Exposição inédita do artista plástico cearense Stênio Burgos reabre Espaço Cultural Unifor

“Stênio Burgos - Realtopia” tem abertura virtual nesta terça-feira (22) e fica disponível para visitação presencial, mediante agendamento, até 20 de dezembro

Legenda: Stênio Burgos junto a um dos trabalhos presentes em "Realtopia: poéticas de atravessamentos
Foto: Ares Soares

A função primeira da pintura de Stênio Burgos é o desejo de superação. Arte engajada numa dinâmica de rompimento, na qual o artista plástico cearense vê-se amalgamado a uma vastidão de sentimentos e possibilidades, transferindo tudo para o suporte de trabalho.

"Jogo na tela primeiramente minhas tragédias pessoais, misérias e dificuldades e, a partir daí, há um longo processo de angústias e inseguranças que vou tentando superar, terminando sempre com muitas camadas de tintas que tentam dissimular a dor”, conta.

Esses atravessamentos tão íntimos de sua poética refletem-se, sobretudo, nos famosos autorretratos de autoria do pintor, feitos a partir de horas diante de um espelho. As criações refletem não apenas a forma do corpo e da alma do artista, mas também a evolução do processo pictórico – repleto de muitos níveis e, em similar compasso, dotado de bastante clareza: vontade ininterrupta de ir além.

Nesta terça-feira (22), será possível mergulhar com maior afinco nessas particularidades do trabalho de Burgos a partir da exposição “Stênio Burgos - Realtopia”. Às 19h, acontece a abertura virtual da mostra, com transmissão ao vivo pelos canais de comunicação da Universidade de Fortaleza. No dia seguinte, seguindo até 20 de dezembro, as obras estarão disponíveis para visitação, mediante agendamento, no Espaço Cultural Unifor.

Legenda: Obra “Me, Myself and I”, de 2014: pintado em Amsterdam, autorretrato compõe a mostra “Realtopia”
Foto: Ares Soares

O projeto marca a reabertura do equipamento após o período de isolamento social mais rígido em Fortaleza, em razão da pandemia de Covid-19. Não à toa, a circulação no espaço obedecerá a todos os rigorosos protocolos de segurança para garantir o bem-estar dos visitantes.

No total, 83 trabalhos – como alguns são múltiplos, perfazem-se 185 quadros na mostra – podem ser conferidos. Com singular beleza, esse panorama transita por entre os vários universos de inspiração do pintor, suscitando importantes reflexões e como que abraçando o público por meio de figuras de rostos, naturezas, mares, sertões. Paisagens possíveis.

Valor ao entorno

A curadoria da exposição inédita é assinada por Olga Paiva. Amiga de Stênio desde 1976 – conheceu o artista quando ele voltava da França e ela estava indo para lá –, afirma que o conceito da mostra perpassa a ideia de que a arte é uma recriação permanente do real, como forma de dar sentido à existência. Por isso mesmo, a curadora acredita que o público deverá alavancar múltiplos pensamentos ao conferir os trabalhos.

“Um deles é o desejo de proteger, defender a natureza. Porque é esse Ceará bonito, verdejante que Burgos encontra. E o que torna valiosíssimo o trabalho dele é o fato de ele ser uma pessoa que nasceu no sertão e, desse lugar, não se afastar nunca porque tem o coração lá. É Crateús, é os Inhamuns. Ele anda por muitos mares, mas não deixa suas raízes, que são baianas e sertanejas”, explica.

Essa baianidade, por exemplo, reflete-se no barroco do colorido de algumas formas, uma das marcas mais proeminentes do fazer intuitivo de Stênio. Afirma as próprias origens, assim como outros matizes elencados para compor as telas. “A ‘Realtopia’, assim, é essa viagem, são essas reflexões. É o mundo que ele gostaria que houvesse”, completa Olga.

Burgos reitera que, de fato, é esse apreço pelo possível que circunda o projeto. Segundo ele, a mostra começou a ser gestada no fim de setembro do ano passado, quando o pintor recebeu o convite do professor Randal Pompeu, Vice-reitor de extensão da Universidade de Fortaleza. “A partir daí, passei a viver em função dela, respaldado pela competente equipe do espaço, pela curadora Olga Paiva e uma rede de amigos que encampou o projeto e escreveu os textos para cada sala”.

