Festival de arte urbana cria corredor de obras de grafite em muros da Varjota

Com 1ª edição, "Se Essa Rua" promove apreciação da arte urbana local e busca trazer mais visibilidade para o formato

Legenda: Um mapa ilustrado por Almeida Luz guia os transeuntes pelos murais transformados
Foto: Beatriz Nogueira

Toda e qualquer manifestação artística cumpre papel fundamental na sociedade, seja de caráter político, seja expressão estética inovadora. Quando nas ruas, o lugar convencional da arte é rompido e os muros viram telas, prontas para intervenção.

De forma a refletir a relação das pessoas com o cotidiano da cidade, a arte urbana ganha mais um espaço de fomento à cultura e valorização da produção local. Na primeira edição, o "Se Essa Rua" promove a realização de obras de grafite no bairro Varjota, até o dia 31 de outubro.

O movimento acontece desde 2016, de forma independente. Neste ano, com mais apoio, o evento se faz grande oportunidade de impulsionar interesse e visibilidade à arte urbana. Para Almeida Luz, idealizador do projeto, a escolha do local também foi motivada pelo afeto e pelo desejo de ver a cena crescer na cidade.

"O bairro escolhido é o lugar que eu moro. Aqui, eu enxergo muitas oportunidades. Quando se fala em Varjota, se fala em comidas e bares. E a gente está somando com esse corredor de arte urbana, que será o maior da capital. Essa é a nossa expectativa e a nossa busca. Estamos nessa perspectiva para o bairro ficar mais incrementado", afirma.

Veia nordestina

A valorização da arte feita no Nordeste é prioridade no festival. Para tanto, foram convidados para participar da criação do corredor os artistas visuais e grafiteiros Dinha Graffiti, Mila, Mar, Hirlan Moura, Kong Silva, Marquinhos Atg (PE), Henrique Alves + Alto da BF (RJ), Narah Adjane, Spote, Junior Animal, Nick Pereira, Rayke, Jambo, Sandro Brasil, Ksim, Crash e Thairony Arruda (PB), além do próprio Almeida Luz.

Apesar do teor transgressor do formato, o recifense Marquinhos Atg, que trouxe arte à terra da luz pela primeira vez, busca dialogar com o público por meio de mensagens de paz e equilíbrio. Nas reflexões sobre si mesmo e nas relações com o próximo, ele procura transformar o espaço urbano em lugar de expressão.

Legenda: Marquinhos Atg
Foto: Beatriz Nogueira

"Essa é exatamente a arte que eu faço. É externar sentimentos e inquietações de forma lúdica, alegre, com cores leves que completam a ideia. Meu processo de criação é muito pessoal, com algumas interferências externas: uma frase, uma situação, um sonho, minha filha, minha esposa e minha fé", explica o artista.

Rua como ferramenta

Com o tema "Se Essa Rua", o projeto consiste em desenvolver a pintura de fachadas de casas, muros e calçadas, em uma articulação mútua com empresários, moradores e artistas.

Ao todo, serão vinte painéis de grafites, trinta fachadas e calçadas variadas, espalhados nas ruas Ana Bilhar, Canuto de Aguiar, Frederico Borges e Pereira Valente. Apesar do corredor de arte medir aproximadamente 960 metros, a contribuição visada pela iniciativa é muito mais extensa.

A revitalização do espaço urbano, com as tintas e significados, procura destacar áreas no bairro diretamente relacionadas com os processos de reestruturação, ativando a dinâmica e a diversidade no local. Entre os planos do organizador está ainda a criação de mais um ambiente para a agenda cultural da cidade, estimulando o retorno gradativo e seguro das pessoas às ruas.

Para além da estética, o movimento amplifica vozes das parcelas marginalizadas da sociedade, sem limitações de espaços e mensagens. Com o intuito de engajar mais jovens para a prática, o projeto ofereceu oficina de grafite para desenvolvimento da criatividade e aumento da sensibilidade na percepção das realidades e emoções. Ampliação, teoria das cores, história do grafite e história da arte de rua foram abordados.

"É mostrar para as pessoas que a arte é uma ferramenta de inclusão social, que está acessível pra todo mundo independentemente de sua classe social, que pode mudar o cotidiano de determinado lugar, mudar completamente a vida de um indivíduo", salienta Marquinhos Atg.

A arte salva

O entendimento da arte urbana como grito de liberdade é o conceito compartilhado por Alexsandra Ribeiro, mais conhecida como Dinha. Mulher, negra e nordestina, a artista afirma que se inserir no meio foi difícil, pelas questões de violência e assédio. Entretanto, representando potência e ancestralidade, Dinha hoje ocupa as ruas e mostra que a união de mulheres negras é sinônimo de poder.

Legenda: Alexsandra Ribeiro, conhecida como Dinha
Foto: Beatriz Nogueira

"Minha arte se baseia nas figuras femininas. Quando a produção me apresentou o muro o qual iria pintar, fui logo resgatar inspiração através de pesquisas a qual realizo diariamente sobre a população negra", diz.

No fim, para os que conferirem o trabalho e como um convite a conhecer novos lugares e revisitar os antigos, um mapa será ilustrado por Almeida Luz, de forma a guiar os transeuntes pelos murais transformados.

"A maior importância que tem é a valorização da arte, a conexão que os trabalhos criam com as pessoas, com os moradores", completa Luz. Assim, através do reconhecimento das intervenções como ação representativa de vivências cheias de significado, a arte urbana se torna menos estigmatizada e mais livre - como deve ser.

Serviço

Se Essa Rua
Até 31 de outubro, no bairro Varjota. Mural com cerca de 960 metros estará nas ruas Ana Bilhar, Canuto de Aguiar, Frederico Borges e Pereira Valente
Instagram: @se_essa_rua

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