Futebol, samba e crime: tema de série, a vida de Castor de Andrade diz muito do Brasil atual

Produção da Globoplay, “Doutor Castor” ilumina este legítimo "camisa 10" da bandidagem brazuca. Com a palavra, o próprio: ‘Chamam-me de contraventor, mas, perto do que acontece no futebol, sou um mero trombadinha’

Como patrono da Mocidade Independente de Padre Miguel foram cinco títulos do Carnaval carioca
Legenda: Como patrono da Mocidade Independente de Padre Miguel foram cinco títulos do Carnaval carioca
Foto: Globoplay/Reprodução

No batismo, Castor Gonçalves de Andrade e Silva (1926-1997). Nos noticiários, apenas Castor de Andrade.  O “homem”. Cartola, empresário, mafioso, torcedor, patrono do samba, advogado... Muitas facetas ergueram a fama do sujeito franzino e de fala macia. Por detrás do carisma e popularidade, corre o legado do elemento considerado perigoso. Ele é tema da série “Doutor Castor”, dirigida por Marco Antonio Araujo. 

Dividido em quatro capítulos, o lançamento da Globoplay desbrava preciosos arquivos de jornal e TV. Em cena, o folclórico cidadão capaz de comandar duas paixões nacionais. Futebol e o samba personificaram a imagem deste mecenas da malandragem. Ex-jogadores, jornalistas, escritores, torcedores e, claro, autoridades da Justiça, decifram quem foi o outrora chefão do “Jogo do Bicho”.  

Trailer de "Doutor Castor"

Sob os auspícios do “Doutor”, o Bangu Atlético Clube testemunhou tempos de glória. Encarava de igual os ditos “grandes” do Rio de Janeiro. Entre os feitos constam a final do brasileirão de 1985 com o Curitiba e a disputa da Taça Libertadores da América. Ado, Arturzinho, Mauro Galvão, Macula, Dé Aranha, Moisés (1948-2008) são algumas das feras do gramado entrevistadas. Prato cheio para quem é fã dos bastidores da bola.  

A devoção pelo Alvirrubro carioca era de sangue. O pai, Eusébio de Andrade (o Seu Zizinho), foi presidente da agremiação entre 1963 e 1968. É quando Castor e Bangu aprofundam o casamento. Em 1966, o bicheiro integrou a campanha vitoriosa daquele que seria o último título estadual do time. Num jogo decisivo contra o América, o cartola até puxou revólver para o senhor árbitro. 

Sapucaí e crimes 

Na maciota, "seu Castor" flanou no seio da elite brasileira. Patrono da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel, colaborou na conquista de cinco títulos do Carnaval carioca. Na metade dos 1980, é um dos que assinam a fundação da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa). A entidade continua até hoje à frente da folia na “Cidade Maravilhosa”. 

O trabalho de Marco Antonio Araujo desvenda um personagem complexo. Drama, paixão e violência orbitam esse universo. Cativante, Castor de Andrade desfila o fino da pilantragem. Em contrapartida, os crimes e desmandos deflagram a triste realidade das relações de poder que se arrastam até hoje no País.  

Série revela ascensão e queda do maior bicheiro do Rio
Legenda: Série revela ascensão e queda do maior bicheiro do Rio
Foto: Globoplay/Reprodução

A produção detalha o quanto a impunidade é um elemento determinante desse sistema. Milícias, corrupção policial, política e judicial não nasceram com Castor, tampouco deixaram de ser realidade com sua queda.  

A recente “profissionalização” do futebol brasileiro contrasta com os acontecimentos narrados na série da Globoplay. Conhecemos outro aspecto do esporte, a partir da perspectiva do modesto clube suburbano do Rio. Esqueça as atuais Arenas “padrão Fifa” (balela responsável por limar os pobres das praças esportivas).  No banguzão, o treino era regado a muito samba e o “bicho” (premiação em dinheiro dado por fora), pomposo a cada conquista.   

