Fora dos streamings, novo álbum de Pingo de Fortaleza desafia mercado com difusão pelo WhatsApp

“Além do tempo normal” foi produzido durante a pandemia e de forma independente

Pingo de Fortaleza
Legenda: Pingo de Fortaleza está há 40 anos no mercado da música independente
Foto: Roberto Franchi

Pingo de Fortaleza é, antes de tudo, um teimoso. É assim mesmo que esse artista cearense, com 40 anos de produção musical independente e mais de 30 trabalhos lançados, se identifica ao apresentar o mais novo álbum da carreira, “Além do tempo normal”. Sem suporte físico, a obra está sendo distribuída apenas virtual e individualmente, via WhatsApp, e-mail ou link privado do YouTube, na contramão do que a indústria fonográfica tem cobrado dos músicos.

Essa escolha de Pingo tem a ver com um modus operandi que o guia desde os anos 1980, quando começou a fazer os primeiros discos.

“Eu não faço pensando nesse grande mercado, porque o que eu produzo não se insere nele, nem eu fui procurado por ele, nem o procurei. Eu estou seguindo a minha produção, feliz por conseguir concretizá-la, feliz por ter um público que acompanha, que curte e que dá o retorno”, pontua. 
Pingo de Fortaleza
Músico

O novo álbum de inéditas, feito sem financiamento público ou privado, foi produzido ao longo dos últimos 16 meses de pandemia com a ajuda de amigos. Em essência, ele reflete o turbilhão de emoções vivenciadas pelo artista nesse contexto sanitário, além de apresentar a Fortaleza que ele carrega no nome a partir de um olhar ressignificado pelo distanciamento social e pelo uso da bike no cotidiano.

Pingo na bike
Legenda: Pingo adotou a bicicleta como principal modal na pandemia e isso inspirou a produção artística do novo álbum

Mas nada de ouvir “Além do tempo normal” em CD, LP ou nos streamings, pelo menos por enquanto. Os custos para bancar o formato físico, bem como a dificuldade do público em ter um aparelho adequado para ouvir isso na atualidade não compensavam o esforço inicial. Já plataformas como Deezer, Spotify, entre outras, são vistas por Pingo como um oligopólio ditado pelas grandes gravadoras.

“Infelizmente, as pessoas não escutam, em geral, música de artistas menos reconhecidos nesses streamings. Você tem um público muito limitado ouvindo mensalmente ali sua obra. É interessante, porque dá acesso, mas não existe, por exemplo, retorno financeiro”, explica.

“Pra você ter ideia, eu tenho quinze álbuns lá e eu não recolhi, em três anos, sequer o dinheiro que eu paguei pra colocar eles em todos esses streamings. Então, é interessante a nível de difusão, mas a nível de produção, você não tem o controle sobre e nenhum retorno financeiro”, lamenta.
Pingo de Fortaleza
Músico

Em contrapartida, a estratégia que Pingo vem adotando na divulgação deste novo trabalho já lhe garantiu, em 14 dias, o repasse de 116 álbuns, a R$30 cada.

“As pessoas têm compreendido isso, têm valorizado, têm comprado e eu acredito que ao comprar também elas estão ouvindo esses áudios nos seus mecanismos. Você hoje recebe uma música pelo celular, faz um bluetooth e toca no seu som, na sua televisão, né? E eu também fiz um link privado no YouTube; eu mando pras elas poderem assistir juntamente com a capa, acompanhando as letras do encarte”, explica.

Processos criativos

Assim como muitos artistas, Pingo passou por diferentes fases de sua criação durante a pandemia de Covid-19. Do primeiro momento de bloqueio até as experiências de lives e ensaios virtuais interativos (que hoje já somam mais de 400 realizados no Facebook), o músico constituiu um acervo de experiências que conduziram ao novo álbum.

Mas foi ao contemplar um desenho, presenteado pela desenhista paulista Carla Massa, em que via a si com um violão entre dunas, que ele despertou para a necessidade de consolidar as composições que vinha maturando.

desenho de Pingo de Fortaleza
Legenda: Desenho de Pingo feito pela paulista Carla Massa inspirou novo álbum

“Eu queria fazer um disco muito autobiográfico, muito pessoal, de questões muito específicas do meu cotidiano, da minha vida. No decorrer da pandemia foram surgindo inspirações e momentos que eu me propus a fazer canções sozinho (letra e música)”, conta ele.

