Espetáculo “Observatório da Cidade” traz o Hip Hop como proposta para conhecer a cidade

Apresentações da montagem ocorrem nesta sexta (14) e na próxima (21), no Teatro Dragão do Mar

Legenda: Ao todo, sete Bboys, que também participam do grupo Sul Clan, fazem parte do espetáculo na Experimentus
Foto: Júnior Vanderley

Dos 15 anos de existência, comemorados agora em 2020, parte do trabalho da Experimentus Cia. de Dança sempre circulou em torno da vontade de incluir a dança nos cenários periféricos da cidade, além de usá-la como ferramenta de revolução.

Para destacar a importância do aniversário, Paulo Lima, coreógrafo e um dos fundadores da companhia, fala com carinho do espetáculo “Observatório da Cidade”, com temporada de apresentações marcadas para esta sexta (14) e para o dia 21 de fevereiro, às 20h, no Teatro Dragão do Mar. 

“Quinze anos não são quinze dias”, afirma, de cara, ao tentar descrever a importância do momento de comemoração e do novo trabalho desenvolvido em cerca de três meses. No espetáculo, sete jovens mostram o Breakdance em meio a inspirações baseadas nos espaços dispostos de Norte a Sul de Fortaleza, como uma forma de usar as vivências dos bailarinos e mostrá-las nos passos fortes, em uma coreografia de impacto e de grande habilidade técnica.

“Nesse espetáculo, nós buscamos mostrar a distribuição dos locais da nossa cidade e no conceito disso. Começamos a pensar nessa questão sobre como as pessoas são espalhadas de acordo com as classes sociais, do que elas possuem como poder aquisitivo”, relata Paulo Lima. 

A palavra “experimentação”, inclusive, é a escolhida para definir o novo trabalho da companhia. Segundo Lima, para que essa experiência fosse completa, foi necessário buscar elementos nas observações singulares de cada integrante da montagem.

“Nós procuramos trazer uma verdadeira mescla entre dança e dramaturgia na figura dos nossos Bboys, vindos do Hip Hop, sendo sete no total, que fazem essa passagem pelo território da Capital em cena. São coisas que eles vivem, já que também habitam essa cidade”, conta.

Intervenção

É justamente na figura dos bailarinos o ponto central do trabalho da Experimentus. De acordo com Paulo, perceber a dança como elemento de intervenção foi crucial para tornar o projeto uma realidade. A partir disso, ele explica, surgiu a necessidade de criar um alicerce de reflexão neste trabalho. No fim das contas, a montagem se molda como uma forma de crítica por meio da arte, para o bem ou mal, das questões sociais vividas em solo fortalezense.

“As pessoas que estão no espetáculo, por exemplo, fazem a cidade e a transformam por meio da dança, dos passos. Todo o plano de fundo pensado por nós é alicerçado nessa questão de apresentá-los como importantes atores sociais”, opina Paulo.

Reconhecimento

Para representar a ideia proposta por Paulo, que já buscava realizar algo fora do espectro da dança contemporânea, sete bailarinos, definidos como Bboys, foram escolhidos para fazer parceria com a Experimentus. 

Uma amiga foi a intermediária para conhecer o grupo Sul Clan, que realiza atos próximos a diversos semáforos e ruas diversas de Fortaleza. Após visualizar o trabalho dos meninos, Paulo não teve dúvida da urgência em chamá-los para fazer parte da nova obra, a décima da carreira como coreógrafo profissional.

Legenda: Paulo Lima, coreógrafo e criador da companhia de dança, conta que foram necessários quatro meses de ensaios para o espetáculo
Foto: Júnior Vanderley

“Fiquei sabendo que eles estavam angariando recursos, até mesmo para a participação em competições e festivais, e isso aumentou o meu interesse em trabalhar junto deles. Conheci todos por meio de uma colega e eles toparam essa desconstrução”, recorda Paulo Lima.

Com o apoio de instituições como o Espaço Cultural Belchior, foi estipulado o prazo de um mês para estudos e o início da montagem do espetáculo. O Centro Cultural Dragão do Mar, onde as apresentações serão realizadas, também foi crucial no momento ao ceder a estrutura para a realização de ensaios, aponta o grupo. No total, foram quatro meses de processo criativo para finalizar a coreografia e o contexto do que será mostrado no palco nesta sexta-feira.

História

Para além do “Observatório da Cidade”, uma conversa com Paulo deixa bem claro todo o esforço para criar a Experimentus e continuar realizando algo pensado por ele anos atrás: fomentar o conhecimento em dança por todo o Estado e, acima de tudo, resistir às intempéries.

Há quase 15 anos, mais precisamente em outubro de 2005, o desejo de ganhar novas oportunidades sem, no entanto, abandonar o viés social, ficou cada vez maior.

Resolveu deixar aos poucos o local onde praticava dança para perseguir o objetivo de criar algo próprio.

Junto disso, conta ter tido o apoio de outros colegas bailarinos, e também inclusos em projetos sociais, para construir a companhia do começo. Com todo o esforço das etapas iniciais, ele explica ter criado uma personalidade ainda mais forte para a caminhada rumo ao que realiza hoje.

“Não é fácil sobreviver no meio da dança, nunca foi. Não só pelas ações sociais, mas também porque a arte pode acabar sendo exclusiva muitas vezes. Entre nós, é bem clara essa dificuldade até mesmo econômica”, ressalta, ao citar como os detalhes técnicos e financeiros foram entraves nessa jornada.

Ainda assim, desistir nunca foi uma opção, como faz questão de frisar. Atualmente, além da estreia com o novo espetáculo, outro produto será disponibilizado neste ano para marcar a importância do momento vivenciado pela companhia.

“Ganhamos o edital da Prefeitura que contempla o projeto de um livro que vamos lançar agora nesse segundo semestre e acaba sendo uma segunda comemoração para nós”, contou, em primeira mão.

A felicidade dele fica bastante clara ao citar os lançamentos e estreias como uma grande conquista coletiva. Para o artista, tudo acaba sendo um reflexo de anos de árdua batalha, amor e sorte.

“Nossa energia veio desde cedo, de pessoas que trabalhavam em projetos sociais e nós continuaremos nessa estrada”, é o que reitera, deixando claro a consciência de manter ao lado quem sempre o apoiou e deve ser inspiração para o futuro próximo.

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