Entre o íntimo e feminino: menstruação sem tabu

Tão natural quanto velada, a menstruação tem sido retomada como ferramenta de empoderamento feminino

Legenda: Na ilustração de Raisa Christina, a menstruação aparece como um processo natural do corpo feminino, uma forma de conexão com o próprio íntimo

Aisa Christina admite: "nunca me acostumei de fato a estar menstruada". O comportamento feminino em relação a esse processo fisiológico tem mudado muito ao longo dos anos, mas ainda assim passa por rejeição. As dores, as cólicas, as enxaquecas e os dias que antecedem o sangramento podem ser dolorosos tanto física quanto mentalmente. No entanto, a ressignificação desse processo tem ficado cada vez mais latente entre o público feminino.

Seja para se conectar com o íntimo ou para lidar de maneira diferente com o período que é realidade todos os meses, muitas mulheres têm se fortalecido em figuras que disseminam novas ideias sobre ao assunto.

A ilustradora cearense Raisa retrata a menstruação em seus trabalhos e acredita nessa mudança de comportamento. Para ela, a união mais forte das mulheres tem desenhado os contornos dessa nova relação com o sangramento mensal.

"A consciência do feminismo na população como um todo - e, principalmente, na relação da mulher consigo mesma, com o próprio corpo, o próprio cabelo, com os padrões de beleza vigentes nos meios de comunicação de massa - tem sido responsável por essas mudanças, embora ainda tímidas. São essas pequenas mudanças de gestos, posturas e símbolos as nossas micropolíticas", comenta.

Ancestrais

Conforme a psicóloga Prema Shatki, essa transformação de comportamento é ancestral, algo comum há tempos em culturas matrifocais, nas quais a mulher era a figura central. "Antes, as mulheres tinham a prática de entregar o sangue à terra, por exemplo. Essas práticas se preservaram em algumas tribos, principalmente de índias norte-americanas, e conseguiam fazer com que a mulher se sentisse conectada com o ciclo da vida, consigo mesma e com a terra".

A psicóloga facilita dois workshops voltados ao empoderamento e reconexão com o feminino. Aos 47 anos, após uma série de problemas internos, percebeu um nível alto de rejeição ao próprio gênero. "Eu aparentemente gostava de ser mulher, embora não achasse nada vantajoso. Nesse período, minha menstruação vinha muito intensa e comecei a manifestar muita enxaqueca, muita cólica. E assim eu me sentia meio inválida", relembra.

Hoje, Prema relata uma diferença nessa questão: começou a trabalhar diversos aspectos ligados ao seu íntimo e percebeu resultados que foram além do físico. "Tive um grande insight de que isso estava errado dentro de mim. A partir daí, dentro de um mês, já comecei a ver mudanças, quando menstruei, já não senti mais a enxaqueca, as dores começaram a diminuir", reitera.

Relação com o corpo

Segundo uma pesquisa realizada pela Johnson & Johnson, publicada em maio de 2018, em parceria com a Kyra Pesquisa & Consultoria, 66% das mulheres entrevistadas se sentem desconfortáveis durante o período e 57% se sentem como se estivessem sujas.

Para a ginecologista Anna Dorotheia, essa sensação de incômodo e até de vergonha poderia ser evitada se as meninas fossem orientadas desde cedo a compreender a menstruação como um processo natural do corpo. Chamada de menarca, a primeira vez que a mulher menstrua antecede uma fase carregada de dúvidas e anseios.

Não por acaso, 54% das entrevistadas pela pesquisa tinham pouca ou nenhuma informação sobre esse momento. A médica aponta as maiores queixas das pacientes que chegam ao seu consultório: "tendem a ser as dores, que podem ocorrer nesse período e, em segundo momento, a TPM, que pode atrapalhar, de alguma forma, a vida social dessa pessoa".

Em todos os casos, saber o que está acontecendo e entender como tudo se desenvolve é essencial para evitar que o fardo das dores e do desconforto se torne algo destrutivo.

Segredo de si

Ainda de acordo com a pesquisa da Johnson & Johnson, que reuniu dados de 1.500 mulheres entre 14 e 24 anos do Brasil, Índia, África do Sul, Filipinas e Argentina, mais da metade desse grupo encara a menstruação como um segredo a ser guardado 'a sete chaves'. Algumas delas optam, inclusive, por não praticar esportes ou atividades básicas rotineiras nesse período.

Para a antropóloga paulista Mirian Goldenberg, cujos estudos focam a relação entre mulher e íntimo, esse comportamento relaciona-se à repressão social em torno do autoconhecimento feminino. Autora de livros como "Toda mulher é meio Leila Diniz" e "A revolução das Mulheres: um avanço do Feminismo no Brasil", ela também coloca na equação o elo com a sexualidade.

"As mulheres carregam muita vergonha de tudo relacionado ao próprio corpo. Existe um tabu grande. O sangue, que tem a ver com procriação, sexualidade, a prova de que ela é mulher e pode fazer sexo e procriar, é um dos motivos para essa vontade de manter em segredo", explica.

Feminismo

Parte importante na luta por igualdade, o feminismo tem constituído grandes esforços para essa libertação. Raisa acredita que, apesar da situação difícil vivida pelas mulheres atualmente, este é um momento histórico. "Tendo consciência dos valores machistas e patriarcais que vêm movendo há séculos as sociedades, passamos a nos articular melhor, criamos redes de apoio e assim nos sentimos mais fortes, nos encorajamos a lutar por reconhecimento, respeito e igualdade".

Esse movimento tem acompanhado um crescimento de iniciativas propostas por mulheres e feitas para elas. "Há inúmeros coletivos de mulheres que se organizam na criação de feiras alternativas de marcas autorais, lojas e ateliês compartilhados, de editoras, de culinária vegana, de cicloativismo feminista etc. Sem dúvida, isso tem contribuído para incentivar e inspirar processos criativos mais questionadores e críticos por parte das novas gerações de artistas", reforça a ilustradora.

Arte

Na busca por se apropriar de uma característica intrínseca às mulheres, diversas artistas escolhem a menstruação como tema para seus trabalhos. Raisa, cujos traços ilustram estas páginas, é uma das que resolveu abordar o assunto da maneira mais espontânea possível. "É como se o tema tivesse me chegado sem que eu me desse conta. Sempre trabalhei nas artes visuais com muita mancha, cor, traço, e sentia que esse amontoado de elementos trazia certa poluição na imagem".

Logo após esse momento, ela conta que passou a trabalhar o vermelho e viu o desenho de outra forma. "Quando eu mesma comecei a fazer o exercício de olhar para algumas séries recentes e pensar sobre elas, é que me dei conta da presença clara do vermelho e na relação da cor com os corpos femininos, por vezes dando indícios de sangue, hormônios, força, desejos".

Por meio dessas ilustrações, é possível vislumbrar certa naturalização. Na teoria, não parece tão complicado de internalizar. Para as mulheres, entender esse ciclo e se apropriar de algo que as pertence unicamente pode ajudá-las a sanar discussões restritas apenas ao seu íntimo.

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