Desse processo, nasceram:

  • "Aos Encantados - Ser Boreal", uma homenagem do artista às pessoas que fizeram suas “passagens” nesse tempo;
  • “Mara Hope”, uma reflexão sobre a história do navio encalhado em 1985, no litoral Fortaleza, e a vida em geral, num diálogo "Bobdiliano";
  • “De Um Tempo Mais Que Solar”, uma ode ao Nkisi Tempo da cultura Bantu Angola e uma reflexão sobre o carnaval;
  • “Canção Pequena para o Pacoti”, um poema inspirado na força e beleza da natureza;
  • “Céu de Fortaleza”, um blues que narra uma relação afetiva especial de um fortalezense com sua cidade e suas contradições sociais; 
  • “Além do Tempo Normal”, que nomina o álbum, uma narrativa do ciclista Pingo de Fortaleza, em seus passeios no tempo de pandemia.

Há ainda outras seis canções, compostas por Pingo antes da pandemia, porém igualmente inéditas. São elas: “O Pai que Carrego em Mim” (sobre as semelhanças de pai e filho), “Para Minha Mãe Yemanjá” (ode a Yemanjá e seu papel protetor, e uma reflexão sobre as pessoas em situação de rua), “Nas Quebradas Desse Chão” (para Fortaleza e suas referências), “Nos Caminhos de ANAXIMANDRO” (metáforas sobre o Morro Branco), “Sedruol - Minha Mãe” (homenagem do artista a sua mãe) e “Ser Obaluaê - Nossos Medos Viemos Cantar” (canção que aborda o Orixá Obaluaê, seu poder de cura e a questão da depressão). Essa última vem em duas versões distintas no álbum, uma delas como faixa bônus.

Parcerias e lançamentos

O processo de gravação, feito remotamente, contou com a entrega de músicos experientes como o percussionista Marco Lobo, que acompanha Milton Nascimento; além do guitarrista e arranjador Lu de Sousa, que fez a concepção harmônica do disco; o baixista Sancho, que toca com o Waldonys; Mimi Rocha (cordas) e Marcos Vinnie (teclados).

O acordeonista Zé do Norte também contribui em mais da metade das faixas. Já o baterista Pantico Rocha, que toca com o artista Lenine, reforça três canções do álbum.

O trabalho conta ainda com produção executiva de Arnóbio Santiago e tem a capa do fotógrafo italiano Roberto Franchi, o desenho da contracapa da paulista Carla Massa e arte gráfica do gaúcho radicado em Fortaleza Larri Pereira.

“Acho que o contexto, se ele foi adverso, por outro lado ajudou, porque os músicos estavam com muita vontade de tocar, de contribuir, estavam em suas casas, também precisando trabalhar profissionalmente. Eles foram muito benevolentes. A adversidade gerou uma certa cumplicidade. Eles realmente gostaram de fazer e se sentiram à vontade pra fazer,  comprometidos. E isso se reflete no resultado das canções”, analisa.
Pingo de Fortaleza
Músico

Para reforçar a divulgação do trabalho além das redes sociais e também aproveitando a flexibilização dos decretos no Ceará, o músico já organiza o lançamento presencial do álbum “Além do Tempo Normal”, com show no dia 25 de setembro (sábado), às 18h, no espaço Cantinho do Frango, em Fortaleza (couvert R$ 20).

Na ocasião, ele tocará com a Banda Prata 950. O grupo é formado por Mimi Rocha (guitarra e direção musical), Edmundo Júnior (baixo e voz) e Ricardo Pinheiro (bateria e voz). Outros espaços também devem receber a apresentação, a exemplo do Theatro José de Alencar, no dia 17 de outubro.

Os desafios da divulgação, ele acredita, envolvem uma questão universal, de mercado, de políticas de cultura e educação, mas passam ainda por uma visão pessoal do artista, de como ele se comporta em relação ao seu processo criativo e à difusão de sua obra. De pingo em pingo, segue assim teimando  no oceano das possibilidades.

Serviço

capa álbum

Para solicitar o álbum, os interessados deverão entrar em contato nos números tel/whatsapp (085) 999877321 e (085) 999110941, tendo o custo de R$ 30. O depósito pode ser feito pelo PIX 20962495387 (CPF).

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