Dono do tradicional restaurante Caravelle é lenda viva aos 90 anos

Oscar Vitor de Holanda fundou a casa no bairro Vila União nos anos 1960 e recepciona os clientes todos os dias.

Escrito por
Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
Na imagem, um senhor idoso, de pele clara, está sentado à mesa, olhando para o lado direito. Ele usa uma camisa branca de linho, um chapéu Fedora marrom e óculos escuros de sol. Suas mãos estão cruzadas e repousadas sobre uma toalha de mesa laranja ou um descanso de mesa. No fundo, desfocado, vê-se outra pessoa de camisa branca. A imagem tem a luz natural de um ambiente interno bem iluminado ou externo coberto.
Legenda: Seu Oscar Vitor de Holanda vai todos os dias ao Caravelle, onde fica disponível para conversar.
Foto: Thiago Gadelha.

Atenção, vereadores de Fortaleza: o homem segue vivíssimo. Não divulguem o contrário, por favor. Aos 90 anos, completos no último 27 de setembro, Oscar Vitor de Holanda faz história por fundar e continuar à frente do restaurante Caravelle, um dos mais emblemáticos da Capital.

A casa espelha o espírito camarada do dono desde a década de 1960, quando abriu as portas no Vila União e cravou personalidade única no bairro.

Chapéu marrom e óculos escuros, à la Patativa do Assaré, seu Oscar está na casa de domingo a domingo, em sintonia com o funcionamento do negócio. Não só gosta de estar presente como faria falta se não estivesse. Prova disso são as centenas de clientes que, faça chuva ou faça sol, lotam o espaço e sempre cumprimentam o carismático senhor.

“Aqui tem muita fartura, muita amizade. É uma casa abençoada”, vibra, voz bastante firme. Ele conta e o observador mais básico testemunha: uma das marcas do local é o clima familiar, capaz de congregar diferentes públicos e idades à mesa para saborear pratos que entraram para o paladar fortalezense – do churrasco ao filé passando pela clássica parmegiana, uma das pérolas mais cobiçadas do cardápio.

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Segundo o patriarca, esse DNA capaz de congregar sabor e camaradagem acompanha o restaurante desde o começo, e espelha a própria trajetória do proprietário. Natural do distrito de Furnas, em Aracoiaba – distante 73 quilômetros da Capital – seu Oscar veio para Fortaleza “rapazinho muito novo”, no fim da década de 1940.

Aqui, longe “do mato, da brenha e da caatinga”, comprava ovos e vendia fumo, a fim de manter o próprio sustento. Mediante intenso trabalho e dedicação, com o tempo comprou um terreno na esquina da Avenida Luciano Carneiro, e ali abriu um bar. 

Na imagem, uma visão de uma área de refeições externa ou varanda, possivelmente de um restaurante. Há várias mesas de plástico com toalhas de mesa verde-claras e cadeiras de plástico cinza dispostas em fileiras, alinhadas ao longo de uma parede clara. O chão é um padrão de xadrez de azulejos azuis e brancos. Um homem de camiseta marrom e shorts azuis está de costas, caminhando em direção a uma abertura em arco com um portão de ferro aberto, que leva a um espaço interno escuro. Na parede, há janelas em arco com grades de ferro. O teto é inclinado e tem vigas de madeira escura.
Legenda: Desde o começo, seu Oscar de Holanda quis que o Caravelle fosse um restaurante familiar.
Foto: Thiago Gadelha.

“Era muito prestigiado. Tinha frequência boa, muita gente vinha”. Lembra das cadeiras de plástico e da lona improvisada à época, em contraste com a realidade de agora. O panorama atual da casa, por sinal, deve-se muito à própria organização territorial de Fortaleza, tendo em vista que o antigo aeroporto da Capital ficava próximo ao restaurante.

A posição quase estratégica do empreendimento favorecia que, ao buscar ou deixar parentes e amigos nas viagens, pessoas passassem na casa para comer. Resultado: pouco a pouco, a clientela não apenas aumentou, como também fidelizou o espaço como um dos preferidos.

E assim o Caravelle – nome em alusão ao avião comercial a jato francês, o primeiro do mundo projetado para voos de curto e médio alcance – cresceu e apareceu.

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Tão logo o negócio tornou-se ponto de encontro, seu Oscar mudou também: viu a necessidade de o empreendimento refletir o alcance que tomava. Foi como promoveu transformações estruturais e culturais no recinto e imprimiu nele a própria assinatura.

Na imagem, uma foto de uma área de buffet de um restaurante self-service. O balcão do buffet é longo e retangular, com revestimento de azulejos brancos e detalhes em azul marinho. Bandejas de metal cheias de vários pratos de comida, como arroz, feijão, e carne, estão dispostas no balcão. Um protetor de acrílico está sobre as bandejas de comida, e há um cartaz preso a ele com a palavra
Legenda: Self-service do Caravelle é um dos pontos altos da casa.
Foto: Thiago Gadelha.

Um investimento importante para se consolidar no mercado é a programação cultural do restaurante. Durante alguns anos, o Caravelle promoveu generosa temporada de shows, com a presença de artistas do calibre de Agnaldo Timóteo, Moacyr Franco, Vanusa e José Augusto.

