Descendente de pescadores, cearense estreia na literatura com obra sobre a vida dos povos do mar

“Memórias da Travessia”, de Melka Barros, é lançado de forma presencial nesta quinta-feira (26), na Livraria Lamarca

Legenda: Sobrinha e neta de pescadores, Melka Barros desenvolveu uma narrativa na qual apresenta a resistência e o encantamento em comunidades tradicionais pesqueiras
Foto: Divulgação

Embora natural de Fortaleza e, portanto, versada na dinâmica marinha, foi no povoado onde os pais nasceram, a 200 quilômetros da capital cearense, que Melka Barros cedo aprendeu a identificar o movimento das marés e a reconhecer os mistérios das águas. 

Vila de pescadores artesanais na década de 1990, Icaraí de Amontada foi cenário de uma infância e adolescência inquietas, em que o fascínio com o entorno fomentou profundas observações por parte da escritora. Ideias acumuladas ao longo de anos e que, agora, desaguam na primeira empreitada literária de Melka.

“Memórias da Travessia”, estreia da cearense no segmento das letras, ganha lançamento nesta quinta-feira (26), às 17h, na Livraria Lamarca. O momento, organizado para acontecer de forma presencial, contará com a presença da escritora e publicitária Mariana Marques, à frente da mediação do evento, e da poeta e pesquisadora Mika Andrade.

Gestada durante este período pandêmico, a obra adentra no universo das comunidades costeiras ao contar a história de um narrador que é transportado para a última morada. No decurso desse derradeiro trajeto, vestido de branco num caixão de madeira maciça escura, ele vai recordando as paisagens e pessoas integrantes de suas vivências na pequena localidade de Beijupirá – ambiente que passa por profundas mudanças e que foi capaz de desenhar, na fisionomia do protagonista, intensas experiências e reflexões.

Legenda: Melka percebe ter algo de encantado nas pequenas comunidades do interior do Ceará e transporta essa compreensão para as páginas do livro
Foto: André Nascimento

Ao Verso, Melka Barros – sobrinha e neta de pescadores – explica que o enredo nasceu de um conto escrito há um ano e meio, surgido a partir de um desejo antigo por parte da autora de desenvolver uma narrativa na qual pudesse apresentar a resistência e o encantamento da vida em comunidades tradicionais pesqueiras. 

“Acontece que achei um conto pouco, como é de se imaginar pela proposta. Então, escrevi outros contos. Ao longo de seis meses, criei dez, os quais enviava para uma pequena lista de e-mails com amigos e familiares chamada Travessias Literárias. Muitos me incentivaram a criar um blog ou um perfil no instagram, mas a internet, de tão ampla, me causa um sentimento de solidão, então preferi ficar no aconchego dos conhecidos”, confessa.

O que era para ser apenas uma tímida iniciativa de compartilhamento de escritos logo foi ganhando corpo quando a autora finalizou o projeto Travessias Literárias. A partir daí, pensou na proposta de condensar os contos em uma única linha do tempo, com um narrador a ser criado – algo que elege como o maior desafio. 

“Aproveitei uma pequena parte dos contos, mas quase tudo precisou ser adaptado à memória do narrador. Afinal, ele é quem determina o curso da história. Trabalhei mais seis meses no livro. Ao todo, passei um ano para a escrita dele, que foi justamente o ano da pandemia”, diz.

Encantamento e olhar crítico

Melka percebe ter algo de encantado nas pequenas comunidades do interior do Ceará e transporta essa compreensão para as páginas da novela. Composto por três capítulos e um posfácio assinado pela jornalista e pesquisadora em História Social, Monyse Ravenna, o trabalho elege a memória como fio condutor das diversas historietas que atravessam as vistas do protagonista.

Em primeira pessoa, ele conta como conheceu a família que o abrigou quando naufragou na praia de Beijupirá, na década de 1970, “com muita fome e pouca memória”. E, então, passa a imergir no cotidiano daquelas pessoas, detalhando costumes, crenças e ofícios, bem como as transformações ocasionadas no local onde as vivências acontecem, sobretudo devido a um turismo inconsequente e esmagador. 

Legenda: O trabalho de pesquisa realizado pela escritora foi um exercício de autoconhecimento, acolhendo a própria ancestralidade
Foto: André Nascimento

“O livro, que é sobretudo um livro de memórias, está alicerçado nas minhas vivências em Icaraí de Amontada, mas não só. Como defensora de direitos humanos, atuei por dez anos na defesa do território e do bem-viver de pescadoras e pescadores. Visitei muitas praias do Ceará. A ideia de criar Beijupirá foi também com o objetivo de adicionar às vivências em Icaraí de Amontada as experiências que eu tive em outras praias”, dimensiona Melka Barros.

Sendo assim, o trabalho de pesquisa realizado pela escritora foi um exercício de autoconhecimento, acolhendo a própria ancestralidade como mulher negra, filha de povos do mar e responsável por transformar as lembranças em escritos. 

“Sou de uma época em que o trato com os alimentos envolvia toda a família, desde a agricultura ou pesca até a preparação. Então, não diria que entendo de gastronomia”, afirma, ao atentar para um dos aspectos trabalhados na narrativa. “Entendo dos alimentos que a terra e o mar oferecem. Acho que a tarefa mais complicada foi escrever sobre a flora e os aspectos geomorfológicos das comunidades costeiras”.
Melka Barros
Escritora

Reconexão com o passado

Elegendo como espinha dorsal do trabalho a necessidade de acolher as memórias como parte essencial do que nos constitui como seres – sendo a reconexão com o passado algo inevitável para a construção do presente – Melka situa ainda que a relevância do lembrar reside na possibilidade de determinar a relação de proteção com o território em que vivemos. As memórias da travessia do narrador do livro, não sem motivo, nos mostram esse processo.