Castor x Ceará  

Matérias do Diário do Nordeste detalham o clima amador e cafajeste reinante entre os boleiros daquele tempo. Além das páginas esportivas, o bicheiro foi notícia nas áreas de política, cultura e polícia. A primeira menção a Castor de Andrade nas páginas do DN ocorreu em maio de 1982.  

Naquela ocasião, o Bangu pousava no Aeroporto Pinto Martins desfalcado de cinco titulares. Mas, a ausência mais sentida em chão cearense era a do “Doutor”. “Também não veio o presidente do conselho deliberativo, Castor de Andrade, que deve chegar ainda hoje ou amanhã”. 

1982 e a equipe do Bangu desembarca na capital cearense: Supervisor Catuka, técnico João Francisco e o zagueiro Moísés
Legenda: 1982 e a equipe do Bangu desembarca na capital cearense: Supervisor Catuka, técnico João Francisco e o zagueiro Moísés
Foto: Eduardo Queiroz /Diário do Nordeste 8-05-1982

Os visitantes teriam pela frente o Ceará. O amistoso definido para o Crato marcava a inauguração do Estádio Governador Virgílio Távora (o popular Mirandão). “Do aeroporto mesmo a delegação seguiu de ônibus para a cidade interiorana”.  

Os Alvinegros, comandados por Caiçara, já estavam concentrados na região. Afinal, pelo Cearense, tinham duelado dias antes com o Icasa, no Romeirão. O confronto era a estreia do zagueiro Argeu dos Santos em Porangabuçu. Argeu, que partiu em 2018, formaria dupla com Lula Pereira, ídolo que partiu no início de fevereiro último. Lula não jogou, estava lesionado. 

Placar final, 2 x 1 para os cariocas.

Festa quase todo dia

Quem estava à frente da delegação do Bangu no Estado era o ex dirigente Carlos Alberto Galvão, o Catuka (falecido em 2018). Após rodar por Olaria e Volta Redonda, fez história no Bangu (como supervisor conseguiu o vice-campeonato carioca e brasileiro de 1985 e o título da Taça Rio de 1987).

Na matéria “Bangu, um clube de mordomias” (17/05/1982), Catuka cantou como um curió livre na floresta.  “Numa entrevista cedida exclusivamente ao DN, ele revelou a filosofia, o funcionamento interno, o relacionamento entre dirigentes e atletas, enfim, vários aspectos que dizem respeito à administração toda diferente, em relação a outras agremiações de futebol no Brasil, no time carioca”, descreve o texto.  

Legenda: Matéria do DN detalha esquema criminoso: "'Através do bicho', afirma o Procurador Geral, 'o crime vinha penetrando em toda a sociedade, corrompendo policiais, juizes, tentando o apoio popular através das escolas de samba e do futebol e até financiando políticos'"
Foto: Diário do Nordeste 6 /4 /1994

"O Bangu é um clube quase recreativo”, disparou Catuka. Em determinado trecho da conversa, o entrevistado adentra o “sistema administrativo inédito” criado por Castor: 

“Muitas vezes o homem (Castor de Andrade) traz caixas de uísque e distribui com os jogadores. O atleta vai passar Semana Santa fora e ele paga a gasolina, manda abastecer em seu posto. Paga boate. Depois de um jogo, se o time vence vamos à boate. Ele manda fechá-la, e jantamos com mulheres dançando pra gente”, argumentou. 

“De onde o Bangu, ou melhor, o homem tira tanto dinheiro?”, aferiu o colega de DN.  

“Você sabe, ele é um ‘agente zoológico’. Todo o Rio de Janeiro, ele comanda. Então é fácil explicar: o homem tem uma arrecadação (outro dia eu descobri) que nem vou dizer a você. Talvez ninguém consiga recolher essa grana toda, num dia”, arrematou.  

Em “Doutor Castor”, o craque Arturzinho (que brilhou no Fortaleza) define bem essa era longínqua do futebol: "Bangu era festa quase todo dia".  

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