Final do 2º Festival de Música de Assembleia Legislativa premia melhor canção cearense com R$ 25 mil

Planejado antes da pandemia do novo coronavírus no Ceará, o evento foi adaptado para chegar ao público de um jeito diferente, mas imerso na cultura local e na importância dos artistas da terra

Legenda: Oito anos depois da primeira edição, em 2012, o evento ganhou um novo formato, com apresentações dos artistas sem público e transmitidas ao vivo
Foto: Helene Santos

Enquanto as incertezas permeiam o cotidiano em ritmo constante no cenário artístico, as adaptações permitem que a arte continue sendo produzida e difundida. É esse exatamente o caso do 2º Festival de Música de Assembleia Legislativa. Oito anos depois da primeira edição, em 2012, o evento estava programado para retornar este ano. Planos suspensos, planos também modificados. Colocado em pausa logo no início da pandemia do novo coronavírus na Capital, o festival ganhou, agora, novo formato com apresentações dos artistas sem público, transmitidas ao vivo desde a última quinta (30). Na noite deste sábado (1), a iniciativa chega à última etapa: a escolha do vencedor, dentre 24 artistas semifinalistas, a partir das 19h30. 

Para quem pensou o novo formato, poder criar um espaço para a expressão diante de tantas adversidades tem soado como alívio, ainda que mínimo diante das mudanças. Lá no começo, 364 canções foram inscritas no festival e 24 delas, todas autorais e inéditas, selecionadas pela curadoria. Mesmo nesse formato, elas puderam ser performadas em uma fase eliminatória nos dias 30 e 31 de julho, convergindo para o foco deste sábado (1), no qual a melhor obra e apresentação serão escolhidas.

Renato Borges, um dos organizadores do festival, faz questão de ressaltar a oportunidade de proporcionar o foco na arte mesmo quando os dias mais difíceis parecem prevalecer. “Existe uma importância em relação à classe como um todo, claro, mas realizar isso vai ainda mais além”, revela com carinho ao explicar os detalhes pensados especificamente para realizar a edição no momento. 

O prêmio, no total de R$ 25 mil destinado à melhor canção, inclusive, também configura um dos fatores importantes, ele relata, já que a impossibilidade básica de “exercer o trabalho” tem prejudicado financeiramente muitos artistas. Outro ponto delimitado por ele como válido é o fato de que também será destinado a 12 dos participantes a gravação de um disco. Dessa forma, o festival também passa a exercer o papel de espelho para dar visibilidade a nomes que há anos buscam espaço em solo cearense.

“Somando as importâncias, afinal de contas nossa classe é uma das mais afetadas nesse período, existe também o ponto de que isso é relevante para as pessoas que ainda estão em casa. No geral, muita gente foi abalada, independentemente do aspecto emocional. Também trazemos esse viés: o de trazer boa música às pessoas, para que elas possam ter o coração acalentado por algo bonito e que faz muito bem como a música”, diz Renato Borges. 

Sob holofotes

Entre os participantes, a certeza de uma realidade difícil é unanimidade. Exatamente por isso, poder subir ao palco e cantar pode ser uma brecha no caminho que tem se percorrido às escuras. Para a cantora Hannah Carneiro, uma das participantes selecionadas, a impossibilidade causada pelo vírus também revelou bastante o poder das artes.

“A Cultura e a Arte são relevantes em qualquer cenário, e é interessante perceber como isso se cristaliza nesses momentos em que o mundo real apresenta uma crueza, uma dureza maior. A música, a literatura, o cinema, e até o esporte (o sagrado futebol, por exemplo, que fez muita falta para mim) compõem os instantes de leveza que conseguimos desfrutar”, comenta.

Sobre o festival, ela conta que o “ritmo para a realização estava acelerado antes da pandemia” e a energia agora foi voltada à necessidade dos cuidados com as medidas para torná-lo real. “Quando este novo cenário começou, ficamos em stand-by por um tempo, para entender o que estava acontecendo. Quando retomamos os contatos, os procedimentos de ensaio, passagem de som e a própria realização do festival foram feitas com cautela, de acordo com as orientações atualmente indicadas”. 

Exatamente por isso, os cuidados tão essenciais foram pensados em conjunto com a produção musical, segundo explica Peninha, compositor, produtor cultural e um dos organizadores do evento. “Estava tudo perfeito, inscrevemos as músicas, reunimos comissão de curadoria, escolhemos essas 24 e estava todo mundo muito contente. Aí apareceu esse vírus e murchou tudo. Com uma angústia, comecemos a pensar de mãos atadas. Ficamos aguardando, pensando em adiar mais e passei a mensagem para todo mundo sobre isso. Com essa melhora da situação, comecemos a analisar e montamos esse esquema da transmissão”, explica ao lembrar do processo. No momento, ele não esquece de “agradecer aos céus” pela conquista da realização. 

Aparecida Silvino, vencedora da primeira edição e uma das concorrentes deste formato adaptado, busca definição no “encontro entre talentos e arte”. Se antes a felicidade era poder participar da segunda edição mesmo anos depois, agora o sentimento se une, de fato, à vontade de reviver a emoção dos palcos e sentir o público mesmo de longe. No entanto, ela revela, as dúvidas chegaram a ser demais nos últimos meses. “Decidi desistir várias vezes, mas o pessoal da direção deste festival é tão apaixonado pelo que está fazendo que me convenceram a participar”, brinca. 

Concorrendo com a música “Pode Bater o Tambor”, escrita em conjunto com o pernambucano Gilvandro Filho, ela também embarcou na essência pensada pelos responsáveis da montagem. “Cultura é vida, é ar puro! É saúde, é comunhão. Creio que este festival traz na marra uma resistência infinita. Ao momento que vive o país, o momento que o mundo passa”, pontua ao definir o festival como “necessário”. 

De acordo com Peninha, a saudade da lotação em shows e do olhar dos espectadores diante da união que apenas a arte é capaz, fica ali, guardada como para quem sabe já ter vivido dias mais bonitos. Com os instrumentos para realizar o festival, o esforço parece já ter até recompensando. “É uma forma de dar também conforto para os nossos músicos. Temos uma premiação generosa, os músicos são essenciais e as pessoas que ajudam na realização geral também. Acaba sendo um momento de fraternidade para todos nós, ainda passando a mensagem de as pessoas se manterem em casa”, explica o produtor. Assim, mesmo que não haja tanto para celebrar diante do cenário geral, a arte mais uma vez ganha o merecido: status de essencial e insubstituível.