Duo de livros de Nara Vidal aborda dilemas juvenis com protagonista distante dos padrões sociais

A autora mineira, vencedora do Prêmio Oceanos de Literatura 2019, narra, em “Arco-íris em preto e branco” e “As cores do arco-íris”, uma trama envolta por importantes reflexões

Legenda: Com muito charme, inteligência e senso de humor, Isadora conquista a audiência no duo de livros de Nara Vidal
Foto: Ilustração de Flávio Fargas

Isadora se acha feia. E tem o humor “de alguém que dormiu e acordou de calça jeans”. Rói as unhas e exibe uns quilos a mais no corpo, além de ter o rosto tomado por cravos e espinhas. São características que a constituem e, por mais que insistam em dizer o contrário, a jovem entende que é natural ser dessa forma, assim como de várias outras. Principalmente porque esses fragmentos podem até dizer um pouco sobre sua aparência e personalidade, mas jamais a respeito dela por inteiro. 

É com essa premissa aparentemente simples, mas bastante sintonizada com o hoje e repleta de camadas, que o duo de livros “Arco-íris em preto e branco” e “As cores do arco-íris” – lançados, respectivamente, em 2014 e neste ano pela Editora Dimensão – atravessa um sem número de temáticas a fim de apresentar tramas cheias de graça, leveza e importantes reflexões. O fio condutor de cada fato são os dilemas cotidianos de Isadora, protagonista que, pelo charme, inteligência e senso de humor, logo conquista a audiência.

A responsável por imprimir tanta identidade à divertida adolescente é Nara Vidal. A escritora mineira – uma das vencedoras, no ano passado, do Prêmio Oceanos de Literatura, com o romance “Sorte” – se une a dois ilustradores para explorar a rotina de Isadora e apresentá-la ao público leitor. Enquanto no primeiro volume, a paulista Suppa assume o leme dos desenhos, no segundo é o mineiro Flávio Fargas. Envoltos pela magia da narração em verbo, ambos preenchem as páginas com belos e inventivos traços.

Legenda: A jovem protagonista dos livros lida com as características pessoais de forma honesta e autoconfiante, com um desejo sempre urgente de permanecer sendo ela mesma
Foto: Suppa

De acordo com Nara, a concepção da história se deu com base no humor e, a partir de cada página, a protagonista foi se formando e apresentando à autora problemas por ser uma adolescente. “Algo arriscado, porque pode acontecer de, quando não traçamos um perfil, a personagem não nos interessar mais. Mas ela foi se fortalecendo para mim e ficando cada vez mais interessante e clara. Quando recebi o livro pronto e reli a história, gostei da personagem narradora, mas não tracei suas características previamente, não. E eu gosto muito da Isadora. De certa forma, ela me surpreendeu”, confessa, em entrevista por e-mail diretamente da Inglaterra, onde reside.

Em tempos de exacerbação narcísica nas redes sociais, é mesmo de admirar que a jovem lide com as imperfeições (afinal, quem não tem?) de forma tão honesta e autoconfiante, com um desejo sempre urgente e necessário: o de permanecer sendo ela mesma.

“Acho que, de certa forma, ela significa o que eu gostaria de ter sido em várias fases da adolescência. Acho que todos nós, em algum nível, somos infelizes na pré adolescência e adolescência e a Isadora não foge à regra. Mas a forma madura com a qual ela lida com as derrapagens e problemas é muito interessante. Como se já tivesse aprendido a importante lição de não se levar tão a sério já desde nova”, situa Nara sobre a personagem.

Travessias

Engana-se quem pensa que as obras abordarão apenas essas prerrogativas iniciais. Com habilidade, Nara Vidal parte das premissas apresentadas e vai fazendo da leitura dos livros um delicioso processo de imersão em vários pequenos acontecimentos que, unidos, formam um robusto mosaico de assuntos e perspectivas sobre individualidade e relações sociais.

Enquanto ponto de partida da história, “Arco-íris em preto e branco” traça as primeiras descrições da “nada mole vida” de Isadora. É quando sabemos que ela tem que lidar com uma família que exalta o comportamento de Isabela, sua irmã gêmea, especialmente porque se encaixa no modelo social. É a “gêmea bonita”. Magra, com cabelos lisos, pele esfoliada e atenta à moda, reúne os atributos que a fazem ser popular e querida, enquanto a “gêmea feia” fica a ver navios.

Na escola, as perspectivas também não são tão diferentes. Isadora tem uma melhor amiga, Bia, que dispara frases feito esta quando ela diz que se sente feia. “Deixa disso, garota. Você é uma figura. Supertalentosa e criativa”, o que deixa a ouvinte “com uma facada no peito”. Além disso, existem ainda os garotos que zoam com a aparência autêntica da jovem. As coisas, porém, mudam um pouco de figura quando surge uma (inesperada) paixão.

Legenda: Isabela é considerada a "gêmea bonita" pelos outros, enquanto Isadora, a "gêmea feia". A partir da personalidade das irmãs, Nara Vidal trabalha inúmeras questões importantes
Foto: Suppa

Nara conta que, apesar de não lembrar o exato processo de escrita da obra, tendo em vista ter acontecido há sete anos, algo foi se firmando durante o desenvolvimento: a intenção de ter uma trama rica.

“Eu pensava em Moliére, com aquelas comédias de costume, sabe? Aquele disse-me-disse, planos, brigas, intrigas. Mas me vem também aquelas tramas de ‘Noite de Reis’, ‘A Megera Domada’, de Shakespeare. Claro, não estou fazendo qualquer comparação, mas acho que todos temos algumas referências literárias que, vez ou outra, se fazem presente. Essas teias, conspirações, estão muito presentes no universo do adolescente e do pré-adolescente”, situa.

