De oráculos a companheiros, livro traça relação entre humanos e animais e a urgência da boa interação

"Por que olhar para os animais?": violência contra cachorro no Paraná acende reflexão sobre o tema

Legenda: Cachorro morto por médico no Paraná era da raça Spitz Alemão; segundo escritor, os animais nos observam por meio de um estreito abismo de não compreensão
Foto: Shutterstock

Noite da última segunda-feira (10). Um médico foi preso após espancar um cachorro da raça Spitz Alemão até a morte, no município de Cascavel, no Paraná. À Polícia, o suspeito afirmou que a violência foi um modo de correção após o animal ter feito xixi em local errado. Embora o cão tenha sido levado a uma clínica veterinária, chegou ao local sem vida.

Feito esse, vários outros casos de agressão, abandono e desrespeito envolvendo bichos ocorrem diariamente no Brasil e no mundo. Ainda que intenso, o sentimento de revolta pouco leva a reflexões sobre a importância de não apenas mantermos uma boa interação com os sujeitos de outras espécies, como também entender a configuração histórica que nos fez conviver com eles.

Sobretudo nos primórdios das civilizações, os animais sempre constituíram o círculo imediato das coisas ao redor dos seres humanos. Ao lado das pessoas, os bichinhos ocupavam o centro de seu mundo – centralidade sem dúvida econômica e produtiva. Por mais que mudassem os modos de produção e de organização social, a raça humana dependia dos animais para se alimentar, trabalhar, se deslocar e se vestir.

Mas supor que esses seres teriam desde o início ocupado a imaginação do homem como carne, couro ou chifre é projetar sobre um passado milenar uma atitude típica do século XIX. Nessa época, teve início na Europa e na América do Norte um processo, consumado pelo capitalismo das multinacionais do século seguinte, de aniquilamento das tradições que até então haviam feito a mediação entre os humanos e a natureza.

Legenda: Os olhos de um animal, quando observam uma pessoa, são atentos e desconfiados; mas o mesmo bicho pode olhar de jeito semelhante para outras espécies
Foto: Shutterstock

Os animais, no início do mundo, entraram na imaginação humana como mensageiros e anunciadores de promessas. A domesticação do gado, por exemplo, não decorreu da perspectiva de obter leite ou carne. O gado tinha funções mágicas – por vezes oraculares, por vezes sacrificiais. A escolha de uma dada espécie como mágica, domesticável e alimentar foi determinada, originalmente, pela proximidade e pelo “convite” do animal em questão.

Quem elenca essas reflexões é o escritor e crítico de arte inglês John Berger (1926-2017) no livro “Por que olhar para os animais?”. Lançamento da editora Fósforo, a obra reúne oito textos do autor, os quais tratam da relação imemorial entre seres humanos e animais. 

De acordo com Berger, ainda mantemos espécies de estimação e visitamos zoológicos, mas “o olhar entre o animal e o homem, que possivelmente teve um papel crucial no desenvolvimento da sociedade humana, e com o qual, em todo caso, todo ser humano convivia até um século atrás, extinguiu-se”.

Proximidade e reconhecimento

Sobretudo no ensaio que intitula o livro, John Berger lança as bases da temática principal do trabalho. Para o autor, uma vez que os animais nascem, sentem e são mortais, eles se assemelham a nós. “Já em sua anatomia superficial, não tanto a profunda, em seus hábitos, em seu tempo e suas capacidades físicas, eles diferem do homem. Eles são e não são como o homem”, sublinha.

Os olhos de um animal, quando observam uma pessoa, são atentos e desconfiados. Mas o mesmo bicho pode olhar de jeito semelhante para outras espécies. Logo, não há um olhar especial para nós – embora nenhuma outra espécie, além da humana, reconheça como familiar o olhar do animal. Tomamos consciência de nós mesmos ao desenvolver esse olhar.

Os animais, conforme Berger, nos observam por meio de um estreito abismo de não compreensão. É por isso que somos capazes de surpreendê-los. Porém, mesmo domesticados, os bichos também são capazes de nos surpreender. E isso está igualmente ligado ao olhar.

A raça humana também olha por meio de um abismo de não compreensão – similar, mas não idêntico. E é assim para onde quer que olhemos. Estamos sempre visualizando as coisas e os seres por meio da ignorância e do medo, demarca o autor. E então, quando somos vistos pelos animais, isso acontece tal como o que nos cerca nos vê. 

