Patativa do Assaré: poesia presente

A poesia de Patativa encadeava palavras e rimas para dizer, com seu talento próprio, uma vida tão óbvia quanto invisível: a dos excluídos de dignidade

A placa mais famosa no Centro de Assaré não é de inauguração de obra, mas eternização de um criador: "Eu sei que já estou no fim/ Eu sei que a terra me come/ Mas fica vivo o meu nome/ Para os que gostam de mim".

O privilégio de ter um filho ilustre se converte em responsabilidade quando ele passa a morar na memória a ser guardada. Mas se a poesia popular nasceu antes dele, sendo o poeta fruto daquela árvore, vale a pena conhecer o berço de onde brotaram tantos versos. A sorte da cultura é que não precisa chover para dar colheita - e também corre o risco de seca. Afinal, se a saudade faz o trovador, o que carece também faz o poeta popular. E são tantas carências. 

Patativa era, mais que instrumento literário, mensagem de si e dos outros. Até quando falava de uma dor particular, como a morte de uma filha, era coletivo, social, político. Por trás de uma poesia genial elogiada, o grito em forma de assobio poético. Arte é morte e vida.

Mas neste mundo de Cristo/ Pobre não pode gozá./ Eu, quando me lembro disto/ Dá vontade de chorá./ Quando há seca no sertão/ Ao pobre farta fejão/ Farinha, mio e arrôis/ Foi isso o que aconteceu: A minha fia morreu/ Na seca de trinta e dois
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Poesia dos dias

Passear pelo sertão de Patativa é deparar-se com o universal: andando na comunidade de Vila Baixa, numa estrada sinuosa de areia e pedra, deparo com um quadro de Jesus Cristo emoldurado pela porta da casa. Paro, bato palma e adentro. No fogão a lenha de Isabel, uma panela de arroz, outra de feijão. Fartura que dá para a casa de cinco: ela, duas filhas e dois netos. Fartura porque tem dia que é só o arroz, outros que é nada. "No meu tempo de moça, passava fome e tudo bem. Hoje, presta mais não".

Legenda: Izabel mora com filhas e netos numa casinha de taipa, em Assaré
Foto: Foto: Melquíades Júnior / SVM

O filho Cícero traz todo mês uma feira de R$ 150, de um tudo que caiba no valor. As filhas recebem Bolsa Família das netas e complementam a renda de comer. Isso porque foi confiar no amor dos outros. Izaulino pousou, fez menino e foi-se embora. Não pra longe. Só bem ali, na casa de outra. E não deixou de infernizar.

Por coincidência ou destino, havia encontrado um Izaulino no meio da estrada, cinco quilômetros distante dali. Com uma foice repousada no ombro, era como um balde sem água, uma colher sem comida, um vaqueiro sem gado. Sem terra e sem água, faz serviço de roçadeira no terreno dos outros.

"Trabalhava muito, no tempo que eu tinha coragem. Hoje já tô velho. Só trabalho de roça e é aperreado. Tô com três tarefas de roça, o feijão tá todo em cima da terra".

Na dúvida se é o mesmo Izaulino, mostro a Izabel a foto tirada no celular. Não ter mais dúvida.

- Isso é um traste. Se eu ver ele sou capaz de fazer uma besteira.

Isso depois de ele ter feito várias com ela, tratada que foi feito gado tangido. Tivesse Lei Maria da Penha no seu tempo de moça, estaria esse homem engaiolado.

Ficou sozinha com Cláudia, Patrícia, Cícero e Giovana, esta última casou e foi morar na Capital. "Vem sempre que dá, bonita, loura, gorda que é uma beleza". Presente de filho em casa de mãe é trazer comida. Letícia e Mateus, os netos, fazem a festa se aparece fruta ou bolacha recheada. Mãe dos dois, Cláudia tem depressão e dores na barriga que vem e vão. Aguarda há um mês e meio um raio x.

Se medicina é profissão de rico, ser atendido por um médico e fazer exame é luxo.

Izabel é a cara do sertão profundo. "Minha vida é dura. Dá um romance", diz, enquanto olha para algum ponto fixo que em linha reta atravessa meu ombro. "Possa ser que chova". A mãe, avó, agricultora muda o humor se mudar o tempo.

"Tudo o que procuro acho/Eu pude vê neste crima/Que tem o Brasi de Baxo/E tem tem o Brasi de Cima./Brasi de Baxo, coitado!/É um pobre abandonado/O de Cima tem cartaz,/Um do ôtro é bem deferente/Brasi de Cima é pra frente/Brasi de Baxo é pra trás."

- Patativa eu sei quem é. Morreu, não foi?

Há quase 17 anos.

O poeta e o lugar

As riquezas do sertão que ele versava existem tanto quanto a pobreza, daí ser uma palavra tão viva. Eu, que dele sei quase nada, fui atrás de conhecer, passeando por seus livros e por seu ambiente de criação. Não demora muito e qualquer história paralela cruza com um verso que leio.

Legenda: A fé sertaneja pela chuva percorre a literatura representada em Patativa. Deca Pinheiro, penitente em Assaré, foi admirador do poeta.
Foto: Foto: Melquíades Júnior/ SVM

Na feira livre da segunda, vem gente de tudo que é canto. O pau de arara estaciona, homem, mulher e menino desengaiolam pra pulsar a economia. Marcelo Sousa me vê com o cinegrafista Nilton Alves, saca um cigarro de palha da boca e começa a improvisar versos. As palavras saindo ao mesmo tempo que a fumaça, o bafo de cachaça e o sorriso:

"A todas família do meu Brasil, da festa do Assaré. Patativa, existiu, meu amigo, tenha fé, e o cigarrinho de palha, eu não deixo pra quem quer".

Puxa o isqueiro e reacende o rolo empalhado. Miceno olha e ri. "Esse aí não faz verso, faz hora". Miceno Pereira, 82, tem autoridade de 60 anos de viola. Faz poesia e canto no improviso. Veio de Altaneira para a feira com a esposa Maria. Entrou para a história por ter feito a última dupla do Patativa que tocava viola. Para demonstrar sua arte, pegou uma emprestada de Mané do Cego, colega cantador e aboiador que tem um box no mercado público, onde conserta relógios - ambos eram amigos de Patativa.

O ruge-ruge de gente, como diferente não seria de uma feira, Miceno improvisa do que vê: "Meu Deus, que coisa bonita/ que hoje aqui se passa./ Tem riso tem bricandeira/ Tem cantoria e tem graça/ E agora encontrei Preá, andando na nossa Praça".

O passeio termina no Bar do Tributino, onde se saboreia o inigualável "couro de pica".