Livro reconta a história do Brasil ao longo de 200 anos sob a ótica de uma família cearense

“A Harmonia dos Álvares”, de Cupertino Freitas, entremeia ficção e realidade ao costurar fatos desde tempos longínquos até hoje

Legenda: Cupertino Freitas, cearense de Limoeiro do Norte, emplaca novo livro imergindo em fatos históricos e heranças familiares
Foto: Divulgação

Há uma intrigante correspondência entre “A Harmonia dos Álvares”, novo livro do escritor e professor cearense Cupertino Freitas, e uma sentença específica de “A arte de torrar café: Narrativas além da ficção”, de Ronaldo Correia de Brito. Nesta obra, o literato natural de Saboeiro (CE), radicado no Recife (PE), sublinha: “A história recente do Brasil já rendeu canções de protesto, versos camuflados, tortura e mortes. Ainda provoca revolta ou humor e, de tão absurda, parece mentira”.

É um recorte abrangente que, a bem da verdade, ultrapassa em muito o componente da contemporaneidade. Burla as fronteiras do tempo e penetra em tantos outros fatos históricos do País que, neste 7 de setembro, completa 199 anos de independência. A um ano dos dois séculos dessa declaração – pela qual o País deixou de ser uma colônia portuguesa e passou a ser uma nação emancipada – “A Harmonia dos Álvares” chega como um múltiplo testemunho, sob a ótica cearense, das tantas questões intrínsecas a essa travessia.

O exemplar, publicado pela editora Folheando, será lançado no próximo sábado (11), às 17h, na Livraria Lamarca, com uma sessão de autógrafos.

Ao Verso, Cupertino Freitas explica que o projeto foi concebido em 2018, a partir da ideia de abordar a temática dos 200 anos de independência brasileira para um edital do extinto Ministério da Cultura. 

Legenda: 21 capítulos integram o livro, prefaciado por Stênio Gardel e com ilustrações de João Victor Cabañas
Foto: Divulgação

“Naquele ano, eu e alguns colegas do Coletivo Delirantes de escritoras e escritores, pesquisamos acontecimentos relevantes da história do Brasil dos últimos dois séculos, com o objetivo de criarmos uma antologia de contos e submetermos ao edital. Fomos premiados, e isso me incentivou a continuar a pesquisa sobre o tema e a desenvolver o projeto de um livro solo tendo, como estrutura, uma saga familiar”, situa.

A partir daí, o autor, natural do município de Limoeiro do Norte, resolveu contar os dois séculos de história sob o ponto de vista da genealogia de uma fictícia família cearense, e submeter a obra a um segundo edital do bicentenário da independência, dessa vez da Secretaria da Cultura, em 2019. Neste, o livro acabou recebendo nota máxima, o que otimizou a publicação.

Percursos investigativos 

Vinte e um capítulos integram o trabalho – prefaciado por Stênio Gardel, de “A palavra que resta” (Companhia das Letras, 2021), e com ilustrações de João Victor Cabañas. Para criar narrativas críveis, Freitas pesquisou e leu bastante, buscando subsídios em livros, dissertações, artigos acadêmicos e notícias de jornal. 

A fim de entender a seca de 1877 e escrever o conto “As quatro colunas”, por exemplo, se debruçou sobre “A fome”, obra-prima de Rodolfo Teófilo (1863-1932), e duas dissertações de mestrado. Por sua vez, para ficar por dentro de fatos relevantes sobre a enchente do açude Orós e escrever “O último salto”, leu “A tragédia do Orós”, de Pedro Sisnando Leite. 

Legenda: Além de contar com ilustrações, obra aposta numa interessante tessitura polifônica, no intuito de registrar todos os fatos e causos nela inseridos
Foto: Ilustração de João Victor Cabañas

“Já para criar ‘A quarta Maria’, que aborda a relação de uma personagem com Rachel de Queiroz (1910-2003), li a biografia da escritora, assinada por Socorro Acioli, e assim por diante. A elaboração de cada conto foi precedida por estudo e investigação, de forma que a ficção fizesse sentido e fosse verossímil dentro do contexto histórico”, destaca.

Nessa dinâmica, é importante sublinhar que a obra aposta numa interessante tessitura polifônica, no intuito de registrar todos os fatos e causos nela inseridos. Há um personagem, por exemplo, que nasceu exatamente em 7 de setembro de 1822; existe outro que, desde a infância, tinha curiosidade de investigar a ascendência Kanindé da mãe.

A escolha por essa estrutura deve-se à percepção de Cupertino de que, ao tratar de uma saga familiar, não deveria escrevê-la em terceira pessoa. “Não imaginava contá-la como mero observador, de forma distante. Imaginei as personagens narrando suas próprias histórias, no tempo de suas vidas e falando de coisas passadas ou presentes”.

O livro é então idealizado por um certo Ernesto Álvares, senhor de 81 anos, que, em dias recentes, compila relatos, cartas e crônicas escritas por parentes vivos e antepassados e os organiza numa obra, em homenagem à família. As narrativas são independentes entre si, ou seja, o público pode acompanhar na ordem que desejar. Mas há um certo encadeamento cronológico entre as histórias, de forma que é mais interessante que o material seja lido sequencialmente, como se fosse um romance. 

