Profissionais da cultura debatem o que esperam de Sarto na gestão cultural de Fortaleza

Classe artística demanda a implantação de mecanismos de incentivo à cultura, como o Fundo Municipal e a Lei de Incentivo. Trabalhadoras e trabalhadores da cultura também cobram comunicação mais consistente

Legenda: Fachada da Secretaria da Cultura de Fortaleza (Secultfor)
Foto: Reinaldo Jorge

A próxima gestão cultural de Fortaleza gerida pelo prefeito eleito José Sarto precisará lidar com desafios que, entre o poder público e os agentes culturais, já estão em pauta há tempos. À reportagem do Diário do Nordeste, quatro artistas, de linguagens distintas, responderam o que seria mais urgente para ser implantado e que ainda não saiu do papel como política cultural do Município. E também sinalizaram pontos que poderiam ser preservados ou melhorados sobre a condução das ações culturais municipais.

Para Silvianne Lima, atriz e produtora de teatro; e Dalwton Moura, produtor, jornalista e compositor musical; a próxima direção da Secretaria da Cultura de Fortaleza (Secultfor) pode fazer a diferença se conseguir implantar o Fundo Municipal de Cultura e da Lei de Incentivo à Cultura. "Isso com certeza faria grande diferença", sinaliza Silvianne.

Dalwton lembre que o prefeito Roberto Cláudio prometeu implementar as duas ações até o fim da gestão. As medidas, segundo ele, já estão na legislação desde a realização do conjunto de ações que criou a Secultfor. "Dezenas de editais vão movimentar nossa cena agora, por conta da execução da Lei Aldir Blanc. E com isso a gente pode ter ideia do impacto que teria novas possibilidades de captação de recursos, não só na música, como em todas as linguagens", observa.

A historiadora e pesquisadora da cultura afrodescendente, Cícera Barbosa, reforça esse ponto, avaliando que a prática de um Plano de Cultura construiria "percentuais concretos de investimento sobre a cultura".

A comunicação entre os agentes da cultura e gestores é outra questão ressaltada pelos artistas. Para a escritora e produtora cultural Anna Karine Lima, a política cultural de Fortaleza carece de diálogo e "as ações são muito pontuais", destaca ela.

"A cultura não é só a fruição. Me animaria de ver implantados cursos de formação artística, em todos os segmentos. Hoje, o artista também é produtor cultural, e tem vários processos burocráticos nos quais esbarramos porque, nunca, ninguém nos ensinou a fazer tal coisa. Como possuir um MEI, ter CNPJ, emitir uma nota fiscal", comenta ela.

Segundo Silvianne Lima, a próxima gestão precisa ouvir as reais demandas das linguagens artísticas. Para tanto, ela detalha que "tenha uma escuta e o fortalecimento do Conselho Municipal de Cultura, que está junto aos fóruns das linguagens, para se colocar no papel, mas também executar o que é pedido".

Equipamentos

Para os artistas, a próxima gestão da cultura no Município terá o desafio de melhorar o uso de equipamentos culturais já existentes. Anna Karine lembra que se trata de uma demanda "urgentíssima" a retomada das bibliotecas públicas e criar uma ponte com as comunitárias, a exemplo da Biblioteca Livro Livre do Curió e da Papoco de Ideias, no Pici.

"A (biblioteca) Dolor Barreira está abandonada há muito tempo e é um espaço importante, bem no corredor cultural da cidade. A gente tem uma defasagem de bibliotecas na cidade, ao mesmo tempo que há essa necessidade do encontro maior, entre as pessoas e o conhecimento", reflete Anna Karine.

Ainda segundo a escritora, o Centro Cultural Belchior, criado na gestão de Roberto Cláudio, é um "espaço bacana", mas poderia agregar mais a comunidade do entorno na Praia de Iracema e outras comunidades periféricas da cidade. Reinaugurado também no atual mandato, o Teatro São José, observa Silvianne Lima, ainda não tem uma programação a contento e foi reaberto enquanto a gestão municipal fechou outro equipamento, o Teatro Antonieta Noronha.

Preservação

Dentre as ações culturais do Município que, na opinião dos artistas, poderiam ser preservadas, a pesquisadora Cícera Barbosa vê a programação do Carnaval e do Pré-Carnaval de Fortaleza como um espaço que mobiliza o setor econômico e cultural da cidade.

"Ela só precisa se espalhar mais pelas periferias, com segurança, estrutura e palco. Mas acredito que está num bom caminho", sugere.

A pesquisadora ainda cita o projeto "O Bom de Fortaleza", que levou programação cultural a praças populares da cidade, como outro acerto da gestão.

"Lembro de uma ação que levou música clássica para as periferias, e todos os espetáculos foram cheios, quebrando aquele estigma de que o povo não gosta desse tipo de arte", lembra. Dalwton Moura reforça que outro ponto a ser mantido é a coerência entre o anúncio dos editais e a disponibilidade efetiva de recursos para realizar os pagamentos de artistas e demais profissionais da área da cultura.

"Deveria ser uma obrigação, mas acaba sendo ponto positivo, realizar os editais já tendo a previsão do recurso. Nossas demandas são enormes: o número de inscrições é sempre muito maior que a quantidade de vagas nos editais", diz.

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