Espaços culturais ainda não se adaptaram ao meio virtual, revela pesquisa brasileira

Estudo divulgado pela 3ª edição da "TIC Cultura" aponta que setor enfrentam dificuldades de oferecer serviços via internet à população. Falta de acesso agravou-se durante a pandemia

Pesquisa também identificou o baixo uso das tecnologias para captação de recursos. Menos de 10% das instituições recebem via websites, redes sociais ou campanhas de financiamento coletivo
Legenda: Pesquisa também identificou o baixo uso das tecnologias para captação de recursos. Menos de 10% das instituições recebem via websites, redes sociais ou campanhas de financiamento coletivo

O isolamento social, necessário a evitar a circulação do coronavírus, exigiu que o setor cultural migrasse para o ambiente online. No entanto, poucos equipamentos da área conseguem efetivar suas atividades no meio virtual. O despreparo das instituições em atender essa mudança é revelada pela 3ª edição da TIC Cultura, pesquisa organizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br).

O levantamento entrevistou 2.193 responsáveis por arquivos, bens tombados, bibliotecas, cinemas, museus, pontos de cultura e teatros. Conduzido entre fevereiro e agosto de 2020, o estudo detalha que os espaços não conseguem usar toda a potencialidade da internet. O recurso online é mais utilizado para atrair o público presencial do que para ofertar bens e serviços.

A 3ª edição da TIC Cultura foi divulgada durante o Webinar "Pandemia e Digitalização da Cultura: Instituições e Públicos na Internet" (vídeo abaixo. A pesquisa pode ser lida por meio do livro digital lançado pelo Cetic.br.

Com a pandemia, a exigência de oferecer programação remota escancarou dilemas da área. Desenvolvida pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), a pesquisa alerta que os recursos disponíveis nos sites destes equipamentos é mais voltado à divulgação de informações institucionais (como endereço, contato e horário de funcionamento), programação e notícias.

O trabalho define que atividades online são, por exemplo, visitas virtuais ou transmissão de vídeos ao vivo/ streaming. A 3ª edição da TIC Cultura é incisiva. Faltam investimentos na infraestrutura tecnológica e conectividade. A adaptação emergencial dos equipamentos culturais para a oferta de bens e serviços remotos passou a ser um entrave, descreve, em nota, o gerente do Cetic.br, Alexandre Barbosa.

Em 2020, cerca de um quarto das bibliotecas (25%), museus (23%) e dois quintos dos bens tombados (40%) não faziam uso da rede. Falta de dinheiro e a pouca capacitação da equipe no uso de computador e internet são a realidade destes equipamentos.

A infraestrutura precária de acesso é mencionada por 15% dos responsáveis por bibliotecas e 11% dos responsáveis pelos bens tombados e museus. O alto custo dos serviços de conexão é citado por 14% dos gestores de bens tombados, 10% de museus e 9% de bibliotecas.

Cenário revelado

"A pesquisa foi planejada no início de 2020. A coleta dos dados começou em fevereiro, portanto, antes de a crise sanitária ser deflagrada no País. Embora não tivesse como meta capturar os efeitos da pandemia, o estudo apresenta resultados muito relevantes nesse contexto, ao diagnosticar o preparo que essas instituições tinham para se adaptar a esse novo cenário", completa Barbosa.

Cerca de metade dos gestores dos pontos de cultura (55%), teatros (50%) e museus (47%) afirmou ter formação específica em gestão cultural. Porém, é necessário capacitação no uso de tecnologia online. Menos de um terço dos responsáveis pelos locais voltados à cultura disseram ter domínio dessa habilidade.

25% dos museus presentes na pesquisa disponibilizaram acervo digital ao público
Legenda: 25% dos museus presentes na pesquisa disponibilizaram acervo digital ao público
Foto: Natinho Rodrigues

A capacidade das equipes em desenvolver ações via computador e internet também é deficitário. A oferta de treinamento interno atinge pouco mais de um terço dos arquivos (35%) e cinemas (37%). Somente um quinto deles (22% e 19%, respectivamente) dispõem de verba para realização de cursos externos. Isso é ainda menos comum entre os demais equipamentos culturais.

Desconectados

68% dos museus contam com digitalização de acervo. Contudo, esse dado não corresponde à disponibilização do material para o público. Apenas 25% consegue dispor estas obras na rede. O acesso de visitantes se dá majoritariamente na própria instituição (30%).

Mesmo com o cenário preocupante, o estudo reforça que as instituições culturais são um espaço vital de democratização da informação.

O acesso a computadores e internet para uso do público é destaque entre arquivos, bibliotecas e pontos de cultura. Embora as visitas presenciais tenham ficado comprometidas, o trabalho descreve que os equipamentos culturais atuam na inclusão digital de parcela da população.

 

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