Mudanças na Ancine interrompem crescimento do audiovisual brasileiro, avaliam cineastas cearenses

A agência que financia e regulamenta a produção de cinema no Brasil sofreu críticas do presidente Jair Bolsonaro, que quer maior controle sobre o órgão. Cineastas falam em censura

Logo depois de ter vários filmes ovacionados em importantes festivais internacionais, o cinema brasileiro poderá sofrer um revés que vai na contramão do reconhecimento pelo mundo.

Cineastas cearenses enxergam com preocupação as mudanças que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) deseja implementar na Agência Nacional do Cinema (Ancine), que regulamenta e fomenta a produção audiovisual brasileira. Para eles, isso pode criar entraves para o financiamento das produções, interferir nas temáticas abordadas e dificultar ainda mais a realização de filmes em regiões como o Nordeste.

O tema é visto com apreensão pelos produtores desde a última sexta-feira (19), quando Bolsonaro atacou a direção da Ancine, acusando-a de praticar “ativismo” e ameaçou extinguir o órgão caso não seja possível criar “filtros culturais” na seleção das obras contempladas com verbas. O presidente também anunciou a transferência da sede da agência do Rio de Janeiro para Brasília.

O que se discute no Governo Federal é uma estratégia para tirar das mãos da Ancine a gestão do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), o mecanismo que patrocina produções nacionais de televisão e cinema a partir de recursos recolhidos de impostos do próprio setor. Somente neste ano, o Fundo tem disponíveis R$ 724 milhões para investir em novas produções brasileiras.

O interesse é levar o Fundo para a responsabilidade da Secretaria Especial da Cultura, subordinada ao Ministério da Cidadania, reservando à Ancine um papel de regulamentação e supervisão do setor. Com a mudança, o presidente ganharia mais poder sobre o que pode ser financiado ou não.

A preocupação é que a escolha tenha viés ideológico, uma vez que o presidente teceu críticas diretas a produções como o longa-metragem “Bruna Surfistinha” (2011), sob a justificativa de ser “pornográfico”.

Visão dos diretores

As investidas de Jair Bolsonaro contra a Ancine e os ataques ao conteúdo das produções são interpretados como censura pelos cineastas cearenses ouvidos pelo Verso.
“A proposta do Governo é a destruição da indústria audiovisual brasileira independente, submetendo-se aos interesses norte-americanos. Já vimos esse filme antes e o fim é trágico”, avalia Rosemberg Cariry. O diretor de cinema faz alusão à decisão do então presidente Fernando Collor que extinguiu a Embrafilme em 1990 e relegou ao cinema nacional a maior crise registrada no setor.

“As mudanças na Ancine descaracterizam completamente a Agência. A violência de uma possível extinção da Ancine significará o fim de quase 30 anos de trabalho para reconstrução do cinema brasileiro, que hoje é um grande sucesso. Com o fim da Ancine, vamos voltar à estaca zero. Lamentável e inaceitável”, declara Cariry. Ele também identifica a proposta de criar “filtros culturais” na seleção dos projetos como uma forma de “censura institucional”.

Diretor de “Greta”, filme que foi exibido no prestigiado Festival de Berlim, o cearense Armando Praça entende que as mudanças abrem margem para perseguições e censura a pensamentos não alinhados aos do Governo Federal. “Quem deve determinar o conteúdo que é produzido no cinema nacional não é o presidente, mas a própria liberdade de expressão”, posiciona-se. O cineasta classificou como “arbitrários e mentirosos” os comentários de Bolsonaro que se referem ao conteúdo fomentado pela Ancine como “pornográfico”.

Praça lamenta ainda que a interferência aconteça em um período vigoroso do cinema nacional. “Vejo um País desperdiçando a chance de continuar produzindo sua identidade nas séries, nos filmes e em qualquer outra produção audiovisual. Muito me assusta que a gente saia desse certo protagonismo e volte a ser apenas consumidores de produtos estrangeiros”, considera.

Diversidade de conteúdo

Para Allan Deberton, a interferência nas temáticas das produções pode afetar a diversidade dos conteúdos produzidos no País, o que impacta também na possibilidade de visibilidade internacional, em mostras, festivais e premiações no exterior. “Isso mata o que o cinema brasileiro tem de mais especial e justamente o que faz ele ser valorizado lá fora, que é a diversidade. Todas as regiões brasileiras produzem conteúdo com um perfil diferenciado de temáticas, de forma, de qualidade artística”, comenta.

Para o diretor, que teve o longa “Pacarrete” selecionado para o Festival de Shanghai, a Ancine tem o papel de permitir que produções regionais e com foco não comercial sejam produzidas e consequentemente reconhecidas internacionalmente. Relegar esse financiamento apenas ao capital privado pode afetar as realizações. “Dificilmente uma grande empresa vai querer investir em filme que não tenha como meta o grande público ou que não tenha um forte merchandising”, pondera.

Diretor de “Inferninho” (2018), Pedro Diógenes lembra que a verba do Fundo Setorial do Audiovisual, gerido pela Ancine, é oriundo do próprio setor e critica a declaração do presidente Jair Bolsonaro, que chegou a sugerir que a Agência poderia ser financiada. “O que seria privatizar isso? Eu tenho certeza de que nem ele sabe do que está falando”, criticou.

Diógenes também vê as mudanças como uma ameaça ao crescimento do setor que, mais recentemente, alcança produções regionais. “A gente vê filmes cearenses em circuitos de cinema, não só como temática, mas como estética. A perspectiva era crescer e fortalecer. Aí tudo isso pode sumir em um tweet do presidente. É uma coisa muito preocupante”, considera.

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