Editor cearense Nathan Matos lança campanha para publicação de antologia poética

Iniciativa visa ainda a manutenção do site literário e criação de selo editorial

Legenda: Com a publicação da Antologia Poética do LiteraturaBR, editor Nathan Matos planeja novos rumos para o site
Foto: Arquivo pessoal

O desejo de registrar impressões sobre as leituras que realizava fez Nathan Matos criar, em 2004, o site LiteraturaBR. O projeto pessoal – idealizado antes mesmo de o editor cearense ingressar em Letras, na Universidade Federal do Ceará – tinha como propósito armazenar alguns comentários, em forma de resenha, a respeito dos livros conferidos por Nathan. Era o modo de ele driblar a ausência de pessoas com quem poderia conversar sobre literatura.

À medida que começou a demonstrar maior interesse pelo mercado editorial em si, o profissional – atualmente à frente da editora Moinhos, casa a qual é um dos idealizadores – foi compreendendo segmentos como o das editoras  independentes. Desta feita, percebeu que o portal idealizado por ele poderia contribuir muito com a divulgação de livros de autores e autoras independentes, assim como de editoras nessa vertente, embora não apenas.

Nathan passou a receber textos – de poemas e contos a crônicas e ensaios –, multiplicando, assim, os conteúdos do site. “Era um trabalho imenso para apenas uma pessoa, no caso eu, gerar tudo, com participação de colunistas fixos. Esses colunistas, com o tempo, iam e vinham, assim como alguns amigos que, quando podiam, ajudavam a manter o site no ar, pagando hospedagem, domínio etc.”, detalha o editor.

Legenda: A Antologia Poética LiteraturaBR tem como proposta contar com a participação de poetas de todo o País
Foto: Divulgação

Agora, após 17 anos de dedicação ao projeto e tocando outras iniciativas de semelhante envergadura, o cearense acredita que a plataforma precisa se profissionalizar. Nathan quer encontrar subsídios para remunerar o próprio tempo de trabalho, bem como pagar os colunistas fixos – ainda que, em um primeiro momento, de forma simbólica.

Assim nasceu a iniciativa de compor a Antologia Poética LiteraturaBR, que segue em campanha de financiamento coletivo no Catarse até o dia 15 de julho deste ano. A obra tem como proposta contar com a participação de poetas de todo o País. Cada um poderá ter duas páginas e cinco exemplares da antologia. “Essa é a recompensa mais importante porque, assim, a pessoa consegue participar da obra”, explica Nathan Matos.

Outros projetos

Caso atinja a meta estipulada – de R$ 21.395 – e , então, aconteça a publicação da antologia, o LiteraturaBR poderá ser mantido durante mais tempo no ar, com um bônus: terá toda a identidade visual transformada. A mudança deverá otimizar o início do Selo Editorial do LiteraturaBR, voltado para a autopublicação com qualidade. 

“Vou levar todo o conhecimento que criei nas editoras Substânsia e Moinhos para o selo, de forma a tentar contribuir no projeto de pessoas que querem se autopublicar, mas, ainda assim, ter um selo por trás do livro também. É algo que facilita no trânsito com livrarias e afins”, explica.
Nathan Matos
Editor

Além disso, o editor enxerga com entusiasmo a possibilidade de colocar em prática cursos sobre literatura, ação há muito desejada pelo portal. Nesse sentido, duas formações estão sendo viabilizadas para o segundo semestre deste ano. Também consta nos planos o lançamento de um podcast, entre outras iniciativas.

“Para que tudo isso possa acontecer, essa Antologia é fundamental. O que acontece se ela não vingar? Daí, começaremos a descer a ladeira, que não terá volta. Encaminharei o site para o começo do fim e vou encerrar as atividades pois, como disse, é impossível continuar como estamos. Espero não ter que bolar um plano B, caso a antologia não dê certo. Mas, se tiver que bolar, não sei se ele pode nos salvar”, percebe Nathan.

Legenda: Caso a campanha atinja a meta estipulada e haja a publicação da antologia, o LiteraturaBR poderá ser mantido durante mais tempo no ar, com novidades
Foto: Divulgação

Moinhos na ativa

Por outro lado, quando instigado a comentar sobre o panorama da editora Moinhos – sobretudo nos últimos tempos, com a emergência da pandemia de Covid-19 – o editor afirma que, para sua “enorme” surpresa, de maio até outubro do ano passado a editora obteve uma curva crescente nas compras diretas, via site. O movimento, assim, contribuiu imensamente para a manutenção da empreitada.

“Além disso, estávamos no início do ano com um representante comercial, que abriria muitas frentes para nós. Mas, com a pandemia, muita coisa ficou parada. No segundo semestre, porém, conseguimos, com o representante, alavancar saídas dos livros para algumas distribuidoras e livrarias, e isso também nos manteve ativos”, detalha.
Nathan Matos
Editor

Em 2020, Nathan contabiliza o lançamento de cerca de 25 títulos pela casa. A quantidade foi bem menor se comparada a 2019, mas, segundo ele, a editora “passou respirando” pelo ano.

