‘O desafio das novas gerações é reinventar a noção de futuro’, diz escritor Joca Reiners Terron

Residindo no Ceará, romancista cuiabano lança “O Riso dos Ratos”, livro no qual empreende novos mergulhos em cancros pessoais e sociais

Legenda: O escritor Joca Reiners Terron: "Em algum momento escreverei livros menos trágicos, mais esperançosos. Mas não agora"
Foto: Renato Parada

No exato momento em que este texto é escrito, o Brasil assiste a mais um caso de violência contra a mulher capaz de romper a crosta do anonimato. Busca-se justiça, assim como o protagonista de “O Riso dos Ratos”, novo romance de Joca Reiners Terron, publicado pela editora Todavia. Na trama, um pai promete à filha, caso ele tenha diagnosticado uma doença terminal, que vai vingar o ato sofrido por ela, matando o agressor.

Essa, porém, é apenas a primeira chave de leitura possível do enredo: um tratado sobre a obsessão. Conforme a narrativa avança e o homem se vê cada vez mais acorrentado à promessa, nota-se a exposição de profundos cancros pessoais e sociais, num esfarelar angustiante do agora. Suspende-se qualquer perspectiva de futuro em uma nação sem nome – tão única e tão reconhecível em muitos aspectos – restando somente o coma do mundo, nenhuma alegria a luzir. 

Questionado sobre o motivo de contar essa história de um pai que arca até às últimas consequências para combater uma violência – ao mesmo tempo que, nesse movimento de revide, tenta empreender e é acometido por outras – Joca Reiners Terron é direto: não existe, propriamente, uma resposta a essa pergunta. 

“Os romances nascem de lugares vagos, que, com o tempo, se tornam obsessões. Persigo as histórias por algum tempo antes de escrever a primeira linha”, diz. “Quanto ao personagem, eu o vejo como o último pai de um mundo onde os pais já não têm qualquer importância e os homens não passam de seres anacrônicos movidos pela violência”.
Joca Reiners Terron
Escritor

Essa percepção adquire extensas camadas no romance a partir de situações perturbadoras, cenários ausentes de policromia e diálogos frequentes com o panorama nacional. Perspectivas cuja primeira costura foi alicerçada à mão, uma vez que o autor escreveu toda a história em dois cadernos, sintonizado com o que afirmou certa vez: sob a pena de Joca, todos os livros são escritos de uma maneira distinta.

“Isso atribuiu um ritmo diferente à escrita, mais cadenciado”, comenta, sobre o fato de ter desenvolvido tudo a próprio punho. “Toda escrita carrega o gesto que a causou”. Desta feita, ele também traz à tona o que representou trabalhar este nosso atual horizonte de Brasil e de mundo, tão indigesto em amplas esferas, a partir de uma abordagem ficcional. 

“Creio que as questões imperativas são mais velhas que a vida: saúde, paz, decência, respeito. Por outro lado, o que temos hoje é morte, violência em todos os níveis, guerra vinte e quatro horas, descaso diante da vida humana e do patrimônio comum deste país, desde o dinheiro público até a destruição da natureza. Imperativo é dar um basta à quadrilha que ocupou o Planalto”.

O torvelinho do presente

Dividido em sete capítulos e trazendo, na epígrafe, a fala de dois personagens da trama – uma das sentenças, vale sublinhar, destaca que “o passado é imprevisível” – “O Riso dos Ratos” envereda por inúmeras barbáries, o que torna sua leitura um ato desafiador, ao mesmo tempo que inadiável. 

Estar junto da ruína do protagonista abre espaço para que, igualmente, examinemos o desfiladeiro ao qual estamos irremediavelmente ligados. Um abismo que cresce e toma proporções cada vez maiores de amargura – prisma captado com maestria tanto pela própria arquitetura narrativa do romance quanto por elementos como a capa do livro. Assinada por Elisa v. Randow, com ilustração de Susa Monteiro, ela cerca a visão com o pavor e a fuligem dos dias.

Nesse “torvelinho do presente” – expressão fartamente referenciada na obra – Joca descreve a vida como “um vasto limbo entre o céu e o inferno, a coisa mais frágil deste mundo”. E leva essa compreensão até às últimas consequências, imergindo numa realidade que avança, feroz, sobre os tipos por ele trabalhados nas páginas e sobre todos nós.

“A realidade tem nos apresentado desafios complexos a cada dia. O de hoje tem a ver com a possibilidade cada vez mais concreta de parte dos militares se unir a milicianos numa aventura ilusória por poder e lucro. Ilusória porque seria uma aposta equivocada, que, tenho certeza, esta geração de brasileiros vai saber refutar”, acredita.
Joca Reiners Terron
Escritor

Paralelamente a essa imersão da audiência em uma paisagem brutal, a história também se ilumina sobretudo por meio das memórias que o homem tem da filha ainda criança – as roupas que usava, os sonhos que alimentava, o modo como observava as coisas. Nesse sentido, uma das passagens mais belas fala sobre o amor, esse “aspecto concreto da existência, o único que permite à consciência entender a vida como algo palpável”.

