Nordeste inspira coleções na passarela do Minas Trend

A partir de tema e conceitos que dialogam com as canções do cearense Belchior, 23ª edição do Minas Trend abraça inclusão e diversidade da passarela ao salão de negócios

Escrito por Roberta Souza*, roberta.souza@diariodonordeste.com.br

Verso
Legenda: Os modelos da Meniax desfilaram com roupas que desconstroem as modelagens tradicionais, trazendo tonalidades como azul, laranja, preto e branco na cartela de cores
Foto: Agência Fotosite

Daqui a 20 anos, quando olhar para a edição do Minas Trend que dirigiu criativamente entre o fim de outubro e o começo de novembro de 2018, Ronaldo Fraga quer afirmar que ali fez-se história, trilhando caminhos onde ninguém antes havia pisado. Foi exatamente esse o objetivo do estilista mineiro que se viu espelhado em todo o conceito e apresentação do evento, que privilegiou uma reflexão sobre diversidade, inclusão e criação, cantadas e vestidas por todo o Brasil, incluindo, claro, a região Nordeste.

Parafraseando o compositor cearense Belchior na canção "Como os nossos pais", um dia após o resultado das eleições presidenciais brasileiras, o estilista mineiro emocionou-se ao afirmar que "o novo, queiramos ou não, ele sempre virá, ele sempre vem". E foi também com isso que o desfile de abertura dessa 23ª edição propôs-se a dialogar, trazendo para a passarela o trabalho de designers que estão só começando e, possivelmente, deverão ser os destaques na moda mineira nas próximas décadas.

Legenda: A marca Libertees apresentou looks da coleção "Resiste", confeccionados por internas numa fábrica localizada em penitenciária feminina de Minas Gerais
Foto: Agência Fotosite

"Em qualquer salão de moda do mundo o autoral está sempre na periferia, naquele lugar onde comprador nem chega. Quando a gente traz isso para a abertura, privilegiamos a autoralidade", lembrou Ronaldo. "No Brasil tem isso de achar que se o estilista participa de 5 edições já é veterano. Não somos veteranos, de jeito nenhum. O País é muito novo, tudo é muito novo", reforçou, lembrando o coração jovem e pulsante que escolheu para ilustrar visualmente o tema "Agora e para Sempre" do Minas Trend.

"Esses meninos que vão pelo caminho alternativo pagam caro por isso. Não olhar a 'tendencinha' que vem de fora, isso tem um preço e ele precisa ser privilegiado. É emotivo trazer isso pro central. E tenho sentido essa simbiose de troca, de um estimular o outro pra pensar e repensar nova forma de criar e comercializar a moda no Brasil", avaliou o diretor criativo.

 

 

Presente futuro

Belchior e sua "Velha Roupa Colorida" foram lembrados no conceito de uma das 21 marcas selecionadas para a abertura. A Meniax apostou em estampas explodidas, derretidas, questionando o passado e apontando para dias incertos. "O futuro a Deus pertence e o passado é aquela roupa que não serve mais", apostou a marca, seguida de uma convicção: "somos (e continuaremos) a ser livres".

Renan Rocha, que está à frente da Meniax junto com a idealizadora Nadia Kassab, explicou o objetivo do projeto que tem pouco mais de um ano. "A gente idealizou um homem seguro, um homem sem padrões, vestindo uma transparência, vestindo renda. É um cara sofisticado, ligado à moda, ao design, superantenado e que gosta de se vestir bem", destacou.

Na passarela, a diversidade também se fez presente com a marca LED, do mineiro Célio Dias, cuja aposta é em roupas de gênero livre. "Dentro da LED, o corpo sempre foi um espaço estético de resistência. A gente trabalha muito com essa questão do corpo como forma de expressão, porque a moda nada mais é do que isso", disse o estilista.

Legenda: A coleção inverno da LED, de Célio Dias, investiu em roupas cosmopolitas, com reforço para o jeans e o xadrez
Foto: Agência Fotosite

Semana passada, Célio desfilou a coleção "Arretada", na São Paulo Fashion Week, em clara referência ao Nordeste, e questionando a ideia de "cabra macho". Nossa região, aliás, também esteve representada no Minas Trend pelo Estado de Alagoas, que teve 12 marcas estreando no line up do evento. Com modelos fora do padrão, o desfile celebrou uma cultura que também é daqui, por meio da renda, dos trançados de palha e do crochê.

Legenda: A grife Caleidoscópio apostou nas belezas naturais do Estado de Alagoas. Acima, detalhes de renda e referência à rede de pescadores, com búzios e conchas
Foto: Agência Fotosite

No atual contexto brasileiro, no qual bandeiras como essa são questionadas a todo instante, Ronaldo Fraga defende que a moda funciona como um "retrovisor do tempo". "Eu acredito que tem uma força maior do que esse momento político que é essa da inclusão, do entendimento e do aceite das diferenças. Isso não tem retorno. Isso vai se refletir na moda cada vez mais. Não é uma mudança política que vai romper com esse movimento no mundo", concluiu o estilista, com otimismo e esperança.

*A repórter viajou a convite do Minas Trend