“Tenho muito orgulho disso porque foi resultado de um trabalho feito de dia e de noite”, comemora seu Oscar, que seguiu atrelado à cultura, embora de outro modo.

Na imagem, um close-up de um senhor idoso, de pele clara, que está sentado e olhando diretamente para a câmera. Ele veste uma camisa branca de linho de gola aberta e um chapéu Fedora marrom. Ele está usando óculos escuros grandes, com armação fina, que cobrem seus olhos. Suas mãos estão repousadas e cruzadas sobre uma superfície laranja. O fundo está desfocado, com tons de amarelo/laranja na parte superior e a silhueta de uma ou duas pessoas de camisa branca ao fundo. A iluminação é suave e natural.
Legenda: Seu Oscar fez questão de investir na programação cultural do restaurante
Foto: Thiago Gadelha.

Agora, artistas da própria terra se apresentam no estabelecimento nas noites de quinta, sexta e sábado, e um piano de média cauda, posicionado em lugar privilegiado no ambiente, é tocado durante os almoços de sábado e domingo, para fascínio geral do público.

“Se fosse pra começar tudo de novo, eu ainda queria. Lembro do começo, quando criei um churrasquinho misto, e era gostoso. Pegava filé, leitão, linguiça, e colocava no palito com uma rodela de cebola e um pimentão. Saía demais. Fico feliz em saber que, de algo tão pequeno, conseguimos construir isso ao lado de nossos amigos”.

Na imagem, uma vista de um pequeno palco ou área de performance em um salão de restaurante. O palco é elevado, com uma frente revestida de madeira escura. Sobre o palco há um piano coberto com um tecido de veludo verde escuro, e alguns alto-falantes de som e microfones. O teto sobre o palco é forrado com um material de cor marrom escuro e texturizado. Fora do palco, no salão, vê-se um extintor de incêndio vermelho pendurado em um pilar branco e um ventilador de parede grande, preto, no canto superior direito. Há outras mesas e cadeiras com toalhas de mesa brancas e laranjas no fundo à direita, e alguns ventiladores portáteis e um balcão de madeira claro à esquerda. O piso do salão é revestido com azulejos brancos.
Legenda: Piano de média causa do Caravelle é tocado aos sábados e domingos durante o almoço.
Foto: Thiago Gadelha.

Com o tempo, o salão encompridou, o serviço de self-service também, e além do restaurante em si, há ainda a pizzaria e a lanchonete do Caravelle, tudo funcionando no mesmo endereço.

“Foi muito difícil e, quem não me conhece, quando eu começar a contar a história, vai dizer ‘ô véi mentiroso do diabo’. Mas deu certo, estamos aqui”, gargalha.

O segredo para chegar aos 90 anos

Tão esperto quanto lúcido – cuja prole de 11 filhos multiplicou em 10 netos e três bisnetos –  seu Oscar é direto quanto ao segredo para chegar aos 90 anos: “Não morrer”, ri. 

“Na verdade, nem sei. Minha mulher dizia que eu era de ferro porque fui alcoólatra e fumava três carteiras de cigarro por dia. Deixei de fumar e beber por causa dela. Faz mais de 30 anos. Sinto que tenho uma grande resistência orgânica”.

Quando assim fala, mostra dois broches nos quais guarda tesouros: em um, a fotografia do rosto da esposa, dona Irismar, falecida em janeiro do ano passado; em outro, o casal lado a lado. Deve ser para nunca esquecer que do amor vem e para ele sempre irá.

“Não tenho doença nenhuma. Tive um probleminha renal, mas parece que está curado. Quando vou ao médico e ele vê meus exames, diz, ‘ah quem me dera, chegar aos 90 com essa saúde’. Me sinto muito vivo”. Tão vivo que um dos sonhos é, de fato, chegar ao centenário.

Na imagem, um close-up de um senhor idoso, de pele clara e com muitas sardas ou manchas senis, que está sentado e olhando para cima e para a direita. Ele está vestindo uma camisa branca de linho de gola aberta e um chapéu Fedora marrom. Ele usa óculos escuros grandes, com lentes escuras. Suas mãos estão cruzadas e repousadas em uma superfície ou toalha de mesa laranja na parte inferior da foto. Ele está sentado em uma cadeira de couro preta. O fundo está claro e desfocado, sugerindo um ambiente interno ou externo com boa iluminação.
Legenda: Agora, seu Oscar quer desfrutat do descanso após anos de entrega ao legado que construiu.
Foto: Thiago Gadelha.

E, claro, cada vez mais desfrutar do merecido descanso e conforto após tempos e tempos de entrega e luta ao legado que construiu. O Caravelle, resplandecente sob o sol, a lua e o bem-querer de toda uma cidade e além. “Sou um homem muito feliz”.

 

Serviço
Restaurante Caravelle
Endereço: Avenida Luciano Carneiro, 1936 - Vila União. Funcionamento: diariamente, de 11h30 às 14h30; de quinta a domingo, até às 23h. 

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