Ao refletir sobre esse ponto, o literato afirma que às vezes – “mas só às vezes” – os personagens coincidem naquilo que o autor da obra  também pensa. “Gosto de pensar que um autor, suas crenças, suas certezas, devem ser invisíveis num livro. Mas neste caso o livro reflete o que sinto. Só o amor pode nos salvar daquilo que somos, o amor é o melhor do humano. Mas não falo do amor romântico, e sim do amor maior: pelo outro, pelo mundo, pela vida”.

Legenda: No torvelinho do presente, Joca descreve a vida em "O Riso dos Ratos" como “um vasto limbo entre o céu e o inferno, a coisa mais frágil deste mundo”
Foto: Renato Parada

Teia de desassossegos

Evidenciar um sem-número de estilhaços também é expediente concreto dos outros livros publicados por Joca Reiners Terron – entre eles, estão “Do fundo do poço se vê a lua” (2010), “A tristeza extraordinária do Leopardo-das-neves” (2013) e “Noite dentro da noite” (2017), todos publicados pela Companhia das Letras, bem como “A morte e o meteoro” (2019), editado pela Todavia.

As obras, de algum modo, são o que o escritor é, fazem parte dele. Conforme Joca reflete, elas são fragmentos de sua consciência. Após publicadas, passam a fazer parte de outras pessoas, sendo completadas pelo outro que as lê. “É como sempre digo: em algum momento escreverei livros menos trágicos, mais esperançosos. Mas não agora”, sentencia.

Cuiabano radicado em São Paulo, Terron atualmente reside no litoral cearense, um ambiente que descreve como “maravilhoso e com pessoas maravilhosas”. Apesar das condições físicas ideais, segundo ele, para a criação literária, não tem conseguido escrever nada. “Isso porque minha consciência, como a de boa parte dos brasileiros, foi sequestrada pela tragédia da pandemia e pelas ameaças permanentes que a sociedade brasileira enfrenta, vindas de instituições que deveriam nos proteger”, situa.

“O Estado deveria ser imperceptível como um carro bem cuidado. No entanto, estamos sentados nessa máquina escangalhada soltando fumaça, que nos promete um acidente o tempo todo. Morte, luto, fome, caos. Como escrever diante desse quadro?”
Joca Reiners Terron
Escritor

Imerso numa exaustão provocada por esse entorno, o autor diz estar com mais vontade de ler do que de escrever. De todo modo, enquanto não se dedica a um novo livro, fará uma edição quase caseira de uma narrativa fragmentária, uma espécie de novela em verso, que escreveu em solo cearense no começo de 2018. “Será uma edição ilustrada e independente, com apenas cem exemplares”, adianta o também poeta, artista gráfico e editor.

Para além disso, ao observar a presença da literatura em um instante tão nebuloso feito este, Joca considera o sangramento dos pequenos empreendimentos do livro diante de competições desleais com gigantes do comércio e do streaming, bem como demarca o sucesso de obras como “Torto Arado”, do baiano Itamar Vieira Junior.

Legenda: “O brasileiro gosta de se ver distorcido, irreal, como é retratado nas telenovelas, mas não admite encarar aquilo que verdadeiramente é", afirma Joca Reiners Terron
Foto: Renato Parada

Em sua visão, o alcance de trabalhos feito este tem a ver com a perda do ranço do leitor diante da literatura brasileira – algo encarado pelo autor como uma novidade. “O brasileiro gosta de se ver distorcido, irreal, como é retratado nas telenovelas, mas não admite encarar aquilo que verdadeiramente é, e a ficção pode ser um espelho daquilo que somos. Nem sempre o reflexo é bonito de se ver”.

A conversa com Joca finaliza a partir de uma proposição que parece dialogar com o título de seu mais novo romance. “Os rato vai dar risada se nós falar do futuro”, costumava dizer caolho, um dos personagens. Por esse ângulo, é realmente difícil enxergar um futuro para a humanidade, um que seja bom e favorável à vida?

“Essa fala do caolho parafraseia um ditado chinês milenar. De fato, anda difícil vislumbrar qualquer futuro. Porém nós ainda estamos aqui, e nossa obrigação é lutar, imaginar, criar, ter esperanças e fundar novas perspectivas ambientais, sociais e políticas. O desafio das novas gerações é reinventar a noção de futuro”, conclui.

O Riso dos Ratos
Joca Reiners Terron

Todavia
2021, 208 páginas
R$ 62,90/ R$ 39,90 (e-book)


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Grazia Deledda
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Moinhos
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Relicário Edições
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Perto de fazer 40 anos, o autor deste livro recebeu o testamento do avô materno dentro de um saco plástico. Iniciava-se ali uma viagem, geográfica e pela memória, há décadas adiada. O primeiro destino: a tarde em que recebeu a notícia da morte da mãe, em 1985, quando regressava da escola primária. Durante mais de um ano, Hugo Gonçalves procurou pessoas e lugares, resgatando aquilo que o tempo e a fuga o tinham feito esquecer ou o que nunca soube antes sobre a mãe. Das férias da infância aos desgovernados anos em Nova York, ele foi recolhendo os estilhaços do luto: os corredores do hospital, o colégio de padres, uma cicatriz na perna, o escape do amor romântico, do sexo e das drogas ou uma road trip.

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R$ 59,90

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