E-book reúne registros de uma mãe fotografada pela filha durante o isolamento social

Disponível em versão digital, "Safety Distance" expõe a forma que Ana Mundim achou para aplacar a dor da saudade e manter o contato com a mãe, Nazaré Mundim

Legenda: Registros que Ana Mundim passou a fazer da mãe durante o período de maior isolamento social em Fortaleza agora compõem um livro
Foto: Ana Mundim

Ana e Nazaré Mundim nunca foram de viver longe uma da outra. Relação umbilical, desconhecedora de fronteiras. Contudo, não mais que de repente, a pandemia do novo coronavírus obrigou filha e mãe a redesenhar os modos de contato. Durante 71 dias, elas estiveram fisicamente distantes dos abraços, da presença, da ternura que alimenta e dá vigor. Separadas por segurança.

Na desesperada busca para driblar a ausência da mãe, Ana, então, percebeu que de uma das janelas do apartamento onde reside, no bairro Meireles, em Fortaleza, era possível ver a varanda do prédio de dona Nazaré. A partir dali, começou a fotografar diariamente a genitora toda vez que ela saía para fazer algo na parte externa do lar, captando seus humores, sentimentos e manifestações. Suas maneiras de abraçar com o semblante e o olhar.

Foi dessa forma que surgiu o projeto “Safety Distance”, algo traduzido como “Distância de segurança”. A iniciativa – outrora apenas no instagram pessoal de Ana – agora está presente em versão e-book, lançada no último dia 10 de outubro. A oportunidade para o feito surgiu a partir do apelo do público que acompanha as postagens e também do Arte em Rede, convocatória para seleção de projetos em formato digital promovida pela Secretaria da Cultura do Estado (Secult-CE) e Rede de Equipamentos.

“Foi o estímulo que faltava para concluirmos esse processo, e a aprovação no edital foi a concretização desse sonho conjunto”, comemora Ana, bailarina, professora do curso de Dança da Universidade Federal do Ceará, fotógrafa e DJ carioca, residindo há três anos na Capital.

Detalhes

A concepção de “Safety Distance”, o e-book, foi pensada conjuntamente com o fotógrafo Igor Cavalcante, responsável pelo projeto gráfico. O livro é como um diário visual do dia a dia no isolamento e dessa relação tão forte entre mãe e filha. 

Legenda: Durante 71 dias, Ana e Nazaré Mundim estiveram fisicamente distantes dos abraços, da presença, da ternura que alimenta e dá vigor. Separadas por segurança
Foto: Ana Mundim

Conceitualmente, a obra foi pensada a fim de contemplar cada instante de lonjura, por isso a opção de, ao invés de numerar as páginas, numerar os dias.

“Há também uma criação de ritmo dessa passagem do tempo. Em algumas partes, você vai encontrar três dias passando rapidamente numa mesma página; em outras, um único dia pode se demorar por várias páginas do livro”, explica Ana.

Esse ritmo vem exatamente para reforçar o texto e as imagens que a própria autora construiu. Assim, há momentos leves, alegres e até engraçados, e outros que transparecem uma vastidão de sentimentos igualmente presentes no período de maior confinamento, a exemplo de ansiedade, medo e solidão.

Legenda: As diferentes nuanças do comportamento da mãe são recuperadas por Ana Mundim no livro
Foto: Ana Mundim

“A quantidade de dias que o projeto durou foi a mesma quantidade de dias que ficamos separadas. Durante a exposição da iniciativa no instagram, percebi que, na medida em que eu repassava os recados carinhosos que recebíamos para ela, seu estado também se modificava positivamente. Uma rede de apoio afetivo foi sendo criada, a partir da visibilidade desse corpo e de sua história”, situa a autora.

Não sem motivo, o livro confere uma homenagem à protagonista, dona Nazaré, e foi publicado no dia do aniversário dela, fechando esse ciclo de modo bastante simbólico.

Reflexões

Para além da dimensão pessoal, o maior objetivo da publicação também é universalizar as discussões e ampliar os debates sobre o corpo do idoso em nossa sociedade, tantas vezes abandonado ou minimizado. Assim, sublinhar sua valorização, atenção, cuidado e o processo de inclusão necessários nessa faixa etária.

Ana conta ainda que, agora que o período de maior confinamento passou na cidade, é possível visualizar melhor os sentimentos que mais pautaram os dias em que esteve fisicamente longe da mãe. Tudo era muito intenso.

Legenda: Após o tempo em que passaram separadas, a ida à praia de dona Nazaré também foi captada pela filha
Foto: Ana Mundim

“Sentia uma preocupação que a solidão, ansiedade e tristeza baixassem sua imunidade e ela caísse doente por outros motivos que não o próprio Covid-19. Além disso, uma saudade imensa, a vontade de abraçá-la, estar perto e voltar a viver o estado de presença e proximidade”.

“Penso que, de certa forma, minha mãe se tornou a mãe de muitos, nesse momento. E as performances cotidianas que ela inventava para as fotos também traziam certa curiosidade sobre o seu estado de humor ou as surpresas que ela traria a cada dia. Muitas pessoas me diziam que acordavam e entravam no meu instagram para saber o que ela ‘tinha aprontado’ naquele dia”, completa a autora.

O episódio do reencontro entre dona Nazaré e Ana também está no livro. Com as tintas da sensibilidade, a artista pincelou o momento munida de uma fartura de cores, belezas e emoções. “A obra tem essa mensagem de amor e de esperança, sem perder a criticidade frente aos fatos sócio-políticos que temos vivido”.

Neste instante, Ana continua trabalhando de forma remota, mas consegue encontrar dona Nazaré pelo menos uma vez ao dia. E até já a levou para respirar o ar da praia, fazê-la sentir a liberdade afanando os cabelos e dissipando a dor. Estão, assim, juntas de novo porque, a bem da verdade, nunca se separaram.

Safety Distance
Ana Mundim

Quarteto Editorial
2020, 148 páginas
Distribuído gratuitamente por meio do instagram do Porto Dragão

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