Quase um ano após ser destruída, escultura da Mulher Rendeira retorna a Fortaleza restaurada

Filho do artista Corbiniano Lins confirmou que a obra saiu de Recife (PE) no último dia 11 de maio

Legenda: Escultura "Mulher rendeira" restaurada na agência do Banco do Brasil, localizada no cruzamento da Avenida Duque de Caxias com a Rua Barão do Rio Branco
Foto: Kid Júnior

Poucos dias antes de completar um ano do episódio de destruição da escultura “Mulher Rendeira”, do pernambucano Corbiniano Lins (1924-2018), Fortaleza recebe de volta o símbolo cultural restaurado. A informação foi confirmada pelo filho do artista, Chico Lins. Segundo ele, a obra saiu de Recife (PE) com destino à capital cearense, na última terça-feira (11).

Mais cedo, um leitor do Diário do Nordeste flagrou a escultura sendo levada ao local em que ela ficava originalmente, até ser destruída a marretadas em 29 de maio de 2020. Davi Lobo registrou a chegada da peça na agência do Banco do Brasil, localizada no cruzamento da Avenida Duque de Caxias com a Rua Barão do Rio Branco.

Foto: Davi Lobo
Foto: Davi Lobo
Foto: Davi Lobo

Foram três meses para restaurar, porque tinham peças que já estavam quebradas, tivemos que refazer partes do corpo dela também, mas a gente conseguiu entregar dentro do prazo e eles levaram agora”, conta Chico Lins.

Mulher Rendeira
Legenda: Escultura "Mulher Rendeira" restaurada, no ateliê da família de Corbiniano Lins, em Pernambuco
Foto: Chico Lins

Segundo o filho do artista, o processo de restauração teve início somente em dezembro de 2020, período que, em agosto passado, tinha sido mencionado pelo Banco do Brasil como de possível retorno da obra à agência da Praça do Carmo, no Centro.

“Ela chegou aqui em junho, mas aí não pagaram logo, foi muito complicada essa questão de pagamento, tive que provar que era filho do meu pai, quase isso”, explica Chico sobre o longo processo até a autorização do restauro. 

De acordo com ele, desde fevereiro de 2021 a Mulher Rendeira estava pronta para ser entregue, porém, alguns desentendimentos contratuais protelaram a viagem. “Agora está tudo encaminhado. O Banco do Brasil já pagou a parte dele e a Artflex falta um pequeno saldo, mas daqui um mês está tudo certo”, acredita Chico.

Etapas da restauração

Garantir que a restauração fosse feita pela família de Corbiniano foi uma questão levantada desde o princípio, tendo em vista as especificidades do material utilizado. “Aqui a gente só trabalha com as obras dele, e se você mandar para outro artista pode perder a linha”, defende o filho do pernambucano.

As etapas de restauro, que envolveram diferentes especialistas, incluíram uma limpeza da escultura, a retirada das partes danificadas, a investigação dos pontos que precisavam ser refeitos e a nova moldagem.

Mulher rendeira em destroços
Legenda: "Mulher Rendeira" em destroços, no ano passado
Foto: Chico Lins

“Fui atrás de alumínio da época pra não dar contraste. Em algum processo de restauro anterior, alguém já havia mexido na peça e tinha muita coisa que não estava na linha do artista. Colocaram concreto, cimento, argamassa. Tiramos tudo isso para poder trabalhar, porque ela é feita de alumínio cozido”, detalha Chico.

Instalação e adequação

Em nota, a assessoria do Banco do Brasil forneceu detalhes a respeito da condição da escultura neste momento. "O BB informa que a escultura encontra-se em processo de instalação e adequação e, em breve, os cearenses poderão voltar a contemplar a Mulher Rendeira no mesmo local onde originalmente a obra estava exposta: nos jardins da agência Empresa Fortaleza, à Praça do Carmo, em Fortaleza (CE)".

Também informou a respeito do processo de restauro do monumento. "Para garantir a qualidade do reparo e restauração da obra, o BB realizou todos os procedimentos e tomou todas as medidas necessárias, o que demandou ajustes no prazo de entrega da escultura. Todo o procedimento de restauro foi realizado por Chico Lins, filho do escultor José Corbiniano Lins".

A Artflex Engenharia, por sua vez, também procurada pela reportagem, ainda não se pronunciou sobre detalhes pertinentes à obra.

Mulher Rendeira
Legenda: "Mulher rendeira" foi concebida em 1966, por Corbiniano Lins. Na foto, registro anterior a 2020
Foto: Nelson Bezerra/Reprodução/Livro "Arte Pública de Fortaleza"

Para Chico Lins, o retorno da escultura à cidade para a qual ela foi concebida é motivo de alegria, mas também de reflexão.

É uma obra do meu pai, sinto orgulho de ver as obras dele serem bem tratadas, e não no estado em que ela chegou aqui ano passado. Foi muito feio o que fizeram com uma escultura que representa o povo nordestino, cearense. Espero que as pessoas deem mais valor as coisas da gente, não só a dos gringos, e que isso que aconteceu com a Mulher Rendeira não se repita mais”, considera.

