De transporte à qualidade de vida, as bicicletas se consolidam nas ruas de Fortaleza

Ciclistas com diferentes experiências explicam como a capital cearense ganharia ainda mais com a democratização desse meio de transporte

Érica durante as aulas do Bike ANjo na Praça Luíza Távora
Legenda: Érica durante as aulas do Bike ANjo na Praça Luíza Távora
Foto: Acervo pessoal

Pedalar era um sonho distante para Érica Alcântara. "Venho de uma tradição de família, dos meus pais, que bicicleta era somente para meninos e meninas não tinham direito de possuir". Essa realidade mudou em 2021. 

Aos 49 anos, a artesã aprendeu a se locomover com uma bike. Pode parecer um gesto banal para muitos, mas para esta cearense representou superação. Logo primeira volta como ciclista, o passado ficava para trás. "Me senti um pássaro voando".

O feito de Érica dialoga com uma série de iniciativas, cuja missão é incentivar as bicicletas no cotidiano das metrópoles. Ela foi aluna da “Bike Anjo”. O projeto de alcance nacional atua na promoção desta modalidade de transporte na cidade. Além de andar sob duas rodas, os participantes aprendem a traçar rotas mais seguras em seus percursos.  

Ao longo dos anos, a implantação das ciclovias em Fortaleza repercute o momento favorável à prática do ciclismo. As bikes atendem diferentes públicos. É ferramenta de trabalho. Locomoção. Estratégia de saúde física e mental. Item valioso a movimentos ativistas que lutam por um espaço urbano mais democrático. 

Érica detalha que outro efeito dos pedais foi descortinar outra Fortaleza. A novidade estampada nas fachadas, arquiteturas e pessoas. Outra sintonia com o caos das vias. "Por mim, essa cidade teria mais bicicleta do que carro, pois eu me sentiria mais segura de pedalar em várias ruas, vários bairros”, reflete. 

Outra lógica

No último dia 22 de setembro, o “Dia Mundial sem Carro” reafirmou o alerta quanto à dependência dos automóveis. Integrante do Bike Anjo, Felipe Alves detalha que a missão da inciativa é democratizar a bicicleta como meio de transporte no dia a dia. A redução no limite de velocidade de avenidas da Capital é importante para o público que optou por deslocar-se nesta categoria de modal.  

Como exemplo, o voluntário cita a realidade da Av. Leste-Oeste. Um das principais avenidas da cidade diminuiu os acidentes após implantação do limite de velocidade.

“Maioria das pessoas se desloca e não tem conhecimento da segurança viária. A redução de 60 para 50 km não é feito sem critério. São avenidas com muita gente caminhando, usuários de transporte público, bicicletas. É algo sério e atende recomendações da OMS”, reforça. 

Mesmo com políticas públicas em andamento, o fator segurança continua regra basilar no trabalho desenvolvido pela Bike Anjo. O que inclui explicar o melhor trajeto da infraestrutura cicloviária, bem como mecânica básica. Para situações de um furo no pneu ou defeito na corrente.

Chegam pensando que será uma imensa dificuldade. Quando conseguem se equilibrar e passear, a vida da pessoa muda
Felipe Alves
Bike Anjo

Coragem em livro 

Ainda na infância, Maria Rosa encarou o preconceito de que mulher não pode pedalar. A então menina de Sambaíba, interior maranhense, aproveitou o momento em que o pai dormia e pegou a bicicleta dele. Foi libertador. “Se não tivesse um rio no caminho, tinha parado no Ceará”, se diverte. 

Em 2021, a fotógrafa e escritora comemorou 55 anos dedicados ao ciclismo. Essa história é contada por ela no livro “Meu Pedalar”, lançado em julho deste ano. Além dos versos da autora, a obra reúne ilustrações da jovem artista Maria Teresa, de 14 anos. 

Maria Rosa durante lançamento de
Legenda: Maria Rosa durante lançamento de "Meu Pedalar" no Parque do Cocó
Foto: Acervo pessoal

A bordo da monareta ano 1977, Maria Rosa efetiva o projeto "Eco Preservar. Incentiva e apoia crianças e adolescentes a ler, desenhar e cultivar hortas e plantas em escolas e casa. Pedalar para um mundo mais sustentável. Esta jornada já rendeu seis publicações independentes. "Escrevo, edito e confecciono meus próprios livros", detalha.

Saúde em dia 

O cuidado com a saúde é outro elogiado aspecto quando o assunto é ciclismo. Para a nutricionista Neu Silveira, essa atividade física é uma estratégia não farmacológica eficaz. Aliado à boa alimentação e sono regulado, previne o excesso de peso e reduz o risco de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT). 

Entre elas, o câncer, a síndrome metabólica, osteoporose, fibromialgia, diabetes mellitus tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares e neurodegenerativas. 

“Esses benefícios decorrem das adaptações fisiológicas promovidas pelo exercício, que aumentam a capacidade antioxidante total do organismo, reduzem a inflamação, melhoram a captação de glicose pelos tecidos (ajudando no controle da glicemia), melhoram a função respiratória, cardíaca, endotelial e reduz a rigidez arterial presente em várias doenças cardiovasculares (DCV)”, descreve a especialista em fisiologia humana. 

Corpo e mente de todas as idades agradecem. Segundo Neu Siveira, o treinamento aeróbico com bicicleta também induz a hipertrofia muscular. “O ganho de força promovido por esta atividade parece favorecer ainda mais os idosos, pois reduz a velocidade do processo de sarcopenia, que é a perda progressiva de massa muscular associada ao envelhecimento, reduzindo desta forma o risco de quedas”, detalha a entrevistada. 

Conquista coletiva 

Em 6 de novembro de 1999, o Diário do Nordeste trouxe um alerta acerca da realação cidade x o tema. "As bicicletas para além de um objeto de diversão ou opção de esporte tornou-se um meio de transporte barato que compõe o cotidiano de centenas de trabalhadores brasileiros. Certo também é que ciclistas, seja por necessidade ou prazer, não têm espaço exclusivo na capital cearense".  

A reportagem denunciava que apenas duas ciclovias atendiam toda a cidade. "Um trecho na avenida Washington Soares e outro na avenida Osório de Paiva e pronto. Por todo os lados, uma disputa onde quem vence é o maior sem que os acidentes sejam registrados", descreve a matéria.  

Há oito anos, eram implantadas as ciclofaixas da Rua Ana Bilhar e Canuto de Aguiar. A efetivação desses espaços veio após reivindicação da sociedade. Em junho de 2013, a Massa Crítica Fortaleza pintou ciclofaixas como tática de pressão popular. As intervenções ocorreram em ruas como Ana Bilhar, Av. Antônio Sales e Oscar Araripe, no bairro Bom Jardim. 

A luta destas vozes anônimas é contada no documentário "Massa Crítica Fortaleza - O Filme". "A Massa Crítica é uma forma de reivindicar as ruas para os ciclistas e para as pessoas, uma forma de expressão antagônica à chamada cultura do automóvel", descreve determinado trecho da obra que pode ser assistida abaixo. 

 

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