Legenda: No total, 83 trabalhos podem ser conferidos na exposição
Foto: Ares Soares

O título da exposição remonta aos anos 1980, quando Stênio era bolsista do Forum Humanum do Club de Roma. À época, escreveu um relatório intitulado exatamente “Realtopia”, que o levou a residir em Barcelona, na Espanha, e ficou guardado até 2019, quando mostrou para a equipe à frente da exposição. “Ali, decidimos levar o título para a mostra”, diz. 

As peças ocupam todo o térreo do Espaço Cultural Unifor e contam um pouco da trajetória do artista – natural do município de Crateús, interior cearense, e graduado em Arquitetura e Urbanismo. Apresentam também a produção mais contemporânea de Burgos – de forma didática, mas tentando aliviar os pesos de uma retrospectiva.

“Como só eu poderia fazer, comecei então a rever minha reserva técnica, os arquivos e agendas da minha produção a partir de 1999, e o diálogo estabeleceu-se entre artista, curador e a equipe da Fundação Edson Queiroz”, detalha.

Atravessamentos

“Realtopia” divide-se em dois momentos. No primeiro salão, subdividido em quatro salas, estão as obras seminais. Abre com “Odisseia”, tela em que Stênio tenta contar sua história. Inconclusa, nela estão presentes a Bahia de Todos os Santos, o Sertão dos Inhamuns e o mundo.

Legenda: Obra “Interior”, de 2003, pintada em “plein air” na minha primeira temporada pictórica de Stênio Burgos na fazenda Jatobá, em Crateús
Foto: Ares Soares

“Ela começa com o mar cor de vinho de Homero, mamãe e papai grávidos de mim e a balsa do São Francisco, que servia de elo entre a justeza do sertão e a exuberância da Bahia”, explica, confessando que se sente desnudado diante do trabalho.

Esta sala leva texto de Ana Maria Roland e continua com 36 autorretratos, de 1984 a 2020, que, por si só, contam a trajetória pessoal e pictórica do artista plástico.

Por sua vez, a sala seguinte se denomina “Carathius”, apresentando um mosaico de obras com referências de Crateús, texto de Gilmar de Carvalho e obras pintadas a partir de 2003 – majoritariamente na fazenda Jatobá, onde Burgos viveu parte da infância. 

Nesse espaço, há também, entre outros trabalhos, um painel com 36 retratos dos muitos amigos que passaram pela casa do pintor e dois espelhos assinados, onde cada visitante pode fazer uma selfie e se sentir parte do painel. Na sequência, a sala “Manual de Caligrafia e Pintura” leva texto de Maciej Babinski e possui duas obras do Manual que foram disponibilizadas para deficientes visuais. Elas estarão liberadas para leitura tátil.

Legenda: Stênio Burgos e a curadora da mostra, Olga Paiva
Foto: Ares Soares

O segundo momento da mostra é um outro salão, subdividido em três salas, que apresenta as obras mais recentes da produção de Stênio. A exposição se encerra com uma sala dedicada às devoções brasileiras.

“O que o público sentirá passeando pela ‘Realtopia’ não posso prever. Mas gostaria que encontrassem um pedaço do nosso Brasil brasileiro tão amado e descuidado por todos nós. Que suscitasse um sentimento mais cuidadoso com nossa biodiversidade, sobretudo nesse momento tão difícil para nossa civilização”, torce Stênio Burgos.

Fica, assim, o desejo de que mais pessoas abracem essa poética do cuidado a partir da arte.

Serviço
Exposição “Stênio Burgos - Realtopia”
Abertura virtual nesta terça-feira (22), às 19h, por meio das plataformas digitais da Universidade de Fortaleza (facebook, instagram, youtube e TV Unifor - canal 181 da Net). Período expositivo: de 23 de setembro a 20 de dezembro de 2020. Visitação: de terça a sexta-feira, das 9h às 19h; sábados e domingos, das 10h às 18h. Gratuito. Acesso de grupos somente por agendamento pelo telefone: (85) 3477-3818

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