“As histórias são todas ficcionais, exceto, talvez, as duas últimas, que carregam sentimentos e observações sobre a realidade contemporânea, tão complicada e devastadora”, pontua. Nesse sentido, a espinha dorsal do título é a relação de pertencimento e lealdade que persiste através das gerações, e que, à medida que a família se espalha e se expande, tende a se esgarçar e se diluir – seja pelo tempo, distância, ressentimentos acumulados ou pela diversidade de perspectivas e modos de pensar, muitas vezes irreconciliáveis”.
Cupertino Freitas
Escritor e professor

Hibridismo

Além da polifonia de personagens, há no projeto um atraente hibridismo de gêneros textuais – indo da carta ao conto, passando pela crônica – fazendo com que o ritmo de leitura flua de modo bastante espontâneo e multifacetado. Essa mescla, contudo, não foi pensada de forma consciente. Conforme Cupertino Freitas, aconteceu naturalmente.

“Como resolvi escrever o livro a partir de uma suposta compilação de textos escritos por várias pessoas ao longo de muitas décadas, essas narrativas teriam que ser apresentadas em estilos e níveis de oralidade diversos. Há, por exemplo, crônicas de um antepassado do Ernesto que era jornalista; cartas recebidas por sua irmã durante a ditadura militar; e até uma mensagem de WhatsApp que ele recebe de seu neto que atualmente mora em Londres”, descreve.

Legenda: Para criar narrativas críveis, Cupertino Freitas pesquisou e leu bastante, buscando subsídios em livros, dissertações, artigos acadêmicos e notícias de jornal
Foto: Divulgação

Para o autor, passear por tantas geografias humanas e culturais – sobretudo enfocando em traços tão característicos de nossa terra, a exemplo de agremiações como a Padaria Espiritual e lugares como o município de Jaguaribe, por exemplo – estimula novos olhares sobre o território, suas particularidades.

“Fomos, e ainda somos, em certa medida, um estado periférico da federação. Se você parar para pensar, o Ceará esteve à margem dos fatos mais marcantes da história do Brasil. Eu poderia ter optado por contar a saga de uma família sudestina, paulista ou mineira, mas estaria desperdiçando uma grande oportunidade de passear por 200 anos de nossa própria história e valorizá-la”, observa.

“Abriria mão de falar de seca e enchente, de emigração, de cultura algodoeira, sertaneja, da influência indígena, dos escritores da terra, de nossa perspectiva acerca do País. O mergulho na história cearense por meio dessa família fictícia me fez apreciar ainda mais nosso lugar e nossa cultura”.
Cupertino Freitas
Escritor e professor

Um Brasil dentro de outro

Sendo assim, diante de tantos atravessamentos, qual é o retrato do Brasil para os cearenses? Freitas considera que, analisando a trajetória da nação nos últimos dois séculos, é possível perceber o percurso nacional como um trajeto marcado por uma evolução e progresso paulatinos, interrompido por períodos de retrocesso – seja devido a razões políticas, econômicas ou sanitárias. 

“No caso do nosso Estado temos, ainda, a força da natureza, que desempenha papel determinante, ora agindo a nosso favor, ora sendo um empecilho para a realização plena de nossas habilidades enquanto povo. Entendemos também que, por conta de nossa territorialidade e ancestralidade, nós, cearenses, somos uma sociedade resiliente e habilidosa, que se adapta e se reinventa ou, como se diz popularmente, que ‘enverga, mas não quebra’. Somos um Brasil dentro de outro”.

Legenda: Além da polifonia de personagens, há no projeto um atraente hibridismo de gêneros textuais – indo da carta ao conto, passando pela crônica
Foto: Divulgação

Para o escritor, o aniversário da independência deveria ser motivo de comemoração e reflexão, principalmente a respeito de dois pontos: nossa evolução no posto de sociedade; e a respeito das diversas estruturas de governança que a sustentam. Para Cupertino, essas instâncias deveriam ser mais justas, transparentes, democráticas e operarem nos limites mínimos da civilidade e tolerância. 

“No entanto, o que vemos é a antítese disso. Vivemos dias particularmente tensos, com ameaças sérias às instituições republicanas, aos poderes constituídos, com o fantasma do autoritarismo a nos rondar, com forças perversas e anacrônicas querendo empurrar o País mais uma vez para uma época de sombras", analisa.

E projeta: "Apesar de bastante preocupado, e por que não dizer, levemente angustiado, acredito que as forças democráticas, independente de viés ideológico, não permitirão qualquer ruptura institucional. Vejo uma luz no fim do túnel: 2022 é logo ali. Espero que, assim como as personagens do meu livro, o País possa recuperar sua harmonia, que não é a ausência de conflito, mas a possiblidade de equilíbrio e convivência entre opostos que afaste qualquer possibilidade de ditadura ou guerra fratricida”, torce.

Serviço

Lançamento do livro “A Harmonia dos Álvares”, de Cupertino Freitas
Neste sábado (11), às 17h, na Livraria Lamarca (Avenida da Universidade, 2475, Benfica).

A obra pode ser adquirida na livraria, no site da Editora Folheando ou com o próprio autor, por meio das redes sociais (Instagram e Facebook)

A Harmonia dos Álvares
Cupertino Freitas

Editora Folheando
2021, 156 páginas
R$ 38

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