Em coletiva do filme “A Última Floresta”, Kopenawa alerta para “doença mais forte que a Covid-19”

Xamã Yanomami também denunciou o desrespeito de autoridades políticas brasileiras com os povos originários

Davi Kopenawa
Legenda: Davi Kopenawa: "Nós somos índios brasileiros verdadeiros e estamos aqui junto com a última floresta"
Foto: Reprodução/Filme "A Última Floresta"

“O povo da cidade escuta, mas não acredita”, lamenta em português o xamã e líder político Davi Kopenawa, diante de uma sala virtual com não mais do que 30 jornalistas presentes. Firme em suas convicções, porém, ele não desiste de fazer mais alertas, afinal “o povo sagrado não pode acabar junto com a natureza” e vai ter “doença mais forte que a Covid-19”, segundo as previsões da comunidade que representa.

Em uma hora, ele e Luiz Bolognesi, diretor do filme “A Última Floresta” - com estreia nas salas de cinema em 9 de setembro -, detalharam também os bastidores e intenções da obra audiovisual que, entre outras condecorações internacionais, venceu o prêmio do público na mostra Panorama no 71º Festival de Berlim. 

“Eu não sabia o que eu estava fazendo, mas ele sabia que o filme ia viajar como uma flecha pelo mundo”, relata Bolognesi, que dividiu a construção do roteiro com o xamã. 

Antes das gravações, ele foi convidado por Kopenawa a passar dez dias na aldeia, localizada em um território ao norte do Brasil e ao sul da Venezuela, e foi durante essa experiência que o diretor sentiu o efeito positivo de “perder o controle”.

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Legenda: O filme "A Última Floresta" recupera a origem do povo Yanomami
Foto: Pedro J Márquez

“O Davi me falou: ‘roteiro, filme é sonho coletivo. Para fazer, a gente tem que sonhar junto. Vem na minha casa, sonhamos de noite e dia conversamos’”. E foi daí que saiu 1h15 de poesia Yanomami, costurada por Bolognesi para falar com a audiência branca.

Mas o objetivo primeiro era dialogar com a própria comunidade, a fim de que as crianças e jovens indígenas olhassem para a beleza do seu modo de vida. E fizeram isso por meio da história mítica dos irmãos gêmeos Omama e Yoasi, que explica a origem do povo da floresta, mas também dos que vivem na cidade.

“Eu sou Omama e a nossa casa é a floresta. Nós somos povo guardião e vamos cuidar até o fim do mundo, porque nossos filhos precisam da floresta para não ficarem misturados com Yoasi, que escolheu alugar a cidade e só gosta de derrubar árvore e fazer campo”, distingue.
Davi Kopenawa
Xamã e líder político Yanomami

Armas, garimpo e outras doenças

Enquanto traçava este paralelo histórico, o líder indígena também teceu críticas ao governo de Jair Bolsonaro. Quando questionado sobre a presença de armas de fogo na aldeia, por exemplo, Kopenawa não economizou nas denúncias.

“Os garimpeiros têm muita arma e autoridade com Jair Bolsonaro. Eles compram arma proibida, eles têm dinheiro. Mas essa arma não é bom usar, porque mata meu povo e o povo não é caça. Mas a autoridade acha bom os garimpeiros acabarem com meu povo Yanomami”, disse.

A raiz dos problemas, acredita o xamã, é a paixão do “branco” pelo dinheiro, ficando surdo e cego para o que realmente importa.

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Legenda: Davi Kopenawa criou o roteiro do filme com Luiz Bolognesi
Foto: Pedro J Márquez

“Sem dinheiro, eles não têm trabalho, por isso não querem nos ouvir, porque a nossa palavra e a nossa história não é dinheiro; é valorizar cada um de nós, continuar como surgiu”, aponta.

Antes de se despedir para os compromissos políticos em uma semana decisiva para os povos indígenas brasileiros, com o julgamento do marco temporal, Kopenawa reforçou uma profecia que o filme também traz: quando cavamos em busca dos minérios, liberamos a fumaça da doença.

“Vai ter outra doença muito forte para outra cidade, porque outra cidade é muito numerosa e não dá pra caber todos no nosso planeta. A doença vai diminuir o número do povo da cidade. Cresceu o número do povo da cidade e vai ter que minimizar pra não mexer mais na Terra, deixar o planeta protegido. Assim o xamã Pedrinho falou e tô repassando para vocês pensarem, lembrarem como aconteceu, de onde saiu a doença coronavírus que já matou milhares de pessoas, mas vai matar mais ainda. Essa doença que vem não tem vacina. O número da cidade vai reduzir. Isso foi sonho do nosso xamã. E mais outro aviso pra vocês da cidade: se cuidem e, se a autoridade não respeitar, ele vai matar mais povo da cidade. Essa é minha fala para vocês, defender a floresta Amazônica. Agora minha fala vai voltar para minha aldeia”. (Davi Kopenawa)

*O filme estreia nas sala de cinema em 9 de setembro

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