Por sua vez, “As cores do arco íris”, dadas as apresentações do universo de Isadora no livro anterior, revisita cada cenário e personagem, mergulhando-os em outras questões, cada vez mais intrigantes. A autora, assim, hesitou menos em narrar a história por, entre outras coisas, já saber que a protagonista detinha uma noção bastante apurada dela mesma, de sua personalidade.

“Então, peguei essa personagem já delineada e voltei a tramar para e contra ela, mas sempre com humor e reflexões importantes sobre temas delicados. Acho que o maior desafio dos dois livros foi juntar as pontas de tanta história e não deixar a trama sem solução. Queria que tudo fizesse sentido ao decorrer da prosa”, diz.

Questões

Assim sendo, sem nenhuma intenção de apregoar lições de moral, a escritora trabalha um encorpado leque de assuntos – do bullying à aceitação, passando por relacionamentos e convivência familiar – de modo muito terno e verdadeiro.

Reparem que, logo nas primeiras páginas de “Arco-íris em preto e branco”, Isadora afirma:

“Se eu pudesse escolher entre ser bonita e divertida, escolheria ser divertida, sem pestanejar! Acho lindo quando as pessoas me fazem rir. Não sou eu que tenho problema com a minha aparência: são os outros”.

Essas pérolas vêm acompanhadas, a cada início de capítulo, com citações de grandes autores e autoras, personagens de outras histórias ou até mesmo da própria narradora, num belo movimento de intertextualidade. E devem continuar a marcar o começo de mais episódios. Nara trará à luz mais um volume para fechar a trilogia, adiantando o que pautará as novas linhas.

Legenda: Livros trabalham um encorpado leque de assuntos – do bullying à aceitação, passando por relacionamentos e convivência familiar – de modo muito terno e verdadeiro
Foto: Flávio Fargas

“No livro três e último, acompanho o crescimento dela, que agora vai lidar com pressões e questões sobre sexo, drogas, homossexualidade. Tudo isso entra, mas sem jamais perder o tom cômico e nunca com julgamento, nunca. Sem qualquer lição de moral. Seria a morte do livro”, enfatiza.

“Eu corro de mensagem, especialmente para crianças e adolescentes. Acho brutal livros que ensinam de forma didática e, por isso, subestimam a brilhante inteligência dos jovens leitores, que têm um mecanismo muito especial e rico para compreender e interpretar suas leituras”.

Ainda assim, ela dá algumas dicas do que pode ser proporcionado com a leitura de ambas as obras, por enquanto, da coleção. “Acho que a maior delas é a de não se conformar com padrões. Fiz absoluta questão de escrever a história que não é a do patinho feio. Tanta gente que lê o livro acha que, no final, a Isa foi se embelezar, passar a usar roupas caras, passar a frequentar o salão. Mas, imagina se eu ia estragar a minha personagem! Ela é quem ela é. Isso é inegociável. Para as belezas, temos a Isabela”.

Leituras e projetos

Já há alguns anos escrevendo para crianças e adolescentes, Nara acredita que os gêneros literários infantil e infanto-juvenil são os mais importantes, embora, infelizmente, muito subestimados na indústria do livro e no meio literário.

“Nunca encontramos, em eventos badalados, uma mesa principal com escritores de livros para crianças e jovens. É uma calamidade porque mais tarde, quando reclamamos que não se lê no país, falamos de adultos que talvez, se tivessem tido mais atenção e valor como leitores na infância e adolescência, estivessem mais fluentes e presentes na cadeia de leitura do livro”.

Legenda: A escritora Nara Vidal: apreço por ricas tramas, também e sobretudo, para crianças e adolescentes
Foto: Arquivo pessoal

Também reflete sobre os desafios de escrever, de maneira inteligente, para crianças e jovens – “vejo livros infantis terríveis, que usam uma linguagem simplificada, como se a criança não conseguisse entender a língua e os temas” – e comenta projetos na área que está desenvolvendo.

“Minha produção de livros infantis era mais fértil quando meus filhos eram menores. Tenho algumas coisas ainda na gaveta. Talvez eu publique, não sei. Gosto de algumas histórias que ainda estão presas no fundo de algum arquivo. Mas é bastante difícil vir com algo inteligente para os jovens leitores. E o Brasil tem escritores para crianças e jovens de primeira grandeza. Eu posso apenas tentar, como em tudo o que eu faço”.

Entre os desejos para Isadora e suas venturas, ela confessa que adoraria ver as histórias da adolescente transformas em série. “Mas  acho que esse é o sonho de todo autor e seu livro é sempre aquele que daria uma série, né?”, ri. Enquanto a vontade não se realiza, segue colhendo a boa receptividade por parte de pequenos e grandes leitores, embora lamente pelo fato de o segundo volume ter sido publicado nesta quarentena. 

“Todos os planos que tínhamos para divulgá-lo foram para o espaço. Mas, se não, eu teria certamente feito o que fiz com o primeiro: lançamentos, uma maratona de visitas em escolas. Nunca autografei tantos livros quando aquele primeiro. Foram muitos colégios e não consegui visitar todos porque nunca dá tempo quando vou ao Brasil. Mas ouvir as leituras dos jovens, suas impressões, tudo isso é muito bacana. Enche a gente de esperança de estar fazendo uma coisa positiva. Fica até parecendo que escrever livros é mesmo algo de muita importância”, conclui.

Isadora e toda a turma que a acompanha estão aí para provar que sim. 

Arco-íris em preto e branco

Nara Vidal
Ilustrações de Suppa

Editora Dimensão
2014, 88 páginas
R$ 51

As cores do arco-íris
Nara Vidal
Ilustrações de Flávio Fargas

Editora Dimensão
2020, 144 páginas
R$ 51

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