Por sua vez, no que diz respeito a 2021, o profissional avalia ser um ano que já chegou denso, com dificuldades ainda maiores do que aquelas observadas no ano passado – sobretudo, no caso da seara editorial, por conta de entraves na economia, com aumento de mais de 30% no preço do papel apenas neste primeiro semestre.

De todo modo, ainda que navegando nessas águas turbulentas, a Moinhos já lançou 14 títulos nos últimos seis meses – em igual medida de autoria estrangeira e nacional. A maioria estava prevista para ser publicada no ano passado. 

Legenda: Capa do livro da filósofa espanhola María Zambrano, com tradução de Fernando Miranda, publicado pela editora Moinhos
Foto: Divulgação

“Alguns livros importantes, como ‘Filosofia e poesia’, da espanhola María Zambrano, com tradução de Fernando Miranda. A autora é considerada uma das maiores filósofas do século XX, mas nunca havia sido publicada por aqui”, destaca Nathan.  

“Também lançamos há pouco ‘Elias Portolu’, nosso segundo livro da autora italiana Grazia Deledda, uma das poucas mulheres agraciadas com o Nobel, com tradução de William Soares dos Santos”, completa.

Alguns outros títulos também já estão programados. Um deles é “Space Invaders”, da chilena Nona Fernández, bastante conhecida na nação de origem e traduzida para diversas línguas. Outro é “Nove partes de um coração”, escrito por Janice Pariat e traduzido por Camila Araujo. Janice, inclusive, é a primeira escritora indiana a chegar no catálogo da casa.

Há ainda uma obra de Fernando Pessoa (1888-1935), sobre teoria literária, assim como um novo livro de Raimundo Neto, Michel de Oliveira e de Marco Severo. Sobre estes últimos três autores, Nathan é enfático: “São nomes creio, de fundamental importância para a literatura nacional”.

Legenda: Escritora chilena Nona Fernández terá o livro “Space Invaders” publicado pela Moinhos
Foto: Divulgação

Igualmente é prevista a publicação de mais trabalhos argentinos e portugueses – entre eles “Agosto”, de Romina Paula, e “Manhã Submersa”, de Vergílio Ferreira, um dos maiores romancistas portugueses, ainda desconhecido por aqui. 

Ainda na conta dos próximos lançamentos, tem-se o terceiro volume de uma das sagas fantásticas nacionais que mais ganhou adeptos nos últimos três anos – “Araruama”, de Ian Fraser; e um livro de crônicas de Ana Elisa Ribeiro, “Doida pra escrever”, bem como um dos livros finalistas do International Booker Prize de 2020, “As aventuras da China Iron”, da argentina Gabriela Cabezón Cámara, com tradução de Silvia Massimini Felix. 

“E mais algumas coisinhas que não posso comentar”, confessa o editor, aos risos.

Consumo de literatura latino-americana

A partir de um maciço investimento da Moinhos na publicação de autoras e autores sul-americanos – na esteira do propósito externado por Nathan Matos em uma entrevista que concedeu ao Verso no início de 2020 – o editor percebe que o público tem aceitado e se animado para ler obras desse segmento.

“Se você der uma olhada para um lado e para o outro, verá que muita coisa está saindo de autores latines em várias casas editoriais. A Moinhos não está só, e fico muito feliz com isso. Tenho percebido que mais perfis literários nas redes sociais têm dado vazão a esse nicho, mais clubes de leitura, e mais editoras também têm entrado nesse campo”, analisa. 
Nathan Matos
Editor

Além de casas que já publicavam literatura latino-americana antes que a Moinhos, a exemplo da Mundaréu e Incompleta, o profissional cita outras, como a Relicário, a Instante e a Pinard – empreitada que nasceu da ideia de professores, administradores de perfis de literatura, com um belo trabalho de desenvolvimento de projetos junto ao Catarse. “A verdade é que tenho ficado muito feliz”, festeja o cearense.

Quanto aos outros países, ele encara ainda ser uma questão complexa, percebendo que pouquíssimas obras latino-americanas têm saído lá fora. “O que sai, quase sempre, são de grandes nomes já do Brasil – e nomes de pessoas consagradas, mas que não estão mais entre nós. É claro que há obras que são traduzidas para o espanhol, obras contemporâneas brasileiras e publicadas, mas ainda é muito pouco”.

Cenário

Além de todas as iniciativas ligadas a Moinhos, Nathan ainda criou, no ano passado, ao lado da amiga Silvia Nascheveng, editora da Mundaréu, o Tortilla Livros. Trata-se de um clube de livros voltado para a divulgação da literatura hispânica. A cada dois meses, é enviado para os assinantes uma obra inédita, ou do catálogo da Moinhos ou da Mundaréu. Com praticamente seis meses de existência, o Tortilla tem sido muito bem recebido pelo público.

