Francês Georges Perec tem traumas e projeto literário revisitados em ensaio do escritor Jacques Fux

"Georges Perec: A psicanálise nos jogos e traumas de uma criança de guerra" é o novo lançamento da Relicário Edições

Legenda: Georges Perec (1936-1982) driblou a linha da dor ao criar projeto inovador
Foto: Arte: Mikael Baima

A relação entre literatura e matemática pauta os estudos de Jacques Fux desde o doutorado, iniciado em 2007. A profundidade no que realizou, não à toa, lhe rendeu o Prêmio Capes de Melhor Tese de Letras/Linguística do Brasil devido à concepção do livro “Literatura e Matemática: Jorge Luis Borges, Georges Perec e o Oulipo”, publicado em 2016 pela Perspectiva.

De forma específica, o escritor mineiro conta, em entrevista ao Verso, que explorou os argumentos e as ferramentas matemáticas utilizadas ao longo dos textos assinados por um dos personagens perfilados, o francês Georges Perec (1936-1982), como forma de captar a criação de uma espécie de “falso” controle literário.

“No entanto, à época, me fugiu a capacidade de enxergar que esse artifício obsessivo-matemático em Perec era uma forma especial de testemunho, em que procurava esconder um trauma maior: a perda de seus pais durante o Holocausto”, observa. “Concluí, então, que a matemática funcionou como fuga, tentativa insistente de elaboração, perlaboração e sublimação do seu passado”.

Espírito redentor que atravessa as páginas da mais recente obra da Relicário Edições, em que Fux reúne encorpadas impressões sobre o caso. “Georges Perec: A psicanálise nos jogos e traumas de uma criança de guerra”, lançado neste mês, é um ensaio em que são postos à tona a ousadia e brilhantismo da empreitada literária de Perec, cuja originalidade até hoje é celebrada por estudiosos das línguas de todo o mundo.

Em 1969, ele publicou “La Disparition”, obra com mais de 300 páginas em que nunca aparece a letra “e”, considerada seminal no alfabeto e idioma francês. O motivo? Dizia que, por ser privado do convívio com as pessoas mais importantes do mundo para ele, pai e mãe (père e mère), em francês, também seria capaz de escrever um livro sem a letra mais importante da língua de seu país natal.

Legenda: O escritor mineiro Jacques Fux: "Perec-criador nos pergunta se seria possível imaginar todas as possibilidades de leitura e de interpretações"

“Pais e letras sempre presentes, embora faltantes. Perec usa a própria estrutura para mostrar as limitações e as dificuldades-dolorosas das reminiscências e escrituras. Um projeto impossível? Louco? Talvez. Mas a pergunta que se coloca é a seguinte: qual trauma a criança-criadora precisa enfrentar para poder caminhar?”, sublinha Jacques.

Testemunho

Incansável na busca pelos detalhes da incursão de Perec, Fux relata ainda ter estabelecido contato com Susan Suleiman – especialista nas questões da memória e forma como a França enfrentou o pós-guerra – enquanto fazia um pós-doutorado na Universidade de Harvard. Lá, ele estudou esse particular testemunho do escritor francês, adentrando no terreno da infância.

“Os principais acontecimentos da vida dele ocorreram na juventude, existindo, portanto, limitações memorialísticas em relação à idade. Quando tinha somente quatro anos, o pai morreu no front de Guerra e, um ano e meio após, a mãe despediu-se dele na Gare de Lyon. Órfão, foi enviado num comboio da Cruz Vermelha aos Alpes, para viver com os tios”, elenca. 

“É de comum acordo entre os psicanalistas e psicólogos cognitivos que a idade de onze anos seria uma primeira fronteira entre o desenvolvimento infantil e sua capacidade de ter memória pessoal”.
Antes dessa idade, de acordo com o pesquisador, estaríamos em um período de “latência”, adolescência primitiva que não é capaz de reter e entender muitas informações. Depois, existe a capacidade de abstrair e um vocabulário específico para nomear a própria experiência, habilidades que faltam em crianças mais novas.

Segundo Fux, “Perec busca, por meio da escrita, uma compreensão histórica e pessoal de um passado que insiste em se repetir. É somente por meio de revisitas constantes aos traumas que podemos tentar impedir que atos terríveis aconteçam ciclicamente. Assim, textos escritos frente a atos de barbárie nos obrigam a refletir, a testemunhar, a cravar na pele e tatuar com sangue os crimes, as perseguições e os genocídios”.

As linhas integrantes de sua nova obra, assim, demarcam a necessidade do enfrentar a memória, elucidar o trauma, expôr as feridas dormentes e, só então, tentar educar para novos caminhos e possibilidades.
 

Georges Perec: A psicanálise nos jogos e traumas de uma criança de guerra
Jacques Fux

Relicário Edições
2019, 140 páginas
R$ 34,20