Histórias de cearenses envolvem o Mercado Central de BH

Trabalhadores que nasceram aqui ou têm alguma relação com nosso Estado ecoam narrativas dentro e nos arredores do estabelecimento, que em 2019 completa 90 anos de existência na capital mineira

Das duas vezes que pousei em Minas Gerais, a playlist do Clube da Esquina estava separada no celular para me dar a trilha sonora certa da “viagem de ventania”. A primeira dessas visitas foi em 2016, num mês de junho, após alguns dias de férias no Rio. Fui para passar pouco tempo em BH, porque os destinos prioritários eram Ouro Preto e Inhotim. Mas, mesmo naquela ocasião, tive a felicidade de ficar hospedada por um dia e meio na casa de duas senhorinhas, Isabel e Lia, praticantes da mesma filosofia que eu, a Seicho-No-Ie, e moradoras de um ponto estratégico da cidade: de frente para o Mercado Central. 


Isabel me levou até lá numa manhã qualquer, no meio da semana, para fazer compras de legumes, frutas e flores para casa, e aproveitou para me apresentar amigos de décadas que tinha por lá. Fiz registros fotográficos e até anotei algumas histórias num bloquinho, coisa de jornalista, mesmo nos períodos de descanso. Era natural que aquele lugar, em seus mais de 80 anos de existência, guardasse muitas histórias, e precisei voltar lá a trabalho para ouvir algumas delas com mais precisão, o que só pude fazer no fim de outubro deste ano. 


Comigo, carregava um desafio nessa segunda visita: encontrar trabalhadores cearenses num mercado lotado de mineiro e de turista de todas as cidades do País e do mundo. Alexandre, responsável pelo balcão de informações, foi o primeiro a se divertir com minha pergunta: “Você conhece algum cearense que trabalha aqui?”. Ao que ele me respondeu: “Cearense? Difícil... Só se for no corredor do artesanato!”. Pronto. Uma direção era tudo que eu precisava, e foi rumo ao piso superior, onde indicava o mapa entregue por ele, que eu caminhei. 


Chegando lá, Carol, vendedora de uma loja de sandálias de couro que me fez viajar mentalmente para a oficina de seu Espedito Seleiro, em Nova Olinda, no Cariri, me deu outra indicação. “Lá na Belô Nordeste, eu acho que o dono é cearense! Pessoal sempre vai lá para comprar redes, coisas de renda, só não sei se ele está lá”, ela me contou. A essa altura eu já estava animada, cada vez mais perto de cumprir o desafio, mas outras surpresas estariam reservadas para as próximas cinco horas que eu passaria ali. 


Ailton era o dono da tal Belô Nordeste e, por sorte, ele se encontrava na loja. Tinha acabado de chegar de Fortaleza, para onde viaja com frequência para renovar o estoque artesanal, mas, na verdade, eu estava de frente para um alagoense... E ele não poderia ficar para conversar, pois precisava ir logo em casa para um merecido descanso pós-viagem. Antes de partir, me apresentou a um “cearense”, e aí começaram as histórias do Ceará em “Beagá”. 

Manuel Dias de Oliveira, 60 
Vendedor na Belô Nordeste 

Legenda: Manuel Dias de Oliveira, 60, é vendedor na Belô Nordeste e mora no Ceará todo mês de junho
Foto: Roberta Souza

Manuel, “o cearense” é, na verdade, natural de Patos, na Paraíba. Com um perfil nômade, ele está em trânsito entre Belo Horizonte e as cidades do Nordeste há 16 anos. Junho é o mês em que ele sempre está “morando” no Ceará, especialmente pelas festas juninas. A passagem por aqui ele divide entre Fortaleza, onde faz compras no Mercado Central “pelo bom preço e qualidade dos trabalhos manuais”, e Crateús, lugar que descreve como “amor à primeira vista”, apesar de não ter nenhum familiar lá. “É uma cidade que me acolheu muito bem, de pessoas simples, que vivem em harmonia”, conta. Pela proximidade com os cearenses, foi Manuel que me guiou ao bar de um filho legítimo daqui, localizado no entorno do mercado central. 