Nessa dinâmica, questionamos o editor acerca de que modo a Moinhos tem se reinventado para ir na contramão dos impactos no mercado editorial provocados pela pandemia de Covid-19.  Matos acredita que não muito além dos passos dados por muitas editoras. 

“Passamos com mais força para as redes sociais. Já vínhamos focando nelas antes da pandemia, mas isso nos forçou a criar um canal no Youtube, a pensar em ter mais textos no nosso blog e a trabalhar mais no marketing offline – junto a críticos, jornalistas e escritores. Além de estudar um pouco mais sobre fortalecimento da relação entre a editora e os leitores e as leitoras via e-mail”, detalha.
Nathan Matos
Editor

Instigado também a refletir sobre como ele observa o presente cenário do mercado editorial no Brasil, Nathan visualiza ser este um momento para muitas pessoas repensarem a maneira com a qual se trabalha

De acordo com ele, o segmento em questão no País pode não se diferenciar de muitos lá fora – tendo a possibilidade de ser melhor do que alguns de países vizinhos e pior do que outros dos demais continentes. Mas uma coisa que o cearense tem em mente é que, primeiro, é preciso profissionalizar esse mercado.

“E, quando digo isso, falo em todos os sentidos e em todas as áreas”, especifica. “Segundo, é preciso haver diálogos. O que vimos, enquanto editoras, desde o início da pandemia, foram ações, em alguns momentos, duras de livrarias e distribuidoras sobre nós. De certa forma, todos perdemos: as livrarias perderam clientes, nós perdemos acertos, as gráficas que ficam a sustentar o pagamento de impressões, os autores sem receber, e por aí vai”.

Legenda: Novo livro do cearense Marco Severo deve ser lançado pela Moinhos ainda neste ano
Foto: Divulgação

Para Nathan, a cadeia do livro é um dominó, que precisa conversar melhor. “As editoras tiveram que engolir muita coisa e, falando isso aqui abertamente, eu posso ser persona non grata. Mas é preciso haver uma mea culpa, e de todos os agentes dessa cadeia. Não só das livrarias, como muitos de nós, editoras e editores, que achamos que também contribuímos para que o mercado se estabelecesse da maneira que está estabelecida”, sublinha.

Lidar com a bibliodiversidade 

Nathan enfatiza a necessidade de as distribuidoras de livros aprenderem a lidar com a bibliodiversidade, passando a trabalhar cada vez mais com pequenas editoras – uma vez que não se torne um suplício elas terem uma distribuidora que as represente.

“Eu mesmo demorei quase quatro anos para conseguir, e só consegui porque tive um representante – e olhe que tentei antes, várias vezes. Se me jogarem uma pergunta para que eu diga qual é a solução, vou responder que não sei. Porque não há um diálogo que atravesse todos os níveis. Sem diálogo, não há solução. E pode ser que digam que minto, que há, sim, diálogo, mas penso que não adianta termos diálogos em bolhas. Sabemos onde essas bolhas estão nos levando enquanto país, enquanto uma nação que está mais desunida a cada dia que passa”, considera.

É preciso, assim, na visão dele, que os editores dialoguem entre si, bem como os livreiros e as distribuidoras, mas que também todos conversem dentro de um âmbito muito maior. “Não é possível que tenhamos que chegar a este ponto, em que editoras não queiram mais trabalhar com livrarias. Eu mesmo já pensei isso, porque muita coisa cansa, e o sistema em si não é algo que agrada. Mas veja, o que seremos sem livrarias? Eu acho que seria um horror, assim como será um absurdo não olharmos também para as bibliotecas, que parecem estar esquecidas”, percebe.

Em meio a todo esse panorama, ele também conta que viu, participa e sabe de grupos, em todas as esferas, que estão tentando resolver as questões pertinentes ao atual cenário. Porém, conforme observa, ainda falta muito. Muito.

No que toca ao segmento das editoras independentes, por sua vez, ele opina que, para que elas não sucubam, é preciso se manter unido, verdadeiramente, em prol da leitura e do livro, não apenas do capital. “O capital é preciso, sim, para mantermos as atividades. Sabemos, mas é preciso lembrar, que há um ideal por trás dos projetos que criamos. Esse capital não é o que nos comanda”, assegura.

“Penso que para muitas independentes há muito mais por trás do trabalho que se desenvolve. Publicamos o que grandes editoras, num primeiro momento, renegam ou não estão dispostas a apostar. Hoje em dia, as independentes são as melhores em descortinar o que muitas fingem não existir. As independentes são como oxímoro latino que um amigo me disse certa vez: ‘Festina lente’, apressamo-nos devagar”.
Nathan Matos
Editor


Serviço
Campanha de financiamento coletivo para a publicação da Antologia Poética LiteraturaBR
Até o dia 15 de julho de 2021, neste link. Contribuição a partir de R$ 35

Livros da editora Moinhos
Catálogo completo disponível no site da editora. Mais informações e conteúdos também no blog, no canal do YouTube e nas redes sociais (instagram e facebook) da editora

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