídos de plantas e sementes.

Antes, ela trabalhava no ramo de indústrias, mas o trabalho com vestuário já lhe chamava atenção há bastante tempo. "Sempre tive aptidão, sempre gostei de pesquisar, vez ou outra criava alguma coisa pra mim mesma. De uns anos pra cá, eu vinha tentando encontrar algo que fizesse mais sentido, aí quando eu realmente decidi sair (da indústria) e encontrar algo próprio, foquei em moda", contextualiza Renata.

Legenda: O hibisco é um dos insumos que podem ser utilizados na elaboração de estampas
Foto: Foto: Helene Santos

Decidida, começou a fazer cursos e oficinas que logo a encaminharam para a técnica de tingimento natural, ainda pouco explorada em roupas confeccionadas no Ceará. A Esplar, ONG cearense que atua diretamente no setor de agroecologia, registrou somente um grupo de mulheres de Tauá que tentou trabalhar com isso nos anos 1990, porém sem sucesso.

Aqui a gente vê uma preocupação ou outra, mas não com todo o processo, do início ao fim. A escolha de um tecido coerente, sem poliéster, que é uma fabricação advinda de petróleo, também impacta. Vai da criação do modelo até o ponto de venda. As parcerias que são fechadas, os fornecedores, a preocupação do material que é usado, tudo precisa ser observado", afirma a administradora.

O pouco investimento nessa área pode ser atribuído ao preço que se paga. "Como ainda é um mercado muito específico, acaba que tudo tem um valor agregado mais alto. É um processo produtivo bem diferente do convencional. Um pouco mais lento, trabalhoso, com custos mais altos também, consequentemente", analisa Renata.

Técnicas

Na essência, porém, as técnicas são as mais naturais possíveis. Além do hibisco, açafrão, casca de cebola, casca de jatobá, folha de crajiru, erva-mate, serragem de pau-brasil, chá preto e flor de marcela são alguns dos extratos utilizados por Renata para dar cor e vida às peças. Seja com tingimento natural ou impressão botânica, alcança-se o resultado almejado.

No tingimento natural, a gente prepara o tecido e o extrato; e faz um banho desse tecido no extrato. Já a impressão botânica funciona como um quadro: você vai montando as dobras, os efeitos, as combinações em si, como você quer a imagem daquele tecido. É algo totalmente manual, peça por peça", define a diretora criativa. Fazer a impressão botânica, aliás, não impede um tingimento em sequência.

Renata, que executa ambas as técnicas, trabalha com uma ou duas auxiliares na produção. Além disso, tem uma parceria com a modelagem e com a costura. Ela recebe as peças semiprontas, montadas, faz o tingimento natural ou a impressão botânica, e devolve para a finalização e acabamento.

Legenda: Em um dos banhos pelos quais o tecido passa durante a impressão botânica, ele é submergido com produtos fixadores
Foto: Foto: Helene Santos

Com um ritmo diferente do convencional, a marca Grão vai lançar somente uma coleção por ano. A proposta é uma peça por mês, trabalhando com o mínimo de excesso possível. "Isso até por conta dos processos. Tem período que dá um certo insumo, tem período que dá outro", destaca a diretora criativa. As roupas têm um preço médio de R$200.

Renata reconhece que "não é da noite para o dia que a pessoa deixaria de consumir produtos sintéticos", mas considera que só de ela conhecer as peças naturais e de saber como funcionam, aos poucos são criados critérios diferentes de consumo. "Toda iniciativa é válida, é um impacto positivo", finaliza.

Passo a passo 

Impressão botânica:

Duração total: 5h em média

1 Umectação: o tecido é umedecido na água morna com álcool

2 Banho na purga: depois de 100% úmido, ele passa pela purga (banho com sabão neutro caseiro)

3 Banho de mordente: em seguida, é submergido em banho com produtos fixadores

4 Preparo da estampa: os insumos são distribuídos sobre o tecido estendido

5 Bastão: depois, ele é enrolado num bastão e amarrado de forma bem firme por um barbante

6 Água fervente: o bastão é submergido na água fervente

7 Lavagem e secagem: a peça é enxaguada e depois posta para secar na sombra

Tingimento natural

Duração total: 5h em média

1 Umectação

2 Banho na purga

3 Dois banhos de mordente: cada um com 40 minutos

4 Preparo de extrato natural: o insumo é fervido até formar um líquido homogêneo

5 Banho do tecido (aberto) no extrato durante 40 minutos

6 Enxágue e secagem na sombra

 

Serviço:

Loja Romã

Rua Oswaldo Cruz, 1346, Meireles. E-Shop: usegrao.Iluria.Com/