Raimundo Luís de Almeida, 48 
Proprietário do Bar do Ceará 

Legenda: Raimundo Luís de Almeida, 48, é proprietário do Bar do Ceará e trabalha na região do Mercado Central de BH há 20 anos
Foto: Roberta Souza

Na saída do Mercado pela Rua dos Goitacazes, está o negócio do seu Raimundo Luís. No número 606, o nome “Bar do Ceará” em laranja se destaca entre as fachadas dos outros estabelecimentos, especialmente se você é cearense e está procurando conterrâneos ali. Natural de Santa Quitéria, ele foi morar em BH aos 18 anos, acompanhando um irmão que já trabalhava por lá. Dessas três décadas, quase duas foram vivenciadas no mercado e agora em seu entorno. Trabalhou dez anos no Restaurante Casa Cheia, um dos mais procurados pelos turistas na hora do almoço; e já tem nove no próprio bar. “É o que aprendi fazer, atender as pessoas, tenho gratidão por elas no dia a dia, eu gosto de trabalhar no balcão”, conta ele, entre as bebidas e uma imagem do Padre Cícero. Há 11 anos sem visitar seu Estado, ele espera que os familiares de Taperuaba, distrito de Sobral, vejam sua foto no jornal.

Silvia Maria dos Santos Ferreira, 56 
Vendedora na Borda Nordeste 

Legenda: Silvia Maria dos Santos Ferreira, 56, é vendedora na Borda Nordeste, loja que importa peças artesanais de Pedra Branca, Jaguaruana e Fortaleza
Foto: Roberta Souza

De volta ao mercado, encontrei outra loja com produtos artesanais cearenses. Trazidas de Pedra Branca, Fortaleza e Jaguaruana, as peças eram apresentadas por Silvia como obras de "tecido rústico, 100% natural”. Já tem 15 anos que ela e o esposo administram esse estabelecimento em BH. No começo, era a cunhada, residente em Fortaleza, que abastecia o estoque. Mas hoje toda a transação é feita virtualmente. Apesar de reconhecer uma queda nas vendas nos últimos anos, Silvia não se vê fazendo outra coisa, e nem usando. “O tecido de algodão é super confortável de usar, quanto mais lava, mais macio vai ficando. Fora que essas peças feitas à mão são ótimas também. Aonde você chega, alguém fala:  Ó que roupa linda!”, descreve, timidamente.  

Pedro Almada Torres, 49 
Sócio-proprietário do Bar Fortaleza 

Legenda: Pedro Almada Torres, 49, é sócio-proprietário do Bar Fortaleza, herança de seu pai, cearense de Uruoca
Foto: Roberta Souza


Em meio as idas e vindas nas cinco horas de busca, avistei mais um bar de conterrâneo, só que, dessa vez, ocupando dois corredores do Mercado. Pelo menos era o que indicava o nome do estabelecimento de Pedro, mineiro de Contagem, mas filho do cearense José Oliveira Torres, este já falecido e natural de Uruoca. Nas cores preto e branco, o Bar Fortaleza pode deixar confuso os torcedores dos dois principais times do Estado. Esse nome foi sugestão do seu José e é o mesmo há 40 anos, tempo de existência do estabelecimento naquele mesmo local. “Recebemos bastante gente do Ceará, que procura saber de onde viemos”, conta Pedro, que nunca esteve na terra do pai. “Tenho vontade de ir, tem muito parente que a gente nem conhece. Um dia eu vou lá”, promete. 

Francisco Ferreira Lima, 56 
Vendedor de frutas 

Legenda: Francisco Ferreira Lima, 56, natural de Nova Russas, é vendedor de frutas numa loja nos arredores do Mercado Central há 17 anos
Foto: Roberta Souza

Com o bloquinho cheio de histórias e as pernas cansadas de tanto andar, me dei de presente um copo de água de coco à venda na loja de um senhor muito simpático na Rua dos Goitacazes (nº 614), a mesma do Bar do Ceará. Enquanto me servia, seu Chico, o vendedor, conversava com uma cliente sobre o amor. O assunto me chamou a atenção, e quando ia me despedindo, perguntei de onde ele era, já que o sotaque não era mineiro. A resposta? Do Ceará, claro! Natural de Nova Russas, Chico mora em BH há 20 anos, dos quais 17 são trabalhando no ponto de frente ao Mercado. Falava de amor, porque conheceu esse sentimento durante os 24 anos em que foi casado. Hoje, separado, ele acredita que ainda vai encontrar uma nova companheira para amar. Mas, enquanto isso não acontece, segue tomando seu cafezinho e suspirando no entorno do mercadão de Beagá... 

 

Serviço:

Mercado Central de Belo Horizonte (MG). Endereço: Av. Augusto Lima, 744, Centro. Horário de funcionamento: De segunda a sábado, das 7h às 18h. Domingos e feriados, das 7h às 13h. Contato: (31) 3274.9497/9434. E-mail: faleconosco@mercadocentral.com.br 

Como chegar: De Fortaleza a Belo Horizonte, há voos diários pelas companhias Gol, Latam, Azul e Avianca. Somente a Azul conta com voos diretos, com duração de 2h55. As demais têm saídas com escalas e conexões e a duração mínima é de 4h. 

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