Obras de George Orwell ganham reedições; autor criou livros que inspiraram "O Conto da Aia" e o BBB

Em domínio público a partir deste ano, produção do autor, cuja morte completa 71 anos nesta quinta-feira (21), segue influenciando gerações; estudiosos cearenses situam atualidade dos escritos

Legenda: Recorte da arte da capa da nova edição de "A Revolução dos Bichos", publicada pela editora Aleph: atmosfera pop ao clássico de Orwell
Foto: Divulgação/Aleph

O mercado editorial frequentemente anda às voltas com reedições de textos clássicos, trabalhando para que ocupem a ordem do dia. São inúmeros os motivos que justificam essa dinâmica. Um dos mais importantes diz respeito à atemporalidade dos escritos, capazes de imprimir pertinentes reflexões sobre os tempos de outrora e de agora.

Por essa razão, não é de se estranhar a onipresença de nomes como o de George Orwell (1903-1950) nas conversas e debates literários mundo afora. Sobretudo neste momento, quando a obra do escritor caiu em domínio público, podendo ser reproduzida, distribuída, traduzida, publicada ou adaptada sem necessidade de autorização.

Motivo suficiente para que uma grande variedade de editoras brasileiras esteja ocupando as livrarias com novas versões das duas principais histórias de autoria do indiano radicado na Inglaterra: “1984” (de onde saiu a referência do 'Big Brother', tal qual o reality show BBB, sucesso na TV) e “A Revolução dos Bichos” – romance este que já pode ser encontrado com diferentes traduções do clássico título, a exemplo de “A Fazenda dos Animais” (Penguin Companhia) ou “A Fazenda dos Bichos” (Martin Claret).

Legenda: Nova edição da Penguin Companhia altera tradicional tradução de um dos romances mais celebrados de George Orwell
Foto: Divulgação

Nesta quinta-feira (21), quando se completam 71 anos da morte do autor, o Verso conversou com dois estudiosos cearenses para situar a atualidade da produção orwelliana, vasta tanto na esfera da ficção quanto da não-ficção. Segundo eles, as ideias visionárias e críticas contundentes são pontos que em muito se sintonizam com o cenário político contemporâneo do globo.

“Enquanto tivermos totalitarismo, Orwell será sempre atual”, dimensiona Lola Aronovich, professora de Literatura em Língua Inglesa na Universidade Federal do Ceará (UFC) e blogueira feminista.

"Com o crescimento da extrema-direita que o mundo infelizmente presenciou nos últimos anos, essas tendências autoritárias têm se manifestado muito explicitamente. Se antes víamos os porcos de ‘A Revolução dos Bichos’/‘A Fazenda dos Animais’ unicamente como comunistas, hoje não é difícil associá-los a Trump e a sua tentativa de golpe de Estado”.

Influência

A professora afirma que, desde a década de 1940, quando os dois romances mais famosos de George foram publicados, compara-se os personagens e atmosferas retratados nas páginas com quem está no poder. Ela recorda um comentário escrito em 2003 por Daphne Patai, professora americana feminista e estudiosa de Orwell, quando havia pessoas valendo-se da ficção do autor para criticar Saddam Hussein (1937-2006) e George W. Bush, duas das mais influentes figuras políticas da época.

O texto expressava: “Estou tão convencida agora, como há 20 anos, que o hábito de citar Orwell para defender ou promover nossas próprias causas é uma maneira de afirmar nossa superioridade moral e de poupar o esforço de defender nossas próprias causas”.

Conforme Lola, “71 anos após a morte do escritor, ainda falamos muito de novilíngua ou novafala, termos são alterados ou suprimidos. Para exemplificar a influência de Orwell hoje, cito uma camiseta misógina que é comercializada, em que está escrito ‘Do it to Julia’ (‘Faça isso com Julia’, referindo-se à fala do protagonista de ‘1984’ ao implorar para ser poupado da tortura, e para que sua amada seja torturada em vez dele). Por outro lado, a distopia mais celebrada atualmente, ‘O Conto da Aia’, é descrita pela sua autora, Margaret Atwood, como ‘o mundo segundo Julia’”.

Quem também situa o revigoramento da escrita de George é Carlos Augusto Viana da Silva, professor associado do Departamento de Estudos da Língua Inglesa, suas Literaturas e Tradução – DELILT, da UFC. Em suas palavras, trata-se de um legado que atravessa inúmeros campos.

“Podemos pensar sobre a discussão do deslocamento dos temas no atual contexto social e político, pois, algumas questões que eram a priori lidas pura e simplesmente como ficção em algumas de suas obras, hoje podem ser vistas como elementos importantes de representação de realidades”, diz. 

“Novas edições da obras de Orwell nesse momento trazem reflexões importantes, não só para se pensar o indivíduo em crise, ao ter que lidar com a profusão de ‘verdades’, mas também, e principalmente,  a estrutura social abalada pelo desenvolvimento extraordinário de recursos de comunicação, que, contraditoriamente, podem resultar em tentativas de controle de discursos”, completa.

Repaginada

O modo como as ideias do autor são apresentadas ao público agora divergem de editora para editora no processo de reedição, seja na escolha de tradutores, seja no design planejado para cada livro. Prevalece, contudo, o esmero. Antofágica, Aleph, Biblioteca Azul e Via Leitura entregam ao público exemplares com ambiência pop, abusando de cores e ilustrações. 

Legenda: Capa da nova edição de "1984", publicada pela editora Aleph
Foto: Divulgação/Aleph

A Companhia das Letras e a Penguin Companhia, por sua vez, investem num tom sóbrio. Há edições que já podem ser adquiridas e outras que ainda chegarão ao mercado. Para além dos romances mais consagrados, ainda não se sabe, porém, se outros títulos de George serão traduzidos e reeditados no Brasil. 

É importante aumentar o escopo de qualquer escritor, ainda mais um como Orwell, que está tão associado ao totalitarismo. Publicando suas obras menos conhecidas, o público terá acesso a outras facetas do autor”, defende Lola Aronovich.

Legenda: Capa da nova edição de "A Revolução dos Bichos", publicada pela editora Antofágica
Foto: Divulgação/Antofágica

Até que esses outros conteúdos sejam revisitados pelas casas editoriais, é possível saber mais sobre a vida e a trajetória de George por meio de outras recentes publicações. A Tordesilhas Livros lançou, no ano passado, uma biografia do escritor, assinada por Richard Bredford. “Orwell, um homem do nosso tempo” traça paralelos entre sua obra e o século XXI, evidenciando o caráter premonitório das histórias por ele criadas.

Sob outro espectro, "Sobre a verdade", saído pela Companhia das Letras também em 2020, reúne uma seleção de escritos do autor extraídos de seus romances, ensaios, cartas e reportagens. A tradução é de Claudio Alves Marcondes.

Carlos Augusto Viana comemora a intensa movimentação em torno do legado de Orwell na contemporaneidade. “Para além dos temas e da própria linguagem de suas obras, a relação que é feita entre política e literatura pode passar a ser um elemento importante na formação crítica de novos públicos”.

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