"O palco não é um local solitário": a volta dos shows em tempos de pandemia

Especial para o Verso, Adriano Uchôa, da banda Os Alfazemas, relata em primeira pessoa os sentimentos conflitantes do reencontro com o público

Quantas vezes pensei que jamais faria outra coisa além de cantar. Mas veio a pandemia e o mundo parou. Automaticamente, eu e outros milhares de artistas e toda sorte de trabalhadores da cultura perdemos nossa fonte de renda. Pior do que isso, ficamos sem perspectiva.

Meses difíceis, meses professores.

Foi preciso manter a calma, respirar e reconhecer: as coisas mudaram! Se antes eu não me imaginava fazendo outra coisa, agora precisaria me refazer e encontrar saídas. Descobri, assim, que sou capaz de fazer diversas coisas e fiz. Errei, recomecei, aprendi, venci e, mais do que tudo, perdi. Isto me ensinou a valorizar as vitórias e voltei a sorrir de uma forma parecida com a qual sorria na infância. Gostei disso.

Os meses passaram e, gradualmente, a antiga rotina vem retornando. É chegada a hora dos músicos voltarem, com restrição é verdade, mas, ainda assim não deixa de ser uma chance de diminuir os prejuízos.

Porém isso não me alegrou, pelo contrário, tive medo e paralisei novamente. Observei o local para o qual deveria voltar e não me senti parte dele. Inventei desculpas, reclamei de colegas, do cenário e dos cachês baixos. Não aceitei a realidade! Como eu, um artista que fez carreira em shows agitados e dançantes, cantaria em festas onde dançar é proibido? O cantor agora precisaria desanimar o próprio show, é isso? Tinha certeza de que nada daria certo, mas foi preciso cair na real. A verdade é que eu não queria voltar.

Quando fui forçado a parar, compreendi que não sou aquilo que faço e isso me fez partir em busca de descobrir quem sou, ou melhor, decidi tornar-me aquilo que sou. Por anos, fui somente o que o trabalho exigia, noite após noite, até não sobrar quase nada de mim mesmo. Por outro lado, lembrei do quanto fui feliz nessa carreira, dos amigos que fiz e das experiências incríveis vividas e que não cabem neste texto.

Aprendi que não sou o que faço, mas faço aquilo que sou. Então não há para onde voltar, pois já estou aqui.

Esse pensamento me conduziu inteiro ao palco. De cara limpa e de coração aberto, eu cantei. Sem apegos, medos ou muletas! Sem desejar nada além da música que habita em mim e que, decididamente, hoje só quer saber de sorrir.

Mas o palco não é um local solitário, pois ele existe como arcabouço da relação entre artista e público. Então lá estávamos outra vez, diante de pessoas que depositam em nós a esperança de ter uma noite divertida e, por isso, não existe outra opção a não ser se entregar e garantir que por aquelas duas horas de apresentação nada mais importe além de ficar de boa e aproveitar o momento.

Ao reencontrar com as pessoas fechamos a cartela completa desse bingo do recomeço e o prêmio é o próprio reencontro em si.

A força que vem da voz da plateia que canta junto conosco, o abraço carinhoso antes e depois do show após meses de incertezas, a visão de sorrisos largos em suas dancinhas contidas em cadeiras apertadas, tudo isso faz parecer que nunca estivemos de fato longe uns dos outros.

Na saída do local do evento, um sujeito me aborda e me revela que as lives que fiz durante a pandemia o ajudaram a lidar com suas angústias. Ele aperta minha mão e diz que vencemos, chegamos até aqui vivos e, olhando em meus olhos, agradece por tudo, por tanto e pela noite. Eu agradeço por ele me emprestar seus ouvidos, digo que eles dão sentido ao meu cantar, e é verdade. Nós dois estamos emocionados, ambos estamos de volta e seguiremos juntos mesmo depois da música parar.

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