Roupas feitas de palha ganham espaço no closet

A palha de diferentes fontes sai do artesanato tradicional para entrar no guarda-roupa. Bela Gil investiu no buriti e a cearense Gisela Franck na carnaúba para criar peças ricas em personalidade e histórias

Escrito por Gabriela Dourado, gabriela.dourado@diariodonordeste.com.br

Verso
Legenda: Bela Gil diz que, para ela, é natural ter os mesmos ingredientes na cozinha, no banheiro e agora no armário
Foto: Divulgação

Trançar das palhas é velho conhecido de quem habita a região Nordeste. Em cadeiras que embalam as prosas na calçada ou nas bolsas que levam o apurado do dia do pescador, a fibra natural faz parte do dia a dia da terra do sol. Porém, a moda lança um novo olhar para esse antigo saber e propõe a criação de roupas produzidas com palhas de buriti, carnaúba e milho.

Conhecedora das diversas possibilidades que a natureza proporciona, Bela Gil carregou esse conhecimento adquirido na cozinha para investir também na moda. A chef e apresentadora uniu-se à marca Cantão para criar uma coleção cápsula desenvolvida no município de Barreirinhas, no Maranhão, junto ao projeto Maos (Movimento de Artesãs e Ofícios). As peças trazem como matéria-prima a palha de buriti, palmeira típica da região.

"Sempre busquei alinhar minhas ideologias em vários âmbitos da vida. Na moda não é diferente. Quando a marca disse que estava querendo fazer a próxima coleção sobre o sertão e me convidou para ter mais uma coleção com eles, eu me animei muito. Fui até o Maranhão conhecer as artesãs que fizeram as peças de palha de buriti e ajudei a escolher as estampas e modelagens de todas as peças da coleção", revela Bela em entrevista ao Verso.

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Com trabalho e pesquisas voltados a uma gastronomia e estilo de vida mais natural, o processo na criação das peças abriu ainda mais o leque de possibilidades para Bela. "Já conhecia bem o fruto do buriti, principalmente o uso do seu óleo na alimentação e produtos de beleza. Também conhecia a palha de buriti no artesanato, porém não fazia ideia do processo de confecção das peças, desde a retirada da palha da planta, passando pelo tingimento natural com cascas e ervas, até a confecção", diz.

Moda sustentável

No Ceará, a designer Gisela Franck já havia explorado as possibilidades da palha na moda para além dos acessórios. Em 2015, no Dragão Fashion Brasil, Gisela apresentou "Flor Dalinae", coleção que trazia shorts e tops com palha de carnaúba. A produção foi feita em parceria com o artesão Seu Absalão, da Barra do Ceará. "Hoje, já vemos muitas marcas indo na contramão do volume da moda e investindo em processos mais naturais, matérias-primas mais naturais e sustentáveis", comenta Gisela.

Ela explica que as peças podem ser usadas fora da passarela. O cuidado, indica ela, deve ser no manuseio, por serem peças delicadas, e também protegê-las do mofo ao guardar. "A palha tem tantas possibilidades, mas, como toda matéria-prima de fibra natural, é pouco utilizada no mercado da moda, tanto pelo valor que ela tem, como pelo cuidado que ela necessita. E por isso dificulta a produção em larga escala, algo desejado pela massa do mercado da moda".