Legenda: Livro destaca que os animais oferecem a nós um companheirismo muito diferente daquele propiciado pelas trocas humanas
Foto: Shutterstock

O reconhecimento dessa premissa é o que torna familiar o olhar do animal. Contudo, John volta a insistir: os bichos são diferentes de nós e jamais se confundem conosco. “Logo, atribui-se ao animal um poder comparável ao humano, mas que não coincide com este. O animal tem segredos que, à diferença dos segredos das cavernas, das montanhas ou dos mares, se dirigem especificamente ao homem”.

A bem da verdade, nenhum animal confirma um indivíduo humano, positiva ou negativamente. O animal pode ser morto e comido, de modo que a energia dele é adicionada à do caçador. Ou pode ser domesticado, de modo a prover o camponês, por exemplo. Mas todo o tempo a ausência de uma linguagem comum – o que Berger referencia como “o silêncio do animal” – garante a distância dele, sua distinção e exclusão da raça humana.

Legenda: Nenhuma outra espécie, além da humana, reconhece como familiar o olhar do animal; tomamos consciência de nós mesmos ao desenvolver esse olhar
Foto: Shutterstock

Precisamente por conta dessa diferença, a vida do animal, por mais que não se confunda com a nossa, pode ser vista em paralelo a ela. Apenas na morte essas duas paralelas convergem. E depois da morte, talvez, elas se cruzem e se tornem mais uma vez paralelas – daí a crença disseminada em alguns credos e religiões da transmigração das almas.

Companheirismo silencioso

Entre tantas ponderações, o livro também destaca que os animais oferecem a nós um companheirismo muito diferente do propiciado pelas trocas humanas. Distinto porque é um companheirismo oferecido à nossa solidão como espécie. 

“Esse companheirismo silencioso era considerado tão equilibrado que não raro acreditava-se que ao homem é que faltaria a capacidade de falar com os animais – daí as histórias e lendas de seres extraordinários, como Orfeu, que conversava com os animais na língua deles”, referencia John, citando o lendário poeta e profeta na religião grega antiga. 

Falando na Grécia, para essa civilização o signo de cada uma das doze horas do dia era um animal. Eles eram vistos em oito dos doze signos do zodíaco. Os hindus, por sua  vez, imaginavam o mundo sendo carregado nas costas de um elefante, este posicionado sobre o casco de uma tartaruga. “Os exemplos são infinitos. Por toda parte os animais ofereciam explicações ou, mais precisamente, emprestavam seu nome ou característica a uma qualidade que, como todas as qualidades, era em essência misteriosa”.

Legenda: A marginalização dos animais é seguida do descarte da única classe que preservou a sabedoria da intimidade com os bichos: o camponês
Foto: Shutterstock

Dedicando ao público leitor uma série de outros autores e obras para um melhor apanhado sobre o assunto – de Homero a Aristóteles, passando pela Disney e as invenções produtivas do século XX – Berger finaliza o ensaio explicando que os zoológicos, com os próprios dispositivos teatrais de exibição, já em tempos remotos eram a demonstração de que os animais haviam sido totalmente marginalizados. Também os brinquedos realistas aumentaram a demanda por esses novos “fantoches animais”: os pets urbanos.

Enquanto a reprodução biológica dos bichos se torna um espetáculo cada vez mais raro, a reprodução imagética deles se viu forçada, por uma lógica de mercado, a transformá-los cada vez mais em seres exóticos e remotos. Assim, infelizmente a marginalização dos animais vem sendo seguida da marginalização e do descarte da única classe, segundo o autor, que ao longo dos tempos manteve a relação com os bichos e preservou a sabedoria que acompanha essa intimidade: o camponês, seja ele pequeno ou médio.

“A base dessa sabedoria é a aceitação do dualismo entre homem e animal. A recusa desse dualismo provavelmente desempenhou um papel importante para que se abrisse a via para o totalitarismo moderno”. E é cada vez mais fundamental aprofundar o pensamento acerca disso.

 

Por que olhar para os animais?
John Berger
Tradução de Pedro Paulo Pimenta

Fósforo
2021, 106 páginas
R$59,90/ R$39,90 (e-book)

Você tem interesse em receber mais conteúdo de entretenimento?