Elas são de alguma forma as minhas memórias também, as da minha mãe e as de muitas pessoas que acompanharam a transformação de seus territórios tradicionais”, destaca. Na obra, as comunidades de Beijupirá e Beijupirazinho convivem separadas por um rio que poderia muito bem ser um portal de 20 anos no tempo, tamanha a radiografia que traça capaz de demonstrar o peso das modificações impostas pela gana de dinheiro e de poder.

Legenda: A fé, bem como outros sentimentos e costumes vivenciados com vigor nas comunidades costeiras, também são evidenciados no trabalho
Foto: Ilustração de Larissa Andrade

E talvez aí resida o principal mérito de “Memórias da Travessia”. Munida de prosa envolvente e apurado olhar sobre o entorno – beneficiados pelas melancólicas ilustrações de Larissa Andrade – a obra consegue ir além do enredo central ao mirar na ocupação predatória das comunidades tradicionais, do desinteresse das novas gerações pelo passado e pela preservação do espaço, além do preconceito que silenciou o protagonista durante anos.

Enquanto escrevia a história, Melka, não sem motivo, estava preocupada em registrar a vida em comunidades costeiras, mas não queria fazer isso de maneira estritamente social, visto que as pessoas residentes nesses locais também vivem seus dramas pessoais – que, em alguma medida, derivam dos dramas sociais.

“Elas também se interessam por estudar, trabalhar, empreender, casar, mas muitas vezes são freadas pelo preconceito, baixa autoestima, homofobia, machismo e pobreza. Em comunidades onde o turismo exerce o controle simbólico, o poder do dinheiro quer determinar até onde é possível ou até onde não podemos ir”, contextualiza.

“Nessas comunidades, as pessoas nativas estão pré-determinadas ao trabalho precarizado desde adolescentes, mas isso não quer dizer que elas não sonhem com outras possibilidades. Às vezes elas se conformam por entenderem que não há nada que se possa fazer, e essa é a situação do protagonista, que prefere se esconder atrás da perda de memória. Para mim, não foi sempre claro atravessar todas essas temáticas humanas e sociais, mas a escrita me ajudou a organizar as ideias. Talvez, se eu não tivesse escrito, até hoje não compreenderia”.
Melka Barros
Escritora

Denúncia

Movida pela complexidade dessas questões, a escritora deseja, assim, que o público compreenda a obra como uma denúncia ao processo de desenvolvimento predatório pelo qual as comunidades tradicionais da zona costeira atravessam há duas décadas por conta da especulação imobiliária, turismo em larga escala e implantação de parques de energia eólica.

Isso não quer dizer que sou contra o desenvolvimento, claro. Quando o desenvolvimento respeita o modo de organização comunitária das pessoas que o recebem e os bens naturais do lugar, ele pode conviver harmoniosamente com os povos tradicionais”, salienta.

Legenda: As melancólicas ilustrações presentes na obra alocam o público às realidades descritas, como a implantação de parques de energia eólica em comunidades tradicionais
Foto: Ilustrações de Larissa Andrade

Existe, contudo, em sua visão, uma linha imaginária na qual o desenvolvimento passa a ser voraz e hostil, ameaçando o bem-viver e a memória das populações que ali habitam, assim como o meio ambiente. Um processo não apenas material, mas também subjetivo, capaz de mexer com a emoção dos habitantes desses territórios e que, em alguma medida, faz-nos ter dúvida de quem somos e de quais são as nossas prioridades

“Queremos viver em harmonia com a natureza ou queremos destruí-la para enriquecer? Eu queria que as pessoas que visitam as praias do Ceará pudessem conhecer um pouco mais do processo pelo qual passou aquela praia até se tornar um destino turístico”, aponta.

Legenda: “Queremos viver em harmonia com a natureza ou queremos destruí-la para enriquecer?", questiona Melka Barros por meio da publicação
Foto: André Nascimento

Neste momento também desenvolvendo crônicas enviadas por sua newsletter – cujo formulário de inscrição está disponível no perfil do instagram da autora – Melka planeja em breve escrever outra novela, igualmente ambientada em comunidade pequena. Dessa vez, porém, no sertão do Ceará, pelo qual também é apaixonada.

Até lá, além do lançamento, ela doará alguns exemplares de “Memórias da Travessia” para algumas bibliotecas comunitárias de Fortaleza e de outras cidades, certamente colhendo os bons ventos advindos de uma obra de estreia singela, intrigante e altamente sensorial, mobilizadora de novas perspectivas acerca de alguns dos nossos lugares mais sagrados porque ímpares, guardiões de um tempo dentro do tempo. 

Sem-par de magia e importância, eles seguem a cartilha de José Saramago (1922-2010) ao imergir, com sede de acolhimento e preservação,  no “novelo emaranhado da memória”.


Serviço
Lançamento do livro “Memórias da Travessia”, de Melka Barros
Nesta quinta-feira (26), às 17h, na Livraria Lamarca (Avenida da Universidade, 2475, Benfica). Com a participação da escritora e publicitária Mariana Marques e da poeta e pesquisadora Mika Andrade. Mais informações pelas redes sociais da Livraria Lamarca (facebook e instagram)


Memórias da Travessia
Melka Barros

Independente
2021, 120 páginas
R$50

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