Projeto social, estudos, casamento: apesar dos objetivos frustrados em 2020, cearenses planejam 2021

Com a vacina já sendo aplicada nos grupos prioritários, planos deixados para trás voltam a ser encarados como possibilidades

O neto Marcos sorri para a avó Maria Toinha enquanto ela faz renda de bilro
Legenda: Com o incentivo e parceria da avó Maria Toinha, Marcos espera defender a dissertação de Mestrado, ingressar no Doutorado e lançar dois novos livros este ano
Foto: Célio Alves

As 365 páginas de 2020 que viramos foram bastante rasuradas ao longo dos meses, com um calendário de planos não cumpridos em decorrência da pandemia de Covid-19. Eder Abner viu inúmeras atividades, inclusive a reforma da Biblioteca Comunitária Viva, que ajuda a coordenar no Barroso, serem paralisadas; Marcos Andrade precisou adiar a qualificação do mestrado e a publicação de livros em parceria com sua avó de 85 anos; e Priscila teve de reprogramar o casamento dos sonhos com o noivo Pedro após toda a organização. A humanidade foi obrigada a parar, mas, com os avanços da ciência no combate ao vírus, se permitiu planejar novamente.

Para a psicóloga e psicanalista Sabrina Matos, “um objetivo ético  e civilizatório para o ano de 2021, que todos nós deveríamos exigir dos governos, é que a vacina chegue para todos”. Ela defende que 2020 ficará “tatuado em nós” e, citando Freud, em seu texto "O mal-estar na cultura" (1930) lembra que “a frustração diz respeito à condição humana no sentido de que temos que frear nossas pulsões em prol da civilização. Ninguém pode tudo, ninguém tem tudo”.

A capacidade de esperar, as amizades, o afeto foram sustentáculos que certamente funcionaram como guardiões da nossa saúde psíquica durante os últimos meses, de acordo com Sabrina. E a profissional reforça que, guiados pelo processo de autoconhecimento, com todos os sabores, as cores e as texturas que esse ano nos trouxe, “teremos a chance de olhar para a frente e, mais fortalecidos, saberemos lidar com a transitoriedade e as impermanências da vida”.

Apoiados nisso, os cearenses anteriormente citados acalentam alguns dos projetos pessoais e sociais que esperam concretizar em 2021. 

Reforma e Reinauguração da Biblioteca Viva

Eder Abner, 24, já não faz mais tantos planos de longo prazo, mas um, em especial, ele está cultivando nessa entrada de ano. Atuante como mediador de leitura e também como um dos organizadores da Biblioteca Viva - Barroso, localizada na periferia de Fortaleza, ele vislumbra a possibilidade de iniciar a reforma do equipamento cultural agora em janeiro, mesmo que ainda não tenham o recurso financeiro suficiente para tal.

Legenda: Eder Abner vislumbra a reforma da Biblioteca Viva - Barroso para o ano de 2021
Foto: Thiago Gadelha
Foto: Thiago Gadelha
Legenda: Com quase dez mil livros no acervo, a biblioteca comunitária precisa de mais espaço para organização e realização de atividades
Foto: Thiago Gadelha
Legenda: Projeto de Reforma da Biblioteca Viva - Barroso
Legenda: Projeto de Reforma da Biblioteca Viva - Barroso

O prédio alugado funciona há mais de quatro anos, com quase dez mil exemplares no acervo, disponíveis para alunos das escolas públicas - do ensino infantil ao médio -, e também  adultos que frequentam o local.

“A reforma já era planejada e desejada há alguns anos por todos nós que organizamos a biblioteca, pois o espaço é antigo, pequeno para realizarmos cursos e oficinas. Com a ampliação, vamos poder fazer com mais frequência as atividades que já eram realizadas, trazer novas e poder receber o público com deficiência, pois o equipamento não tem acesso para cadeirantes e cegos, por exemplo”, observa Eder.

Na programação do espaço reformado, estão projetos que acabaram sendo adiados/cancelados com a pandemia, a exemplo do 2° Campeonato de Xadrez das Bibliotecas Comunitárias, das oficinas de grafite, do Curso de Astronomia, dentre outros. Mas a reinauguração ainda não tem data para acontecer.

“Não demos um prazo para reinauguração no momento, pois os recursos ainda não foram totalmente alcançados e também em uma obra pode acontecer imprevistos”, explica Eder. Segundo ele, o orçamento está na faixa de 8 mil reais, mas já dispõem de um valor inicial (R$3) para começar a reforma. Interessados podem apoiar o projeto. Basta entrar em contato pelo Instagram @bibliotecavivaoficial .

O mediador de leitura acredita na potência coletiva desse planejamento. “O projeto como um todo já faz a diferença na comunidade, e, com a reforma, vamos ampliar esse alcance e dar mais acesso à cultura, arte, conhecimento científico para boa parte da cidade”, acredita.

