"Revirar guarda-roupas": uma crônica sobre um dia no DFB Festival 2019

De quando as conexões de histórias, afazeres e descobertas no maior evento de moda autoral do Brasil me fizeram reviver memórias de meus primeiros anos e enxergar a complexidade do vestir

Legenda: Detalhe das peças do desfile da Jangadeiro Têxtil: diálogo com ancestralidades
Foto: Foto: Nicolas Gondim

Nunca foi sobre arrumar prateleiras. Ao simples convite de minha mãe para dobrar camisas, calças e bermudas no guarda-roupa de mogno desgastado de nosso quarto, na altura de meus nove ou 10 anos, já sabia o que viria pela frente: longas, profundas e animadas conversas sobre nós mesmos. As descobertas dela; os medos meus (ou vice-versa).

Cada peça do vestuário representava como que temáticas: meias iniciavam prosas preguiçosas de fim de tarde de domingo; macacões eram gatilho para falar sobre novidades; jeans remetiam a dramas. Não precisava haver lógica. O mais importante era saber que o contato com a indumentária nos desnivelava da suposta hierarquia entre mãe e filho. Tornava-nos irmãos.

Curiosamente, essas lembranças chegaram com força quando da minha vivência durante uma noite no DFB Festival deste ano. Fato inesperado, é verdade: a gente não está preparado para sair em uma quinta-feira e ser bombardeado por memórias das mais profundas, principalmente quando estão tão bem guardadas. E mais ainda quando são postas à superfície pelo contato com o outro, o atentar urgente de querer viver cada coisa de um evento cuja programação estava prestigiando pela primeira vez.

Legenda: Celeiro de conexões: das comidinhas servidas em estandes, passando pelas narrativas presentes nas roupas e a música pulsando por entre o público. A moda atravessa cada coisa no DFB Festival
Foto: Foto: Davi Magalhães

Assim, da entrada principal, passando pela galeria de fotografias gigantes, aos palcos de desfile e shows, contornei cada pedaço de chão. Iniciei conversas. Com Lucilene Vieira, por exemplo, troquei comentários no backstage sobre conhecimento. Bagagem. Desde a primeira edição ela participa do evento, atuando como engomadeira e trabalhando diretamente para estilistas na confecção de algumas peças para eles.

"É essa correria que você tá vendo aqui. Loucura, loucura, mas, no final, dá tudo certo", disse, sem tirar os olhos do vestido que estava engomando, ao mesmo tempo que dando atenção a mim. "Sabia que eu gosto muito disso? Todo dia passo por volta de 100 roupas e é tudo muito intenso; mas, nesses 20 anos, só passa na minha cabeça muito trabalho e mais realização, conhecimento? Mais gente pra trabalhar e conhecer".

Perto dali, ainda por trás da passarela, o fotógrafo Pedro Torres era feito a colega de ambiente. Afoito em desbravar, brindava a possibilidade do encontro durante o festival. 

Além de ver o desfile de marcas, rola o networking com outras pessoas, não necessariamente da área fashion. Estou vendo outros fotógrafos, com quais equipamentos eles estão trabalhando, e isso é muito importante para minha aprendizagem

Na iminência de apresentarem suas coleções, em meio ao corre-corre de modelos, maquiadores e toda uma cadeia de profissionais da moda, os estilistas Marina Bitu e David Lee também deixaram entrever o profundo do estar ali. A primeira, ao levar para a passarela peças cujo enfoque recaiu nas mulheres dos jangadeiros e economia feminina - numa confluência entre lisos e estampados, e investindo em acessórios fruto de trabalho de ceramistas, como bolsas que nasceram da argila e brincos confeccionados a partir da casca da manga - bradou: "Vejo conexão em tudo. Acho que cada coisa tem muita história e memória".

"Os próprios artistas se ajudam muito e torcem uns pelos outros. Percebo o evento, portanto, como essa construção de algo maior", completou, em sintonia com Lee, cujas palavras ressoaram: "Há uma pluralidade de marcas e pessoas que ou estão começando ou já participam há algum tempo. Acho que é uma família, tem um sentimento de proximidade, de saber a dinâmica de cada um". O desfile da coleção de David, inclusive, foi um dos que assisti. Mantendo o repertório de alfaiataria, trouxe peças que pudessem ser agradáveis ao ambiente urbano, onde o sol interfere bastante, mostrando-se demasiado gráfica.

Não à toa, o título de "Under the sun". No bojo da temática das conexões, um diálogo com indagações sobre referenciais de masculinidade. É preciso olhar além.

Palco

Outro momento pelo qual senti pulsar a veia plural do evento foi no desfile de Saldanha. Em homenagem ao deus grego dos ventos, Éolo, o investimento da cartela de cores proposta pelo estilista residiu em tons naturais, do branco ao bege, remetendo à vida costeira cearense. Ponte ainda com a energia eólica, convidando o público a refletir sobre o tanto que está lá fora e faz parte de nós também.

Não parou por aí. Esses bonitos fios convocando ao explorar fizeram-me ainda conhecer o trabalho de rendeiras e artesãos na seção dedicada às lojinhas; as comidinhas servidas nos pontos de alimentação (de onde eu ouvi um cozinheiro afirmar para alguém, "aqui a gente consegue ver as coisas de uma outra maneira, sobretudo a moda"); e os corpos em movimento, dançando ao som das atrações musicais. Sendo a praia um ambiente que muito conecta, é imperativo chamar todo mundo.

Por isso nunca foi sobre arrumar prateleiras. Assim como nunca é só mais um evento de gente desfilando. A questão é: não vale ter uma visão apequenada da moda. Não vale parar na vitrine. É preciso ir longe e olhar ao redor; circular, conversar, experimentar o novo. Ir. E revirar os guarda-roupas do estar-se bem, propósito do fazer e divulgar a arte do vestir. Tem tanta gente em cada costura, cada botão, acessório e para além disso, que é fácil, mesmo com minha visão de novato no ramo, mais propenso a ser fisgado por prateleiras de livros do que qualquer outra coisa, a perceber algo precioso: moda é sempre.


Categorias Relacionadas