O que fazem os cearenses que folgam na segunda-feira; descubra

Relações familiares são alteradas para os cearenses que têm folga do trabalho durante a semana. Conciliar dia de descanso é desafio

Domingo é dia de almoço em família, de não fazer nada, ir à praia, ao cinema e encontrar amigos. Para alguns, no entanto, as 24h de repouso representam trabalho. Profissionais da área de serviços e entretenimento trocam o tradicional descanso dominical pela segunda-feira. Garçons, cabeleireiros, padres e empresários são algumas das pessoas que usam este dia para descansar à beira-mar, fazer leituras, nadar, dentre outras atividades de lazer.

A doutrina católica instituiu o domingo para que todos tivessem tempo de repouso e lazer suficientes, a fim de lhes permitir cultivar a vida familiar, cultural, social e religiosa. Para o padre Josieldo Nascimento, no entanto, o dia de descanso dos fiéis é o período usado para disseminar a palavra de Deus em pelo menos cinco missas, além de outras atividades em diversas paróquias. Para descansar, às segundas-feiras o religioso aproveita o sol na Praia da Caponga.

"De terça a sexta, nós estamos pela manhã no Tribunal Eclesiástico de Fortaleza. À tarde, atendo confissões. À noite, é a vez das pastorais, celebrando a Santa Missa. No fim de semana, temos celebrações, batizados e casamentos. Na segunda-feira, sempre pego minha mãe para passear. Vou para Caponga com o objetivo de descansar e renovar as baterias.

"No sétimo dia, Deus descansou. Para os padres, o repouso é na segunda", explica o religioso, que celebra, por exemplo, na Igreja de Fátima, em Fortaleza.

Após a última missa no domingo, o padre Josieldo parte com a mãe em direção ao município de Cascavel, a 69 km quilômetros de Fortaleza. "Eu procuro mudar os hábitos na segunda. Eu gosto de aguar as plantas, caminhar na praia, fazer leituras e meditação". No dia de folga, ele também põe em prática as aptidões domésticas. "Eu trago minhas batinas usadas nas missas. Lavo e deixo no sol. Por aqui seca mais rápido", fala rindo o padre. Após o descanso, o retorno para Fortaleza acontece no fim do dia.

Segunda zumbi

Assim como as celebrações religiosas, um dos setores que mais movimenta Fortaleza no domingo é o de lazer nos bares e restaurantes. Para muitos funcionários, o dia de trabalho só termina no amanhecer de segunda. Atendente de caixa de uma casa noturna da Praia de Iracema, Ludmila Santiago, 31, diz viver uma "segunda de zumbi" - passa a manhã dormindo e acorda pelo fim da tarde -, após a rotina de trabalho.

Apesar do cansaço, ela costuma usar o dia livre para realizar atividades físicas no Aterro da Beira Mar. "Eu, além de trabalhar domingo, trabalho pela noite. Quando a gente tem emprego noturno troca todos os horários. Para fazer algum exercício tem que ser nos dias de folga", explica.

Legenda: Ludmila conta que após enfrentar um câncer de mama busca se exercitar nas folgas e deixar o sedentarismo
Foto: Foto: Thiago Gadelha

Durante a semana, a jornada de trabalho de Ludmila começa às 19h30 e segue até 7h do dia seguinte. A casa noturna em que ela trabalha abre às 21h, mas o expediente começa antes. "A gente chega cedo para arrumar o caixa e as listas de convidados. No dia de folga, ela acorda às 13h. "A minha alimentação é completamente diferente da das outras pessoas. Eu tomo café da manhã, enquanto tem gente jantando. Às 17h, é hora de partir para aula funcional na Praia de Iracema. Eu estava sedentária quando tive um câncer de mama e fiquei debilitada. Comecei a usar meu período de descanso para fazer exercício funcional perto do mar e assim ter mais contato com a natureza".