Defesa de Mestrado, início do Doutorado e lançamento de livros

No distrito de Canaan, em Trairi (a 143 km de Fortaleza), o estudante e poeta Marcos Andrade, 24, sofreu bastante com a mudança brusca de rotina imposta em 2020, que transformou o ambiente doméstico em espaço de trabalho. A distância da Universidade o fez adiar a banca de qualificação do Mestrado e também a publicação de seu livro, “Sonhos Encantados”.

Legenda: Em 2021, avó e neto publicarão livros e textos em revistas literárias
Foto: Célio Alves
Legenda: Marcos aprendeu a fazer renda de bilro com a avó Maria Toinha. Com o valor da venda, pagava passagens e alimentação na faculdade
Foto: Célio Alves
Legenda: Registro da formatura em Recursos Humanos, em 2015
Foto: Arquivo pessoal
Legenda: Com a melhora da situação financeira, Marcos e Maria se mudaram para uma casa de alvenaria, mas conservaram a cerca original como lembrança dos antepassados
Foto: Célio Alves

“Me senti emocionalmente afetado pelas dificuldades colocadas pela pandemia, ao ver as mortes das pessoas inclusive em Canaan. Tive muito medo de que minha avó, Maria Toinha fosse uma vítima da Covid-19”, relata. Mas foi ela mesma que o auxiliou nessa travessia.

“A mudança profunda também abriu espaço para reflexão e espiritualização, e encontrei condições de crescer com os saberes ancestrais compartilhados por minha avó. Ela me ajudou a encontrar formas de acreditar na vida e esperançar, isto é, de transformar os escombros em poesia”, partilha.

Para 2021, ele pretende prosseguir nesse processo de espiritualização, aprofundando-se nos saberes da umbanda. Já no aspecto profissional, programa-se para defender a dissertação de Mestrado em fevereiro, dando início, na sequência, ao Doutorado em Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde foi aprovado. Também deve se concentrar na publicação da obra ‘Sonhos Encantados’ e continuará editando o segundo livro da avó, ‘Caminhos Encantados’, previsto para ser publicado na segunda metade do ano. 

 

Como alguém que cresceu fazendo renda de bilros para pagar a primeira graduação e abrir as portas para a chegada na Universidade Pública, mudando ainda de uma casa de taipa para outra de alvenaria, Marcos entende cada desafio enfrentado, antes e depois da pandemia, como uma verdadeira aula.  

“A pobreza definiu meu lugar no mundo desde o princípio de minha existência social, mas aprendi com honestidade, perseverança e coragem a erguer a cabeça e acreditar que a educação me ajudaria a enfrentar a realidade. Estou esperançoso para 2021, pois sei que os Encantados também caminham comigo pelas estradas tortuosas da vida”, acredita.

Casamento e casa nova

A pandemia também adiou alguns planos do casal Priscila, 26, e Pedro, 28. Juntos há sete anos, eles começaram a idealizar o casamento em 2019, com buffet fechado para extensa lista de convidados. Os decretos governamentais e protocolos de saúde adotados como medida de segurança para conter a disseminação do coronavírus, porém, logo levaram os dois a refletir sobre o evento, que aconteceria no dia 13 de novembro passado, e agora está previsto para abril de 2021.

Legenda: Os noivos Priscila e Pedro esperam realizar a cerimônia de casamento em abril de 2021
Foto: Karol Duarte
Legenda: Os noivos Priscila e Pedro esperam realizar a cerimônia de casamento em abril de 2021
Foto: Karol Duarte
Legenda: Os noivos Priscila e Pedro esperam realizar a cerimônia de casamento em abril de 2021
Foto: Karol Duarte
Legenda: Os noivos Priscila e Pedro esperam realizar a cerimônia de casamento em abril de 2021
Foto: Karol Duarte

“Sofremos muito, até tomarmos a decisão pelo adiamento foi muito doloroso. Tivemos várias conversas, pensamos em outras possibilidades, aí rezamos e vimos que adiar era o melhor para nós. Temos pessoas na família que são do grupo de risco. Analisamos isso tudo e resolvemos adiar”, conta Priscila.

Ela, que é maquiadora, também passou por dificuldades financeiras com os familiares, todos autônomos, no ano que passou. Este foi outro fator de incerteza que a acompanhou no ano de 2020. “No início da pandemia, eu e minha família ficamos muito aflitos, sem saber o que faríamos, mas depois encontramos meios, nos reinventamos e foi dando tudo certo”, afirma.

Apesar das dificuldades, o casal ainda não perdeu a esperança de realizar o casamento como inicialmente planejaram, mas hoje já discutem opções caso não seja possível seguir com a ideia: mudar a recepção para um lugar aberto, diminuir a lista de convidados, realizar somente a cerimônia e adiar mais uma vez a recepção são algumas das opções por eles analisadas.

Depois da cerimônia, montar a casa nova está entre as prioridades, além da abertura de um espaço para Priscila atender clientes.

“Acredito que deixar de sonhar significa perder as esperanças. Temos que acreditar que tudo isso vai passar e que logo logo poderemos voltar às nossas rotinas. Além disso, um bom planejamento também nos assegura de termos outras possibilidades para chegarmos onde queremos”, finaliza.

 

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