Em 'Amiga Ursa', Rita Lee se volta ao público infantil e faz manifesto em defesa do animais

A cantora conta a história de Marsha, a ursa mais triste do mundo. Sem conto de fadas, a cantora mostra que o animal passou por perrengues, mas teve um final digno e feliz

Legenda: Traficada da Rússia para o Brasil, a ursa Marsha serviu de atrações em circos
Foto: ILUSTRAÇÃO: GUILHERME FRANCINI

A vida de Marsha não foi nenhum conto de fadas. Ainda filhote, a ursa foi arrancada da mãe para viver trancafiada em uma jaula, submetida a temperaturas muito acima da que seu corpo suportava. Saiu da Rússia sob a posse de traficantes de animais e veio viver no Brasil como atração de circo. Perdeu o convívio com os irmãos, foi obrigada a ensaiar dancinhas e truques "divertidos" e passou um tempão sendo alimentada com comida de cachorro.

Não é nem de longe uma trajetória fácil. Quando Rita Lee soube da existência de Marsha, a ursa vivia enclausurada em um zoológico do Piauí, quase sem enxergar e tão estressada que fazia movimentos repetitivos a ponto de criar um buraco no chão. A cantora, veterana na defesa dos direitos dos animais, ficou sensibilizada com a história e tratou de ajudar na campanha pela transferência de Marsha para um local mais apropriado na região serrana de São Paulo.

O esforço se cumpriu e em setembro de 2018 a ursa já estava no Santuário Ecológico Rancho dos Gnomos, em Cotia, em um recinto adequado, com direito a piscina com cascata. Lá, a ursa foi rebatizada como Rowena, que significa "recomeço", e em pouco tempo apresentou mudanças no comportamento, trocou de pelo e estava mais disposta.

A reviravolta na vida de Marsha/Rowena inspirou Rita Lee, que tem se dedicado ao universo dos livros desde que se aposentou dos palcos em 2012, a contar a história da ursa em um livro infantil. Lançado em julho, "Amiga Ursa - Uma história triste, mas com final feliz" marca o retorno da cantora à literatura infantil, gênero que abriu as portas da artista para os livros na década de 1980.

Legenda: Cantora foi ao Rancho dos Gnomos, local que a ursa Marsha/Rowena teve como refúgio
Foto: FOTO: GUILHERME SAMORA

Infantil

Publicado pela Globinho, selo infantojuvenil da Globo Livros, o texto conta a vida de Masha desde a saída forçada do seu habitat natural, passando pelos perrengues nos circos brasileiros, até a transferência da ursa para São Paulo, onde morreu pouco depois do lançamento do livro de Rita, nove meses após a mudança.

Em linguagem lúdica e bem leve, a cantora Rita Lee mostra os dois lados da vida da ursa. Na primeira fase, ela narra a violência sofrida por Marsha entre a Rússia e o Brasil sob a posse dos traficantes e instiga as crianças a pensarem: é certo tirar um filhote do convívio da mãe? O Brasil é o país mais adequado para viver um urso siberiano? Qual é o habitat natural da espécie de Marsha?

Na segunda parte, Rita fantasia sobre o processo de transferência de Marsha para São Paulo e insere personagens que considera importantes na mudança de vida da ursa, como a atriz francesa Brigitte Bardot, também conhecida pela defesa dos animais, e a apresentadora Luisa Mell, cujo instituto financiou a construção do recinto onde a ursa viveu.

A própria Rita Lee também está no livro como a personagem vovó Ritinha, uma das pessoas que auxiliam Marsha/Rowena na mudança de rumos.

Legenda: Cantora foi ao Rancho dos Gnomos, local que a ursa Marsha/Rowena teve como refúgio
Foto: FOTO: GUILHERME SAMORA

Ligação com Ceará

A história da ursa, contada pela cantora, também evidencia uma ligação com o Ceará, uma vez que a irmã da personagem principal, a ursa Kátia, permanece em um zoológico de Canindé esperando a transferência junto com o urso Dimas para o mesmo local em São Paulo onde ela foi resgatada. Kátia é, inclusive, citada na obra.

Com ilustrações de Guilherme Francini, o livro aborda de maneira leve temas como geografia e biologia e faz pensar sobre a importância de preservar o meio ambiente e respeitar os animais.

O livro é um bom pretexto para Rita Lee aproximar assuntos como bichos e crianças, temas que tem permeado a vida da cantora desde que ela decidiu se reservar ao sítio no interior de São Paulo longe dos holofotes.

Aos 71 anos e preservando o título de rainha do rock brasileiro, Rita Lee leva a vida entre os animais de estimação, que vão desde o cachorro às tartarugas, e o cuidado dos netos. A eles, deve ensinar lições como as que demarca no livro: "Afinal, para que serve um animal selvagem capturado de seu habitat natural e preso numa jaula?"

AMIGA URSA
Rita Lee
Globinho
2019, Págs. 46
R$ 58