Quando a gente tem emprego noturno, troca todos os horários. Exercício só nos dias de folga - Ludmila Santiago

Desencontros

Exemplos como os do padre Josieldo e de Ludmila Santiago representam uma realidade vivenciada por diversas classes nos últimos 50 anos, segundo explica o psicólogo Cássio Braz, coordenador do Núcleo de Psicologia do Trabalho da Universidade Federal do Ceará (UFC). "Hoje, temos uma sociedade 24h. Desde da abertura dos supermercados, o dia todo, e as diversas questões vinculadas ao trabalho, houve um impacto na reorganização social. Em pessoas que vivem do lazer, turismo e entretenimento, identificamos rompimento de laços familiares. As temporalidades são diferenciadas", afirma.

Para o professor, a mudança de rotina de domingo para segunda é causada pela desestruturação da organização social típica da sociedade salarial. "Nós vamos ter uma série de atividades que vão ser o contrafluxo do trabalho original. Isso acaba impactando na organização da família e nos grupos primários dos pares. Existe um rompimento dos laços de amizade que muda por grupos". Braz destaca, por exemplo, a situação de trabalhadores na noite. "Quem vive da madrugada, não pode ter o mesmo tipo de relacionamento com pessoas da época de colégio. Passam a ser amigos da mesma pessoa que vive na temporalidade deles".

Quanto a questões físicas, o pesquisador, com doutorado em Suficiência Investigadora em Psicologia Social pela Universidad Complutense de Madrid, explica que o impacto é menor. "Essa organização social é dada pelo traço cultural. Se você vai para alguns tipos de cultura que a gente chamava de primitiva, a forma de organização social era outra. Muito mais que o corpo é a representação cultural que essas organizações e a temporalidade pontuam. Ainda que eu trabalhe no domingo e folgue na segunda, vão existir outras atividades que vão compaginar com essa realidade. O corpo é adaptável. O grande problema são as relações sociais que se estabelecem com bases nessas organizações temporais", avalia o professor, cujas pesquisas têm ênfase em Psicologia do Trabalho e Organizacional, atuando em temas como precarização laboral, psicologia social do trabalho, ócio e também a temporalidade.

Antônio Aberlardo Diógenes Ribeiro, 49, gerente de kartódromo no bairro Jangurussu, afirma que tenta fazer o que o psicólogo Cássio Braz aconselha, mas o encontro com a família só ocorre pela noite. A rotina entre a papelada de escritório e a manutenção dos karts de terça a domingo é compensada com um passeio nas areias da Praia do Futuro realizada toda segunda-feira.

Legenda: Abelardo frequenta a praia, academia e shopping na folga do trabalho como gerente de kartódromo
Foto: Foto: Natinho Rodrigues

Na companhia de uma pitbull, ele caminha e faz inveja aos amigos. "Toda segunda para mim é domingo. A turma brinca muito comigo porque posto fotos nas redes sociais enquanto eles trabalham. Pela manhã, sempre vou à praia, depois à academia e, à noite, ao shopping". O encontro com a esposa e a filha, que seguem rotina tradicional, só é possível por volta das 22 horas, quando ele retorna para casa. "É difícil conciliar, mas a gente ainda consegue sair para comer algo juntos".

A turma brinca muito comigo porque posto fotos nas redes sociais enquanto eles trabalham - Antônio Abelardo

De solução para quem vive uma rotina de folga diferente dos demais e quer fortalecer os laços familiares, o pesquisador Cássio Braz aponta: "Com a família, no quesito relações, o que podem ser feitos são pequenos acordos. Deixar as férias mais conjuntas. Por exemplo, nas universidades e escolas, os pais-professores têm o período de férias relacionados ao período escolar dos filhos, o que causa harmonização. O controle disso em um espaço de trabalho cada vez que invade a vida privada da pessoa se torna impossível, é um desafio permanente da sociedade" .

O que fazer?

Barracas de Praia

Para quem gosta de água de coco ou um bom caranguejo, a dica é curtir os empreendimentos na orla do Estado

Parques Públicos

Aos que gostam de uma boa caminhada pela manhã ou no fim da tarde, equipamentos públicos, como o Parque Ecológico do Rio Cocó, são abertos diariamente.

Cinemas

Para quem busca um programa mais sossegado, a dica são os cinemas. Alguns shoppings oferecem descontos especiais na segunda-feira


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