Mulheres enfrentam o destino com atos de insubmissão no livro ‘A Trança’

Romance entrelaça três histórias ambientadas em distintas realidades, conectando-as por meio do desejo de revolução

Laetitia Colombani dedica o primeiro livro de sua autoria às mulheres corajosas. Não se trata de abrir um precedente para a divisão, mas de ampliar o escopo numa totalidade. Uma vez ser parte desse montante, a escritora francesa compreende ser impossível desvincular a condição feminina à pavorosa realidade que acena, indisfarçável, para Marias, Franciscas, Helenas e Antônias.

Tantas mulheres reunidas, em três, pela literatura: Smita, Giulia e Sarah, protagonistas de “A Trança” – publicado no Brasil pela editora Intrínseca. Festejado no país de origem e lançado em outras 30 nações, o romance aporta por aqui com a mesma aura de renome e capilaridade, com tramas que se desenvolvem à medida que encontram outras, estabelecendo fortuitos contrapontos e conexões.

Smita é a primeira a ser apresentada. Membro da casta mais baixa da sociedade indiana, a dalit vive em condições desumanas, sob o julgo de todos os que a rodeiam. Obrigada a trabalhar recolhendo excrementos de outras pessoas, ela, contudo, alimenta o audacioso sonho de ver a filha, a pequena Lalita, livre da esmagadora opressão na qual é submetida.

Distante dali, na Itália, Giulia encara um dilema diferente, embora envolto por semelhante inquietação. Apaixonada pelo ofício do pai – proprietário de uma oficina de perucas, mantida pela família há gerações – a jovem se vê compelida a assumir o cargo máximo da empresa após a morte do genitor. A transição acontece no exato momento da descoberta de que o negócio está à beira da falência, algo capaz de mudar completamente a sua trajetória.

Legenda: Laetitia Colombani arma uma estrutura narrativa na qual nenhuma história se sobressai a outra, mas se erguem a partir de apelos complementares
Foto: Divulgação

Sarah, por sua vez, é uma respeitada advogada canadense cujo foco principal é pura e simplesmente o trabalho. O convívio disfuncional com parceiros, filhos e amigos é prova disso. A compulsão pela manutenção de um padrão e uma rotina alicerçada por aparências são postas em xeque quando ela descobre estar com uma grave doença, o que a sujeita a recalcular todos os passos outrora programados.

Delineada essa trinca de perspectivas, a narrativa se desenvolve obedecendo à lógica da feitura de uma trança, conforme referenciado no título da obra. “Pegar, na meada, três fios de cada vez/ E os atar sem deixar que partam./ Então refazer esse gesto/ Milhares de vezes”.

Sentimentos à prova

Partindo de um início com descrições aparentemente despretensiosas – cuja função parece mais compatibilizar as rotinas de cada personagem do que propriamente aproximar o cotidiano das três – Laetitia Colombani logo se desvencilha de uma aparência simplista ao costurar, pacientemente, as emoções e os anseios das mulheres.

Repare como, a cada três capítulos, a autora introduz versos de um longo e mosaicado poema – desdobrado por entre todo o livro –  de forma a estabelecer as bases do gracioso penteado final, resultado da junção de desgrenhados fios. Além de conferir um respiro ao enredo tão denso de camadas e situações, a composição em versos interliga, sem imposição, os distintos pontos de contato das trajetórias, imergindo ainda mais nos dramas e sentimentos narrados.

Legenda: “Por enquanto, está tudo bem. Enquanto não se fala nisso, isso não existe”, escreve Laetitia Colombani no livro, refletindo sobre a condição das mulheres
Foto: Divulgação

Nesse contexto, nenhuma história se sobressai a outra, mas se erguem a partir de apelos complementares. Enquanto o enredo de Smita permite uma reflexão sobre a forma de organização da sociedade indiana e do quanto as mulheres são as mais prejudicadas nesse panorama – algo que, apesar das claras diferenças, não se distancia da realidade do Brasil e de todos os lugares do mundo – a trama de Giulia evoca, sobretudo, as amarras aos costumes familiares, por entre interditos tão silenciosos quanto tirânicos.

Sob outro espectro, a própria dinâmica da rotina de Sarah já estabelece uma sintonia alarmante com uma multidão de indivíduos contemporâneos. Contudo, para além da conversa frontal com aqueles que enxergam, no ofício e nas convenções sociais, o verdadeiro ponto de encontro consigo, a tessitura narrativa da personagem também revela as fragilidades de um processo de distanciamento do próprio eu para dar vazão a um novo. Decerto ainda quebradiço e retalhado. Evoluído, sobremaneira.

São resultados de muitos rompimentos. Conceição Evaristo, em um de seus livros mais prestigiados, referencia como insubmissas as lágrimas de mulheres. Neste “A Trança”, os elementos que as insubordinam também são os mesmos provedores de coragem e ânsia por revolução.

“Por enquanto, está tudo bem. Enquanto não se fala nisso, isso não existe”, é possível ler em um dos capítulos. Relatos como os apresentados na obra parecem quebrar exatamente esse componente profundo, doloroso e violento reservado às mulheres. São testemunhos-guia. Que não se calem nem pereçam: vivam a dilacerar as amarras das firmes estruturas.


A Trança
Laetitia Colombani
Tradução de Dorothée de Bruchard

Intrínseca
2020, 208 páginas
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