Sentimentos do retorno

Instalada no jardim da agência do Banco do Brasil localizada na Praça do Carmo, Centro da Capital, desde 1966, a escultura “Mulher Rendeira” ficou aos pedaços após os operários da empresa Artflex Engenharia, contratada pelo Banco para realizar uma reforma, desmembrarem-na a marretadas. 

Destroços da obra foram resgatados pela arte-educador cearense José Viana, que tomou conhecimento do caso via denúncias nas redes sociais, em 29 de maio de 2020. De imediato, ele se deslocou até o local e conseguiu impedir que os destroços fossem enviados a um centro de reciclagem e vendido como entulho.  

O professor José Viana resgatou os destroços da obra e evitou que fossem vendidos como entulho
Legenda: O professor José Viana resgatou os destroços da obra e evitou que fossem vendidos como entulho
Foto: Natinho Rodrigues

Ao Verso, o arte-educador conta, agora, do sentimento de se dirigir novamente à agência do Banco do Brasil depois de quase um ano do ocorrido, a fim de conferir a obra restaurada. Tão logo ficou sabendo do retorno do monumento à Capital, ele foi até lá e um misto de sensações o atravessou ao estar novamente em contato com o monumento.

“São vários sentimentos. O primeiro é de dever cumprido, porque eu tenho essa sensibilidade de zelar por coisas que são nossas – essas imagens, as obras que estão espalhadas por Fortaleza – alimentando também a necessidade de a gente mantê-las, preservá-las”, diz.

“Ter visto a Mulher Rendeira voltar ao local onde ficava, para mim trouxe esse sentimento de que eu fiz alguma coisa que deu certo e que ela está lá. Isso é muito maravilhoso mesmo, uma emoção muito grande”, completa.

Indignação

Ao mesmo tempo, ele relata estar decepcionado com a postura da equipe à frente da agência do Banco do Brasil no que toca ao tratamento dado a ele durante todo o processo envolvendo a salvaguarda e posterior restauro da escultura. 

Legenda: Arte-educador José Viana lamenta não ter sido informado pela equipe da agência do Banco do Brasil de que a obra estava em Fortaleza de novo
Foto: Kid Júnior

Desde o dia 3 de junho, o que sobrou da escultura estava sob a guarda da família de Corbiniano Lins, em Pernambuco, para restauração e consequente retorno do monumento à Fortaleza. Nesse movimento, José Viana conta que sofreu “muitas desconsiderações por parte do Banco”.

A indignação irrompeu mais forte hoje quando, conforme afirma, não foi avisado pelo Banco de que a obra estava em solo cearense de novo.

“Não tiveram esse cuidado. Somente uma única pessoa que, na hora em que ficou sabendo, entrou em contato comigo. Uma pessoa da agência bancária, mas que não é daqui de Fortaleza, é de outra cidade, de Manaus. A impressão que eu pude sentir é como se eles dissessem, 'Coloca lá que ninguém vai perceber'. Na verdade, isso era para ter sido comunicado”, relata.

“Quando soube, fui ao Centro correndo, estava chovendo muito, e vi. Como disse, bateu aquela sensação de que valeu a pena ter corrido. Eu e a Adriana, minha companheira, que resgatamos a peça no ano passado, achávamos que não ia dar em nada. Mas, não. A gente tem a ‘Mulher Rendeira’ de volta”, comemora.

Melhor apreciação

Agora, com a obra novamente em território alencarino, o arte-educador espera que haja uma maior conscientização por parte da sociedade e do poder público no que toca ao estado de outras obras de arte espalhadas pela Capital.

“Seria interessante a gente aproveitar o momento para dizer que outras obras em Fortaleza merecem a mesma atenção, cuidado e carinho. Temos, por exemplo, a estátua do índio, no Parque das Crianças [escultura do pintor e escultor Euclides Fonseca (1897-1942)] que nunca ninguém tentou fazer uma restauração. Precisamos cuidar desses outros monumentos também”, defende.

Igualmente sublinha outra questão – um pedido, segundo ele, já feito à agência do Banco do Brasil onde a Mulher Rendeira está novamente posicionada: diminuir a extensão da grade que circunda a obra a fim de possibilitar uma melhor visualização da escultura por parte das pessoas.

Legenda: De acordo com José Viana, as grades ao redor da escultura impedem que a obra seja melhor contemplada pelas pessoas
Foto: Kid Júnior

“A obra voltou para Fortaleza tal qual o trabalho original. É mais do que justo que tirem realmente a grade e a gente possa admirar, contemplar, entender mais de perto o que é essa obra de arte, qual a representação dela, por que tantas pessoas se identificaram com a escultura, que memórias afetivas os fortalezenses têm dela a ponto de se sentiram tão tocados com o acontecimento no ano passado”, situa.

“A gente tem que trazer a obra é pra perto. Mantê-la numa grade depois da destruição é deixá-la aprisionada, sem as pessoas terem acesso. Até para tirar uma foto fica ruim com a grade estando lá”, percebe.

 

*Colaborou: repórter Diego Barbosa (diego.barbosa@svm.com.br)

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